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Entrevista

09/06/2003

   
Fotos: Piti Reali

Caco: “Posso ser acusado de glamourizar esse mundo, assumo a crítica, mas vou continuar tentando mostrar a realidade da maioria. Nenhum trocaria um salário de R$ 1.500 pelo risco da criminalidade”

 
CONTINUAÇÃO

Por que falar
do tráfico?

Como é a rotina
dos traficantes?

Como é Marcinho VP?

 

Caco Barcellos
“Há um medo exagerado da
figura do traficante”

O jornalista lança livro sobre o tráfico no morro Dona Marta e seu chefe, Marcinho VP, e conta
que já foi salvo pelo traficante na Argentina

Tatiana Engelbrecht

 

O ar sereno de Caco Barcellos oferece parcas pistas sobre a rotina de um dos maiores jornalistas investigativos do País. Gaúcho de 53 anos, o correspondente da Globo em Londres lança seu terceiro livro-reportagem, Abusado (Record, 534 págs, R$ 55). Após o polêmico Rota 66, em que expôs crimes da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, a polícia especial pau-lista, Caco narra a invasão do Comando Vermelho no morro Dona Marta, no Rio. O protagonista é o traficante Marcinho VP, que leva o codinome de Juliano VP. O livro virará filme. O produtor inglês Sam Sterling comprou os direitos da obra.

Por que falar do tráfico?
No Rio há uma concentração de pobres, alguns praticando crimes, nos morros. E as classes média e alta desconhecem a realidade dessas pessoas. Há um medo exagerado da figura do traficante.

Mas o Rio está refém deles.
Não estou acompanhando de perto, mas, nos poucos contatos que tenho com os traficantes, eles falam de violência no sistema penitenciário contra eles e também de execução. O secretário de Segurança Pública do Rio disse que já mataram mais de 100. A extrema violência como método de segurança é ineficaz, gera mais violência. Esses episódios só confirmam.

Rota 66 o ajudou neste livro?
Talvez. Criminosos diziam: “É o cara que denunciou a polícia, dá para confiar”. Quando a Rota me perseguia, recebi convite da Rocinha para ficar escondido lá. Diziam: “Aqui polícia não sobe, principalmente polícia de São Paulo”.

E o contato com os traficantes?
Fazia um programa sobre a cidadania na periferia e tive
acesso aos traficantes, pois tínhamos que pedir a autori-
zação para filmar. Quando viram que, se eu dizia que o programa falaria sobre uma escola de teatro no morro,
falava mesmo, ganhei confiança.

O tráfico quer lugar na mídia?
Sem dúvida. Mudei os nomes dos traficantes e alguns
não gostaram, queriam ver o nome publicado. O acesso
deles à mídia é tão restrito que eles não têm noção
das conseqüências.

Como fica a ética quando é preciso negociar com bandidos?
Sempre deixei claro que não acompanharia nenhuma
ação criminosa no presente ou teria acesso a algum plano. Falava: “Me conte o que aconteceu ontem”. Se soubesse
que eles iam matar alguém, faria tudo para evitar. Que se
dane o repórter, é legítimo na minha profissão interferir
nos fatos para que eles não aconteçam, mesmo que não
se tenha a notícia. Era difícil para eles entenderem. Eles querem mostrar que confiam em você.

Foi um modo de se proteger?
É uma proteção técnica. Mas nunca vieram dizer que estavam desconfiando de mim na produção do livro. Coisas mais freqüentes no morro são fofoca e romance.

Romances do morro acabam mal?
Geralmente traficantes têm 20 namoradas. Se você se
envolve com uma das 20, a história pode acabar mal. Com exceção do Juliano (Marcinho VP). Ele é traído, acha graça. Uma das namoradas o traiu com um policial que o perseguia
e a irmã dele só namora com inimigos dele. Há benefícios em ser mulher de traficante. O mais básico é que você nunca vai subir o morro com as sacolas de compras. Depois que elas ganham isso, não querem perder.

Como é a relação dos traficantes com a comunidade?
Tem fila de espera para trabalhar com eles. Dá para perceber que as pessoas não têm por que defender o Estado. As melhorias são obras da igreja, dos mutirões ou dos traficantes. Às vezes o menino que a dona do bar vê roubando não é um bandido para ela, é o filho da Maria que ela viu crescer.

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