20 de dezembro de 1999
Home
Home
Semana
Diversão e Arte
Outras Edições
Fale Conosco
Assine
Assine
Assine
Assine
Assine
Assine
Busca


Música

Daniel, o sertanejo que toca o coração
O cantor já fez show em circo sem platéia, vendeu 2,1 milhões de CDs, empresta o nome para produtos que movimentam R$ 3 milhões por ano e estréia como ator ao lado de Xuxa

Rodrigo Cardoso
de Campos (RJ)

Foto: Leandro Pimentel

"Saiam em suas portas e janelas. Está passando em sua rua a dupla que canta para a terra e para o céu: João Paulo e Daniel." De 1985 a 1989, esse foi o cartão de visitas da então promissora dupla sertaneja de Brotas, interior de São Paulo. A divulgação era feita por um megafone pregado no teto do ônibus de propriedade de um circo. No volante, o cantor José Daniel Camillo, hoje com 31 anos, desviava dos buracos. Numa das janelas, seu parceiro, João Paulo, morto num acidente de automóvel em 1997, acenava para os que esticavam o pescoço a fim de saber de onde vinha tamanha barulheira. Depois do corpo-a-corpo com o público, os músicos descarregavam os instrumentos de uma Belina e os transportavam para o picadeiro. Sob uma iluminação tênue, João Paulo e Daniel tocavam dez, 20 músicas, sem enxergar o público. Ao final, quando as luzes eram acesas, encontravam meia dúzia de pessoas na arquibancada. "Nem pipoqueiro via o nosso show", lembra Daniel. As palmas que ouviam ao final de cada canção eram, na verdade, uma gravação feita pelo dono do circo. "Certo dia, nossa banda sentou na sarjeta em frente à bilheteria e entrou em greve", conta Daniel. "Os músicos disseram que, do jeito que estava, a coisa não iria para a frente."

Com o tempo, Daniel provou o contrário. Junto com João Paulo, lançou oito CDs. Em carreira solo, depois da morte do parceiro, gravou outros dois que, somados, venderam 2,1 milhões de cópias. Seu novo projeto será colocado em prática na sexta-feira 17, quando estréia como ator, fazendo par romântico com a apresentadora Xuxa no filme Xuxa Requebra. O longa é o primeiro a ser distribuído pela Fox dentro e fora do País. Daniel foi sugerido pela empresária Marlene Mattos e escolhido por pesquisa informal em um dos programas de Xuxa. "Procurei alguém que pudesse surpreender e ele se saiu muito bem", diz Marlene. A pré-estréia aconteceu no domingo 12, no Rio de Janeiro. Diante de uma platéia de celebridades e crianças, Daniel cantou "Ave Maria" para abençoar a nova empreitada. Apesar dos boatos de que estariam namorando, o cantor e a apresentadora garantem que a vida não imita a arte. Daniel conta que foi por causa do irmão mais velho, José Gilmar, 37 anos, portador de paralisia cerebral e fã de Xuxa, que estreitou a amizade com a apresentadora. Em março, no aniversário do irmão, Daniel ligou para Xuxa, que, a pedido do cantor, ficou um minuto no telefone parabenizando Gilmar. "Daniel é muito importante para o irmão. Ainda criança, era quem o acalmava, tocando violão", diz sua mãe, Maria Aparecida Camillo, 60 anos. "De tanto tocar para o irmão, aprendeu a cantar." Mas era na estrada que Daniel colocava à prova o que havia aprendido em casa. Ele viajava com o pai, José Sebastião Camillo, 61 anos, que transportava aguardente e exigia que o filho aprendesse a primeira voz (a mais aguda da dupla sertaneja). Daniel só acertou o tom depois de várias broncas. "Ele chorava e dizia que não cantaria mais", conta seu pai. Mais tarde, já afinado, passou a cantar na rádio de Brotas junto com o parceiro Teodoro - nome artístico de José Sebastião. "Papai não se identificava porque tinha vergonha de que achassem que ele cantava mal", diz o cantor. "Ninguém sabia quem era o Teodoro."

