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Consegui com as freiras Filhas de Santa Tereza que o Genoino estude
lá sem pagar – disse a Sebastião.
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Não, padre. Filho de pobre que nasce na roça tem que
trabalhar é na roça mesmo – respondeu o pai
de Genoino.
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Mas seu filho é esperto, inteligente, não dá
para perder essa oportunidade – retrucou o padre, diante do
olhar arregalado de Genoino, que escutava a conversa dos adultos
calado, num canto da sala.
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Deixe, Sebastião, é melhor para ele ir estudar. Deixe
ele ter um futuro melhor do que esse da roça – interveio
a mãe.
A
conversa durou mais de meia hora. Contrariado, Sebastião
cedeu. Genoino vibrou quieto, para não provocar o pai. E
sua vida mudou com a ajuda do padre.
Aos
14 anos, deixou para trás a enxada, a casinha de tijolo,
os pais e os, àquela altura, oito irmãos (no total
são 12) para seguir padre Salmito. Foi morar na casa paroquial,
ajudava a rezar as missas, fazia hóstias, cuidava da administração
da casa e do salão da igreja, enquanto ia à escola.
Teve que superar dificuldades. “Nunca tinha colocado sapato
nos pés. Andava torto, mancando”, lembra. Também
agüentou calado o incômodo apelido de “filho do
padre”. A amizade entre o jovem e o religioso cresceu. Padre
Salmito sabia dos flertes do rapaz na escola e até achou
graça de sua paixão platônica por uma freira.
“Conversávamos sobre tudo e foi com ele que comecei
a entender a política”, lembra Genoino.
Foi
também com o padre que Genoino entrou pela primeira vez num
prostíbulo. “Fomos dar a extrema-unção
para a
dona da casa, que estava doente”, conta. “Achei tudo
estranho, aquelas mulheres tão maquiadas, corpo à
mos-
tra, casa cheia de enfeites.” Entrou e saiu mudo. Bem diferente
da atitude que tomou quando o dono do cinema
de Senador Pompeu decidiu acabar com a meia-entrada
para estudantes. Revoltados, quebraram tudo a pedradas. Foi seu
primeiro ato de rebeldia.
Genoino
começou a descobrir um novo mundo nas pregações
esquerdistas do padre que ajudava trabalhadores a se organizarem
em sindicatos e cooperativas. Participou dos encontros do Grupo
de Estudantes Católicos (GEC) em Recife, Maceió e
Campina Grande, onde conheceu Frei Betto, na época, o dirigente
nacional do GEC. “Passamos vários dias juntos discutindo
questões sociais. Era um grupo imenso e foi um encontro muito
produtivo”, relembra Frei Betto, hoje assessor especial do
presidente Lula.
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Com
os irmãos Laíde, Giovani,
Guimarães e Vagner no ano passado |
Após
concluir o Ensino Fundamental, Senador Pompeu se tornou pequena
para as aspirações do rapaz que pensava em ganhar
dinheiro e ajudar a família. Para cursar o Ensino Médio,
teria de se mudar para a capital. De novo, não tinha condições.
Padre Salmito o ajudou. Arranjou
uma família amiga para abrigá-lo em Fortaleza, onde
Genoino chegou meses antes do golpe militar de 1964.
Fez exames do MEC e conseguiu terminar em um os
três anos do Ensino Médio.
Falante
e animado, logo fez amigos na capital. Conver-
sava cada vez mais com uma vizinha, professora universitária,
15 anos mais velha, que certa vez o con-
vidou para ir ao cinema. Estava para completar 18 anos.
A caminho do encontro, nervoso, pressentiu: sua vida
estava para mudar radicalmente outra vez. Mas agora,
pelas mãos de uma mulher.
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