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O ar
sereno de Caco Barcellos oferece parcas pistas sobre a rotina de
um dos maiores jornalistas investigativos do País. Gaúcho
de 53 anos, o correspondente da Globo em Londres lança seu
terceiro livro-reportagem, Abusado (Record, 534 págs,
R$ 55). Após o polêmico Rota 66, em que expôs
crimes da Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, a polícia especial
pau-lista, Caco narra a invasão do Comando Vermelho no morro
Dona Marta, no Rio. O protagonista é o traficante Marcinho
VP, que leva o codinome de Juliano VP. O livro virará filme.
O produtor inglês Sam Sterling comprou os direitos da obra.
Por
que falar do tráfico?
No Rio há uma concentração de pobres, alguns
praticando crimes, nos morros. E as classes média e alta
desconhecem a realidade dessas pessoas. Há um medo exagerado
da figura do traficante.
Mas
o Rio está refém deles.
Não estou acompanhando de perto, mas, nos poucos contatos
que tenho com os traficantes, eles falam de violência no sistema
penitenciário contra eles e também de execução.
O secretário de Segurança Pública do Rio disse
que já mataram mais de 100. A extrema violência como
método de segurança é ineficaz, gera mais violência.
Esses episódios só confirmam.
Rota
66 o ajudou neste livro?
Talvez. Criminosos diziam: “É o cara que denunciou
a polícia, dá para confiar”. Quando a Rota me
perseguia, recebi convite da Rocinha para ficar escondido lá.
Diziam: “Aqui polícia não sobe, principalmente
polícia de São Paulo”.
E
o contato com os traficantes?
Fazia um programa sobre a cidadania na periferia e tive
acesso aos traficantes, pois tínhamos que pedir a autori-
zação para filmar. Quando viram que, se eu dizia que
o programa falaria sobre uma escola de teatro no morro,
falava mesmo, ganhei confiança.
O
tráfico quer lugar na mídia?
Sem dúvida. Mudei os nomes dos traficantes e alguns
não gostaram, queriam ver o nome publicado. O acesso
deles à mídia é tão restrito que eles
não têm noção
das conseqüências.
Como
fica a ética quando é preciso negociar com bandidos?
Sempre deixei claro que não acompanharia nenhuma
ação criminosa no presente ou teria acesso a algum
plano. Falava: “Me conte o que aconteceu ontem”. Se
soubesse
que eles iam matar alguém, faria tudo para evitar. Que se
dane o repórter, é legítimo na minha profissão
interferir
nos fatos para que eles não aconteçam, mesmo que não
se tenha a notícia. Era difícil para eles entenderem.
Eles querem mostrar que confiam em você.
Foi
um modo de se proteger?
É uma proteção técnica. Mas nunca vieram
dizer que estavam desconfiando de mim na produção
do livro. Coisas mais freqüentes no morro são fofoca
e romance.
Romances
do morro acabam mal?
Geralmente traficantes têm 20 namoradas. Se você se
envolve com uma das 20, a história pode acabar mal. Com exceção
do Juliano (Marcinho VP). Ele é traído, acha
graça. Uma das namoradas o traiu com um policial que o perseguia
e a irmã dele só namora com inimigos dele. Há
benefícios em ser mulher de traficante. O mais básico
é que você nunca vai subir o morro com as sacolas de
compras. Depois que elas ganham isso, não querem perder.
Como
é a relação dos traficantes com a comunidade?
Tem fila de espera para trabalhar com eles. Dá para perceber
que as pessoas não têm por que defender o Estado. As
melhorias são obras da igreja, dos mutirões ou dos
traficantes. Às vezes o menino que a dona do bar vê
roubando não é um bandido para ela, é o filho
da Maria que ela viu crescer.
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