Veja também outros sites:
Home •• Revista ••• Reportagens •••• Gente fora de série  
Reportagens

04/08/2003

   
 
Luiz Antonio Ribeiro
Ele passou nove meses preso em Brasília sem
ser fichado: era como
se não existisse e pudesse ser morto a qualquer momento
Pmilton Pelegrine
‘Começaram com telefone (tapa nos ouvidos) e foram alternando com afogamento. Depois
me puseram de pé, com o calcanhar sobre latinhas que tinham
brasa queimando’
José Genoino, que foi torturado na selva e depois em Brasília
 

 

Gente Fora de Série
José Genoino
Capítulo 3
Da tortura à liberdade
Professor de cursinho após cinco anos de prisão, ele começou a namorar sua mulher na cadeia usando os carcereiros para trocar bilhetes e cartas e quando a encontrou pôs fim a um jejum de sete anos sem relações sexuais

Cecília Maia

 

Resumo dos capítulos 1 e 2
Genoino trabalhou na lavoura e só foi para a escola aos 11 anos. Por causa de um padre de esquerda se interessou
por política. Descobriu o movimento cultural dos anos 60 com uma namorada 15 anos mais velha. Entrou para o movimento estudantil, foi para a guerrilha do Araguaia, onde pegou 30 malárias, e em 1972 foi preso em plena selva.

Fotos: Arquivo Pessoal
‘Não tem mais salário. Nem
serei mais doutor. Vou para
uma luta e não sei se volto’
José Genoino, ao avisar a mãe
que iria para a clandestinidade

Com as mãos amarradas, Genoino, a pé, era puxado por um dos pistoleiros, a cavalo. Levavam-no de volta ao acampamento abandonado pelos guerrilheiros. Durante a caminhada, nervoso, tentou pensar rápido. “Era melhor fugir”, concluiu. De súbito, puxou a corda e correu. “Pode matar”, gritou. Atiraram. A bala passou de raspão no braço direito. Continuou a correr. De repente, caiu numa moita. Per-
deu a força e foi recapturado. Ouviu do sargento Marra
o comentário de que agricultor não manda matar. Mas
ficou quieto. No acampamento foi acomodado no chão
de um dos barracos, onde entrou um cachorro, um vira-
lata de tom amarelado. “Ele se aproximou, abanou o
rabo e ficou me cheirando”, recorda.

– Tá vendo, o cachorro dos terroristas conhece ele! –
berrou Marra sem ter mais dúvidas.
- Eu já disse que vinha sempre aqui fazer negócio – argumentou Genoino.

Não adiantou. Naquele 18 de abril de 1972, o jovem que queria mudar o mundo conheceu a brutalidade da tortura. “Eles começaram com telefone (tapa nos ouvidos) e foram alternando com afogamento (no qual a vítima fica pendurada de cabeça para baixo)”, conta. “Depois me puseram de pé, com o calcanhar sobre latinhas que tinham brasa queimando.” Genoino não sabia onde estavam os guerrilheiros daquele acampamento. Por isso apanhava, mais e mais. À noite, quando todos dormiam, ele se jogou no chão de terra, algemado e com os tornozelos presos por correntes. Não conseguia fechar os olhos. Viu o cachorro voltar. Ele lambeu seu rosto sujo, suado e se deitou ao lado. “Chorei. Era um momento inesperado de carinho”, diz o ex-guerrilheiro.

Reprocução
Em ato público pela anistia em
1978. Quando a mãe foi visitá-lo
na prisão, ela nada falou: só chorava

Os dias que se seguiram se resumiram a sofrimento físico. Genoino só foi identificado cinco dias mais tarde em Brasília. Encapuzado, enfrentou o pau de arara, levou choques elétricos e passou a administrar a própria vida jogando com o tempo e as informações que ia soltando aos poucos. “O que falei não prejudicou a guerrilha e nem atingiu a vida de ninguém”, afirma. “Quando identifiquei onde eu morava no Araguaia e as pessoas que moravam comigo, já tinha dado tempo de eles fugirem, porque se eu não voltasse em cinco dias era para fugir.” Até hoje, Genoino é acusado de delator por causa dessas informações. “Isso magoa”, diz ele. Com o semblante triste, afirma: “Só me acusa quem não viveu o que eu vivi”.

Genoino ficou nove meses em Brasília fora da lista oficial de presos. Era como se não existisse, por isso, poderia ser morto a qualquer momento. Sofria tortura a cada informação nova que o governo obtinha sobre a guerrilha do Araguaia. As agressões só cessaram com o início da formalização de seu processo, em fevereiro de 1973, quando foi transferido para São Paulo. Passou por longo interrogatório no Doi-Codi, foi levado para o Dops – órgãos de repressão da ditadura – e acabou no pavilhão 5 do presídio do Carandiru. “Parece ironia, mas foi lá que minha vida ganhou tranqüilidade”, diz.

1 | 2

Comente esta matéria
 
 

Clique para vê-la ampliada
EDIÇÃO 209
ENQUETE
Na sua opinião,
quem é a musa
de Mulheres Apaixonadas?
:: VOTAR ::
 
FÓRUM
 
QUEM SOU EU?
 BUSCA

Aniversário

Colocamos as principais notícias do ano que você nasceu em uma home page.
 
RESUMO DAS NOVELAS
Saiba o que vai acontecer durante a semana na sua
novela preferida

Se sua vida fosse uma novela, seria...

• Fale conosco
• Expediente
• Assinaturas
• Publicidade
 
| ISTOÉ | ISTOÉ DINHEIRO | PLANETA | EDIÇÕES ANTERIORES | ESPECIAIS |
| ASSINE A NEWSLETTER | ASSINATURAS | EXPEDIENTE | FALE CONOSCO | PUBLICIDADE | AVISO LEGAL
© Copyright 1999/2003 Editora Três