Dos 9 aos 13 anos, Daniel soltou a voz na praça da cidade. Ficou tão conhecido que cantava ao telefone, toda semana, para uma senhora, tia de um amigo, que por causa da idade avançada não se locomovia. A vida piorou quando caiu na estrada com o ex-pedreiro João Paulo. Eles se conheceram em festivais de música da região, nos quais eram concorrentes. Um dos dois sempre vencia, até que uniram forças. No início, tocaram em inauguração de chafariz e viaduto. Estacionavam o ônibus da dupla em frente ao hotel cinco estrelas da cidade, mas dormiam na pior pensão. Segundo Daniel, duro foi o preconceito que sofreu por fazer dupla com um cantor negro. "Tinha prefeito que nos contratava sem nos conhecer e, quando via nossas fotos, cancelava o show, dizendo que poderíamos denegrir a imagem da administração da cidade", lembra. "Somente com o sucesso nos encararam como gente, e não como um pretinho e um branquinho."

Café com leite

O cantor não perdeu popularidade com a morte de João Paulo. Virou ídolo. Mas sequer imaginava que seria assim. "Depois da morte do parceiro, ele perguntou se tinha uma vaga na transportadora do pai", afirma sua tia Regina Helena dos Santos, 45 anos. Para manter o cantor na profissão, além do apoio da família, seu empresário, Hamílton Régis Policastro, 35 anos, fez a diferença. Caipira e de passado humilde como o de Daniel, Hamílton circulava com um megafone anunciando os falecimentos da sua cidade, Botucatu, interior de São Paulo. Foi vendedor de banana e tapeceiro antes de conhecer a dupla sertaneja de Brotas. Na ocasião, Hamílton soube que uma dupla "café com leite" estaria cantando na rádio de Botucatu e foi ao encontro dos dois com short, camiseta regata e chinelo, em cima de uma bicicleta enferrujada. Identificaram-se de imediato. Foi ele quem deu novo gás à carreira de Daniel, transformando-o num sertanejo romântico, depois da morte de João Paulo. "Se eu deixasse o Daniel cantar apenas sertanejo, ele estaria fazendo o mesmo que o Sérgio Reis. Se fosse só romântico, seria mais um José Augusto", diz Hamílton.

A combinação deu certo. O segundo CD, com canções no estilo sertanejo romântico, Daniel Volume 2 - Levando a Vida, lançado em outubro, vendeu 800 mil cópias. Nesse mesmo mês, apareceu em 28 programas de televisão. Sua agenda de shows está lotada até abril - ele faz 12 apresentações por mês. Daniel assina linhas de sapatos, cadernos, agendas, chapéus e bichos de pelúcia, fabricados por empresas que faturam cerca de R$ 3 milhões por ano com os produtos que levam o nome do cantor. Ele recebe de 4% a 9% de royalties. Essa renda compõe seu faturamento, junto com os shows e a venda dos CDs, e o ajuda a manter uma fazenda de 500 alqueires, um apartamento em São Paulo e dois carros importados.

O ônus do sucesso é a perda de privacidade. Desde o início de 1999, quando a polícia de Brotas recebeu uma ligação anônima com ameaça de seqüestro de seus familiares, Daniel contratou seguranças. "Sempre há dois carros atrás de mim", conta seu pai. No Carnaval, o único a sair de casa foi seu irmão mais novo, José Eduardo, 22 anos. Mas foi ao baile acompanhado por um policial. "Na escola, as colegas da sua sobrinha de 10 anos vão para casa de bicicleta. Ela tem de esperar o segurança", conta a professora aposentada Norisa Lourenção, 53 anos, vizinha da família Camillo. Sua tia Regina conta que a família saía de casa para tirar fotos com os fãs. Já permitiram até que uma garota vasculhasse os cômodos da casa à procura do cantor. "Hoje, acenamos da janela", diz Regina. "Eu deveria pagar o pato, porque me tornei público", acredita Daniel. "Mas tirei a liberdade de quem gosto. Fico mal por isso."

