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Eduardo: vítimas
entram em depressão |
Entre as
possibilidades de
abusos a que estamos sujeitos, o crime de seqüestro está
cada vez mais perto de nós. Se antes seqüestro era “coisa
de rico”, hoje não há quem não conheça
alguém que já tenha sido vítima desse crime,
pelo menos na modalidade que ficou conhecida como “seqüestro
relâmpago”, no qual o nível de brutalidade e desumanidade
dos bandidos
choca policiais e médicos habituados a estes traumas.
Não
são só as feridas físicas ou financeiras que
marcam as vítimas. Imediatamente após o
incidente ou num período
de até cinco anos, a pessoa pode ter um quadro psicológico
que se caracteriza por muito medo, ansiedade, angústia, insônia,
pesadelos de cenas do trauma, isolamento, depressão, falta
de vontade de se divertir ou trabalhar, cansaço extremo:
trata-se do Transtorno do Estresse
Pós-Traumático, quadro que chega a ser incapacitante.
Atinge a vítima e àqueles que com ela convivem, mas
é absolutamente transitório se for tratado com cuidado.
Se não tratado, este transtorno pode evoluir
por caminhos espinhosos até chegar a graves quadros psiquiátricos
tão sem controle como aquele que atingiu o engenheiro carioca
que, há dias, se suicidou após matar a esposa e duas
filhas.
Atento a estes fatos, o Serviço de Psicoterapia
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São
Paulo criou, há 1 ano e meio, um grupo de atendimento para
vítimas desta violência urbana, algo inédito
no Brasil. Em parceria com o Núcleo de Psiquiatria Forense,
o Gorip (Grupo Operativo de Resgate da Integridade Psíquica)
já tem em seu cadastro cerca de 90 pessoas que procuraram
o HC para minimizar os efeitos do estresse pós-traumático.
A
voz corrente dos pacientes é: “Não sou mais
a mesma pessoa depois de passar por esta experiência”.
Muitos
se queixam não só das ameaças de morte sofridas
violentamente, mas de uma terrível sensação
enquanto estiveram nas mãos dos bandidos: sentiam-se “mortos”.
Viam-se impotentes e conscientes da incapacidade de
ação (como a fantasia que muitos têm da própria
morte).
Este
tipo de vivência, estudada desde a Primeira Guerra Mundial
em soldados que voltaram do “front”, é pela pri-
meira vez abordada no trauma de seqüestro. Segundo observações
colhidas até então, apresenta a mesma intensidade
de um trauma daquele teor.
Trabalhamos
com atendimento grupal e individual, usando métodos de Psicoterapia
Breve integrados ao tratamento medicamentoso, quando necessário.
O
objetivo é restabelecer a integridade psíquica rompida
pelo trauma. Já foram atendidos três grupos, além
de pacientes em psicoterapia individual. Alguns recebem medicação
antidepressiva e contra ansiedade.
O tratamento obedece preceitos da Terapia Focal
ou Terapia Breve, com objetivos determinados (reestruturação
psíquica) e tempo limitado (12 semanas). Ainda que incipientes,
resultados já podem ser registrados. Um deles é a
percepção de que o tamanho do “estrago”
psíquico pode ser tão grande tanto no seqüestro
prolongado quanto no seqüestro relâmpago. Outro é
a melhora aparente de pacientes que aprendem a trocar o papel
de vítima pelo de sobrevivente. É um sinal de que
começa a virar cicatriz a ferida aberta.
Eduardo
Ferreira Santos (www.ferreira-santos.med.br)
é psiquiatra
e coordenador do Grupo Operativo de Resgate da Integridade
Psíquica do Hospital das Clínicas de São Paulo
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