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Reportagens

04/08/2003

   
 
Fotos: Arquivo Pessoal
Em 1982, Genoino retorna ao Araguaia, onde foi preso dez
anos antes, e discursa para a multidão
Fotos: Arquivo Pessoal
Em 1975, em frente
ao presídio Barro
Branco, onde ficou durante nove meses
Fotos: Arquivo Pessoal
‘Me demita e pague o que mereço porque já fiz minha opção: quero lutar por uma sociedade mais justa’ José Genoino, ao seu chefe na IBM, antes
de entrar para o clandestino PC do B

 

Gente Fora de Série
José Genoino
Capítulo 1
Da clandestinidade à prisão
O funcionário da IBM que ia trabalhar de ressaca depois de passar a noite namorando na deserta Praia do Futuro, em Fortaleza, virou guerrilheiro e pegou 30 malárias no Araguaia

Cecília Maia

 

Resumo do capítulo 1
Menino pobre do sertão cearense, Genoino trabalhou na lavoura, só foi para a escola aos 11 anos e calçou o primeiro sapato aos 14. Com ajuda do padre Salmito, ligado à esquerda católica, concluiu os estudos e começou a se interessar pela política. Em Fortaleza, conheceu uma mulher mais velha, que mudaria sua vida.

Fotos: Arquivo Pessoal
‘Não tem mais salário. Nem serei mais doutor. Vou para uma luta e não sei se volto’ José Genoino, ao avisar a mãe que iria para a clandestinidade

Professora, 15 anos mais velha e sua vizinha, Leucimar dava aulas na Universidade Federal do Ceará. O primeiro beijo entre Genoino, que mal completara 18 anos, e ela aconteceu dentro do cinema durante a exibição de Zorba, o Grego. À primeira noite de amor no apartamento da professora, seguiram-se outras, inúmeras. A paixão foi avassaladora. Era uma relação clandestina, instigante e totalmente livre, inclusive de compromissos futuros.

Com Leucimar ele descobriu o movimento cultural do início dos anos 60. Acompanhava os festivais de música. Genoino se tornou cada vez mais falante. Debatia o futuro nos bares de Fortaleza citando Jean Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir, autores que passou a ler com Leucimar, que a essa altura deixou de ser visita bem-vinda à casa
dos Garcia, a morada arranjada por padre Salmito para concluir os estudos. A pressão dos Garcia para que o romance – considerado escandaloso – acabasse cresceu até que um dia ele não teve dúvidas. Juntou as roupas e anunciou: “Estou indo embora”.

Naquele ano, 1965, a IBM lançou o primeiro concurso em Fortaleza para fazer o cadastramento de terras do Ibra, Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, o antigo Incra. Genoino passou. Trabalhava no computador 14.01, de cartão, que ocupava uma sala inteira da sede da empresa e mais tarde passou a operar um Barra 360, de fita, que preenchia uma parede. Pela primeira vez podia ajudar a família. O resto do salário gastava com o aluguel de uma quitinete, e, claro, com intermináveis farras noturnas.

No ano seguinte, Leucimar foi para a França fazer um curso de pós-graduação. Genoino superou a tristeza redobrando
as esbórnias noturnas. Levava namoradas para passar as noites de lua na até então deserta Praia do Futuro. Acordava com o corpo sujo de areia e várias vezes ia trabalhar de ressaca. Sua vida, porém, não passava imune à efervescência política do Brasil pós golpe de 1964. As universidades se tornaram centros de debates e de decisão política e Genoino não quis ficar de fora. Fez vestibular. Seu chefe, o superintendente da IBM no Ceará, sugeriu o curso de economia, o que lhe garantiria um futuro na empresa. Mas, já rebelde, fez filosofia. Passou.

Genoino tornou-se conhecido em Fortaleza. Gostava de dar opinião nas assembléias lotadas, tinha um discurso coerente de esquerda, por causa de padre Salmito. Por isso, foi natural que na primeira eleição para o Centro Acadêmico seu nome surgisse como preferido. “Resisti durante mais de um mês. Sabia que se entrasse nisso, seria de cabeça.” De novo o pressentimento. De novo sua vida estava para mudar. Era o ano de 1967. Genoino passou a freqüentar congressos clandestinos de estudantes e a organizar passeatas que
em geral terminavam em confronto com a polícia. Acabou tendo sua primeira prisão preventiva decretada. Escondido, faltou a uma semana de trabalho:

– Você sabe o que está fazendo? – perguntou William, o superintendente da IBM.
– Sim – respondeu com segurança.
– Você não prefere largar tudo isso e fazer um curso no Rio que lhe dará chances de crescer na empresa?
– Dr. William, eu entrei nisso para valer. Me demita e pague o que mereço porque já fiz minha opção: quero lutar por uma sociedade mais justa.

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