A época em que tocava em circos é tão viva para Daniel que o cantor transformou o palco de seu show num picadeiro. No sábado 11, ele levou seu espetáculo sertanejo-circense para Campos, interior do Rio. Choveu o dia inteiro. Os 4 mil ingressos foram vendidos em cima da hora. À 1h de domingo, uma cortina vermelha correu o palco e Daniel surgiu numa roupa de palhaço. Cantou, trocou de roupa atrás de um biombo e jogou a camisa para o público. Estava tímido. Costuma atirar blazers e sapatos, o que deixa sua secretária, Elisa Pires Paula, 37 anos, que cuida de seus 200 ternos, de cabelo em pé.

Na última música, uma sobrecarga de energia fez o circo apagar. Com o microfone desligado, Daniel jogou fotos suas para o público. Torcedor fanático do São Paulo, ouviu o saxofonista tocar, para manter-se aquecido, o hino do Corinthians, que eliminou seu time do campeonato brasileiro. A gafe do músico não se compara às de Daniel. Num show, o cantor recebeu um bilhete com o nome Joyce e acabou lendo: "Um abraço para a foice." Há quatro anos, curtia férias no Guarujá, litoral de São Paulo, de ray-ban e sunga branca. Um casal de argentinos mostrou-lhe uma câmera. "Ajeitei o cabelo e, quando fui abraçá-los, disseram: 'Pode bater uma foto da gente?'. Meus amigos não paravam de rir", conta ele.

Dez minutos depois do "blecaute" do show de Campos, Daniel cantou duas músicas, não deu bis, mas enlouqueceu as meninas. Não é de hoje que ele provoca suspiros. Na adolescência, Daniel fazia cinco serenatas por noite. "Usávamos ele como isca", conta o amigo Gustavo Batista, 30 anos. "Ele cantava as músicas e nós cantávamos a mulherada." Daniel lembra que enquanto cantava "Chuva no telhado, vento no portão...", de Leandro e Leonardo, seus amigos faziam a sonoplastia, imitando com sopros o barulho de chuva e vento. Nessa época, Daniel beijava moças no meio da rua e os primos ficavam cronometrando. "Um minuto, dois minutos, eles diziam. Eu ficava com a boca inchada", recorda.

Hoje, Daniel não beija em público. Não por falta de vontade. Uma pessoa de sua equipe conta que, em 1998, ele teve uma queda pela dançarina Scheila Carvalho, do grupo É o Tchan. "Se ela estivesse solteira, ele a namoraria. Foi a que chegou mais perto de conquistá-lo." Para Suzana Alves, a Tiazinha, o cantor também arregalou os olhos. O primeiro encontro dos dois aconteceu num avião. "Mandei-lhe um bilhete: 'Uh, Tiazinha, vem me depilar'. Ela me mandou uma foto, respondendo: 'Se eu te depilar, você vai se apaixonar'." Depois desse encontro, Daniel ganhou flores de Suzana, retribuiu com um jantar e - jura - parou por aí.

Envie esta página para um amigoO cantor está solteiro há um ano e meio, quando terminou um namoro de sete anos com Luciana Susi, moradora de Brotas. Mas não fica sozinho. "Sempre arrumo alguém que não seja do meio artístico. As famosas têm a agenda atribulada", diz ele. Um de seus auxiliares revela a tática de aproximação do artista com as anônimas: "Se uma menina bonita chama a atenção no camarim, alguém da equipe pega o telefone dela". Tudo feito com discrição. "Estou curtindo essa fase, não procuro a mulher da minha vida." Daniel fala das conquistas que lhe são atribuídas com naturalidade. Só perde a estribeira, como dizem os caipiras, quando lhe perguntam sobre o que faria, caso visse homens se beijando. "É capaz de eu dar umas porradas neles. Ah... perto de mim, bicho! Que faça longe, não é verdade?", diz. É aí que o circo pega fogo.

Boletim Assine Fale Conosco Outras edições Home Boletim Assine Fale conosco Outras edições Home