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“Você
acha que vai chegar lá e encontrar a rainha da Inglaterra”,
diz ele, que se surpreendeu com a descontração de Lula |
A menos
de um mês de lançar seu primeiro longa-metragem de
ficção, O Caminho das Nuvens, Vicente Amorim,
36 anos, compara sua ansiedade à de uma mãe de miss,
que “quer que a filha esteja bonita e fica falando bem dela
o tempo todo”. A obra de Vicente, porém, chega às
telas de cinema para disputar a atenção do público
com larga vantagem. Antes de estrear, o filme passou pelo crivo
de um júri de peso composto pelo presidente
da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo cantor
Roberto Carlos e pelo ministro das Relações Exteriores
Celso Amorim, pai de Vicente. O ministro, que foi assistente de
dire-
ção em Os Cafajestes, de Ruy Guerra, em 1962,
e presidente da Embrafilme de 1979 a 1982, trocou o cinema pela
diplomacia e dimensiona o que está sentindo: “É
a minha realização através do meu filho”.
Não
foi com esse entusiasmo que Celso Amorim reagiu há quase
vinte anos, quando lhe foi comunicado que o primogênito de
seus quatro filhos abandonaria a faculdade de Economia. “A
reação dele foi: ‘Quer fazer cinema, se vira’.
E parou de me mandar grana”, lembra o diretor, que na época
morava com sua avó materna porque seus pais viviam na Europa.
“Queria que ele se formasse”, explica o ministro. Coube,
então, a Vicente procurar amigos do pai, como os cineastas
Nelson Pereira dos Santos e Leon Hirszman. Embora a carreira não
tenha sido estimulada, o gosto pela sétima arte foi. “Em
vez de gastar dinheiro em roupa, comprava filmes”, conta Celso,
que nas projeções de clássicos, como produções
de Charles Chaplin, que fazia em casa, contava sempre com Vicente
na platéia.
Natural,
portanto, que ele recorresse ao pai quando escreveu o roteiro de
O Caminho das Nuvens. Ao ler o texto, o ministro não
se conteve e deu opiniões. “Meu pai deveria ganhar
crédito como colaborador”, diz Vicente, que é
casado pela segunda vez e tem um filho de 4 anos. Deve-se ao embaixador
também o primeiro contato do diretor com Lula, em janeiro
passado. Vicente havia telefonado para o celular do pai. Ele disse
ao filho que estava ocupado e, de surpresa, passou a ligação
para o presidente. “Quando o Lula veio ao telefone, fiquei
mudo”, relembra o diretor que, diante da pergunta do presidente
sobre seu filme, prometeu mostrar o longa assim que estivesse pronto.
A
exibição foi há um mês, na badalada sessão
no Palácio da Alvorada, na qual estavam presentes também
a primeira-dama, Marisa, o elenco do filme, que inclui Cláudia
Abreu e Wagner Moura, e outros ministros. Vicente não escondia
o nervosismo. “Você acha que vai chegar lá e
encontrar a rainha da Inglaterra”, diz ele, que se surpreendeu
com a descontração do presidente. A aprovação
de Lula veio durante a exibição.
Com
um olho no filme e outro nas reações do presidente,
o diretor o flagrou chorando ao ver na tela uma história
parecida com a dele, a de uma família de retirantes nordestinos
que viaja de bicicleta até o Rio atrás do sonho de
uma vida melhor. “Ele me disse que houve também identificação
com sua trajetória política: ele esteve sempre buscando
o sonho de conseguir chegar à Presidência para dar
ao Brasil inteiro uma vida melhor”, diz Vicente, que teve
de fazer um discurso a pedido de Lula no jantar após o filme.
Segundo o diretor, a emoção de conhecer Lula, a quem
pediu autógrafo e com quem tirou fotos, só é
comparável à de estar perto de outro ídolo,
Roberto Carlos. “Mas aí a situação era:
‘me dá um autógrafo e me libera oito músicas’”,
diz ele, que incluiu-as no filme. Muito exigente, o cantor só
liberou depois de ler o roteiro, num namoro que durou dois anos.

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