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Reportagens

28/07/2003

   
 
Fotos: Reprodução
Genoino em 1966,
como funcionário
da IBM no Ceará: rara foto sem a barba
Fotos: Reprodução
‘Dividíamos o parco caldo de feijão com farinha ou a farinha com rapadura, que era barata’
José Genoino, sobre a infância pobre
Fotos: Reprodução
‘Queria ler mais e mais para poder ir embora, então comecei a me esforçar para ser o primeiro da classe’
José Genoino
Fotos: Reprodução
A carteirinha do centro acadêmico, em 1968, e
a Carteira de Trabalho

 

Gente Fora de Série
José Genoino
Capítulo 1
Da infância pobre à guerrilha
O presidente do PT se alistou numa frente de trabalho contra a seca com apenas 11 anos, aos 14 calçou seu primeiro sapato e foi empregado de multinacionais antes de virar guerrilheiro

Cecília Maia

 
Ele entrou pela primeira vez num
prostíbulo com um padre, para dar
a extrema-unção para a cafetina

Manhã do dia 18 de abril de 1972, um dos anos de chumbo da ditadura militar. Como de costume, o lavrador José Geraldo andava na mata da região de Xambioá, no Araguaia. De repente, surgiu a polícia, que estava à procura de um grupo suspeito de organizar uma guerrilha para derrubar o governo. Desconfiados do lavrador, o algemaram junto a uma árvore. José Geraldo era, na verdade, codinome do guerrilheiro José Genoino Neto, hoje presidente do PT. Naquela hora, ele jurava inocência. A polícia fotografou a cena. Sem saber, congelou um momento importante da história do País – e o mais difícil dos 26 anos de vida do guerrilheiro. Foi um dos poucos registros da sua juventude. Na infância, não teve a sorte de posar para
um retratista. “Ali eu pensava na minha família, que es-
perava ter um filho doutor para ajudá-los”, conta. Genoino sentira a incômoda certeza de que estava muito distante
do futuro imaginado quando criança.

Ele era o filho mais velho do agricultor Sebastião Genoino Guimarães e da professora Maria Laís Nobre Guimarães. Ainda contava a idade nos dedos de uma mão e já sabia usar a enxada para arar a terra na zona rural do pequeno e pobre Encantado, distrito da cidade cearense de Quixeramobim. A família plantava mandioca, feijão e arroz. Eram meeiros, pois a colheita era dividida com o dono da terra, a “meia”. Não viam dinheiro. A labuta diária rendia alimentos, quando o clima do semi-árido permitia. Em tempos de seca, Sebastião ouvia o ronco da barriga vazia dos filhos. “Dividíamos o parco caldo de feijão com farinha ou a farinha com rapadura, que era barata”, lembra o ex-deputado.

Nada, porém, havia sido pior do que o ano de 1958. Nem a novena de Laís, que reuniu a vizinhança para uma interminável reza no dia de São José, evitou a seca. Com apenas 11 anos, José Genoino seguiu para uma frente de trabalho para não ver seus seis irmãos sem comida. A barragem de Quixeramobim tem o seu suor. Ele carregava pedras num carrinho para ajudar na construção. Ao final do dia, ganhava pontos no cartão da frente e assim podia pegar alimentos no armazém. Testemunha da vida dura do filho, Laís insistia na vida escolar. “Aprenda, meu filho. Se você souber ler pode ir embora e ganhar dinheiro para ajudar a gente”, repetia como uma ladainha.

Laís ensinava o be-a-bá em casa para as crianças da região. Genoino aprendeu a escrever o nome e sabia juntar as letras, mas só entrou numa escola após a seca de 1958. Foi matriculado no grupo escolar do Encantado. O distrito se resumia a uma praça, uma igreja e uma estrada de terra batida, ladeada por 20 casas. Estranhou no início os colegas e a professora, mas estava determinado. “Queria ler mais e mais para poder ir embora, então comecei a me esforçar para ser o primeiro da classe.” Conseguiu. Pesarosa por ver aquele esforço desperdiçado na pobreza, a professora decidiu lhe ensinar os ofícios de coroinha. Assim, ele poderia ajudar padre Salmito, que duas vezes por mês aparecia para rezar missa, fazer casamentos e batizados.

Fotos: Reprodução
Em 1968, com grupo de amigos
alunos do primeiro ano de Direito

Dividindo o tempo entre a igreja, a roça e a escola, o menino chegou à quarta série do Ensino Fundamental. Para continuar os estudos, teria de se mudar para Senador Pompeu, a maior cidade da região. Lá, não havia escola pública, só colégios particulares ligados à Igreja, mas a família não podia pagá-los. Até que um dia padre Salmito, que é amigo de Genoino até hoje, chegou com boas novas:

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