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Ele
entrou pela primeira vez num
prostíbulo com um padre, para dar
a extrema-unção para a cafetina |
Manhã
do dia 18 de abril de 1972, um dos anos de chumbo da ditadura militar.
Como de costume, o lavrador José Geraldo andava na mata da
região de Xambioá, no Araguaia. De repente, surgiu
a polícia, que estava à procura de um grupo suspeito
de organizar uma guerrilha para derrubar o governo. Desconfiados
do lavrador, o algemaram junto a uma árvore. José
Geraldo era, na verdade, codinome do guerrilheiro José Genoino
Neto, hoje presidente do PT. Naquela hora, ele jurava inocência.
A polícia fotografou a cena. Sem saber, congelou um momento
importante da história do País – e o mais difícil
dos 26 anos de vida do guerrilheiro. Foi um dos poucos registros
da sua juventude. Na infância, não teve a sorte de
posar para
um retratista. “Ali eu pensava na minha família, que
es-
perava ter um filho doutor para ajudá-los”, conta.
Genoino sentira a incômoda certeza de que estava muito distante
do futuro imaginado quando criança.
Ele
era o filho mais velho do agricultor Sebastião Genoino Guimarães
e da professora Maria Laís Nobre Guimarães. Ainda
contava a idade nos dedos de uma mão e já sabia usar
a enxada para arar a terra na zona rural do pequeno e pobre Encantado,
distrito da cidade cearense de Quixeramobim. A família plantava
mandioca, feijão e arroz. Eram meeiros, pois a colheita era
dividida com o dono da terra, a “meia”. Não viam
dinheiro. A labuta diária rendia alimentos, quando o clima
do semi-árido permitia. Em tempos de seca, Sebastião
ouvia o ronco da barriga vazia dos filhos. “Dividíamos
o parco caldo de feijão com farinha ou a farinha com rapadura,
que era barata”, lembra o ex-deputado.
Nada,
porém, havia sido pior do que o ano de 1958. Nem a novena
de Laís, que reuniu a vizinhança para uma interminável
reza no dia de São José, evitou a seca. Com apenas
11 anos, José Genoino seguiu para uma frente de trabalho
para não ver seus seis irmãos sem comida. A barragem
de Quixeramobim tem o seu suor. Ele carregava pedras num carrinho
para ajudar na construção. Ao final do dia, ganhava
pontos no cartão da frente e assim podia pegar alimentos
no armazém. Testemunha da vida dura do filho, Laís
insistia na vida escolar. “Aprenda, meu filho. Se você
souber ler pode ir embora e ganhar dinheiro para ajudar a gente”,
repetia como uma ladainha.
Laís
ensinava o be-a-bá em casa para as crianças da região.
Genoino aprendeu a escrever o nome e sabia juntar as letras, mas
só entrou numa escola após a seca de 1958. Foi matriculado
no grupo escolar do Encantado. O distrito se resumia a uma praça,
uma igreja e uma estrada de terra batida, ladeada por 20 casas.
Estranhou no início os colegas e a professora, mas estava
determinado. “Queria ler mais e mais para poder ir embora,
então comecei a me esforçar para ser o primeiro da
classe.” Conseguiu. Pesarosa por ver aquele esforço
desperdiçado na pobreza, a professora decidiu lhe ensinar
os ofícios de coroinha. Assim, ele poderia ajudar padre Salmito,
que duas vezes por mês aparecia para rezar missa, fazer casamentos
e batizados.
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Em
1968, com grupo de amigos
alunos do primeiro ano de Direito |
Dividindo
o tempo entre a igreja, a roça e a escola, o menino chegou
à quarta série do Ensino Fundamental. Para continuar
os estudos, teria de se mudar para Senador Pompeu, a maior cidade
da região. Lá, não havia escola pública,
só colégios particulares ligados à Igreja,
mas a família não podia pagá-los. Até
que um dia padre Salmito, que é amigo de Genoino até
hoje, chegou com boas novas:
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