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Reportagens

04/08/2003

   
 
Fotos:Piti Reali
Acima, com a mulher Rioko, que começou a namorar na cadeia
Como professor

 

Gente Fora de Série
José Genoino - continuação
Capítulo 3
Da tortura à liberdade

 
Piti Reali
Genoino tornou-se corintiano porque, para
curar o medo de enfrentar a multidão, foi
ao estádio na final do Campeonato Paulista
de 1977, quando o Corinthians quebrou
o jejum de 23 anos sem ganhar título
Na casa de detenção havia uma cela para cada dois presos. Durante o dia eles ficavam nos corredores, liam, jogavam futebol e assistiam à tevê. Genoino começou a namorar sua atual mulher, Rioko Kayano, 54 anos, na prisão. Eles se conheciam do movimento estudantil mas eram apenas amigos. Até que dois encontros o marcaram para sempre. O primeiro, em Brasília. Entre sessões de tortura, Genoino teve que reconhecê-la através do vidro da sala de interrogatório. O segundo, no Doi-Codi em São Paulo, quando se cruzaram no corredor, ambos escoltados por policiais. Num gesto espontâneo, eles burlaram a sisudez da cadeia e se abraçaram pela primeira vez:

-- Agüenta firme – sussurrou Genoino no ouvido dela.
– Tá tudo bem – respondeu Rioko, que foi presa no dia
em que chegou ao Araguaia para a guerrilha.

Com ajuda de carcereiros, os dois se corresponderam clandestinamente. Escreviam cartas em maços de cigarro, em papel higiênico e nunca se viam. Tornaram-se cúmplices. “No dia 6 de outubro de 1973 ela me propôs namoro. Eu aceitei”, conta o presidente do PT. Rioko ganhou liberdade condicional três anos antes de Genoino, que cumpriu cinco de prisão.
Seu período no cárcere terminou no Ceará, sua terra natal, numa transferência que ele não queria. Temendo pela vida, chegou a assinar um documento para seu então advogado,
o hoje deputado federal, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), no qual garantia que não se suicidaria. Sua mãe, que vivia a dor de ter um filho preso, passou mal quando recebeu notícias de seu primogênito. Foi visitá-lo na cadeia e não disse uma palavra. Chorou apenas. “Tentei explicar, mas
ela não entendeu”, recorda. Pelas portas do Instituto Penal Paulo Sarasate, de Fortaleza, Genoino recuperou a liber-
dade, na tarde de 18 de abril de 1977.

No dia seguinte voou para São Paulo com uma idéia fixa: encontrar a namorada Rioko. Durante sete anos, dois de guerrilha e cinco de prisão, Genoino não manteve relações sexuais. Por isso, além de finalmente ver a mulher que amava à distância, o encontro estava cheio de expectativas. Eles se encontraram no dia 1º de maio de 1977 e foram para o apartamento de Rosa, irmã de Rioko. Não beberam nada, porque o fígado de Genoino, maltratado pelos remédios contra malária, já não permitia mais extravagâncias. Falaram das dores, das experiências, do futuro. E viveram uma noite de amor que ficou eternamente gravada na memória. Nunca mais se separaram. “Foi inesquecível”, diz ele.

Trechos de uma carta de Genoino enviada à família da prisão
“Estou preso agora em Fortaleza. Aqui cheguei em novembro de
75. Essa transferência foi forçada e trouxeram-me contra a minha vontade. Isso foi mais uma injustiça.(...) Tudo o que vivi aí continua vivo em
minha memória, como o sofrimento e a exploração a que estamos
submetidos. Isso é uma das razões que me impulsionam a continuar
na luta para acabar com a opressão do nosso povo”

Genoino reclamava do fato de levar “uns sustos”. Era como se estivesse desacostumado a andar sem escolta policial. Para superar essa sensação de eterno sobressalto, um psiquiatra amigo de Rioko sugeriu que enfrentasse a mul-
tidão, no lugar de evitá-la. “Vá a um jogo de futebol”, pro-
pôs ele. Genoino seguiu o conselho. O estádio do Morumbi estava lotado. Era a tarde da histórica final do campeonato paulista entre Corinthians e Ponte Preta, quando o time paulistano quebrou um jejum de 23 anos sem ganhar campeonatos. “Quando vi o estádio coberto de preto e branco, aquela gritaria, foi como se eu entrasse em órbita. Fiquei embriagado, louco”, lembra Genoino, que até então não tinha time. Passou a madrugada festejando o título e amanheceu um corintiano roxo.

O casal alugou um quarto para morar. Rioko, enfermeira, trabalhava no Centro de Saúde Escola. Genoino foi dar aulas de história num cursinho. Com exceção de alguns diretores, ninguém sabia de sua vida. Era o início da abertura política,
o Brasil gritava pela anistia e havia ainda uma certa tensão no ar. O momento pedia certa cautela. Até que um dia o Jornal da Tarde escancarou uma série de reportagens so-
bre a guerrilha do Araguaia e a vida de Genoino foi desvendada naquelas páginas. Na segunda-feira seguinte
a turma ficou muda. O silêncio constrangeu o professor sempre animado e gozador, que, sem fazer graça, passou
a matéria. No final ouviu:
-- Professor, agora conta a sua história.

Não Perca!
Na próxima edição o último capítulo da biografia do ex-guerrilheiro:
AS CONSEQüÊNCIAS DA TORTURA CONTRA AS QUAIS LUTA ATÉ HOJE, A RELAÇÃO PARANORMAL COM SUA PRIMOGÊNITA, A FILHA QUE TEVE FORA DO CASAMENTO DE 26 ANOS E A VIDA DE POLÍTICO.

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