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Entrevista

19/05/2003

   
Fotos: Piti Reali

Ele se aproximou do pai aos 37 anos. “Nas seis noites que passei com ele no hospital fiquei amigo dele”, diz

 
CONTINUAÇÃO

No que o senhor
é lento?

O senhor já teve medo de morrer?

Por que o senhor não gosta de televisão?

 

Paulo Autran
"Sou ateu e materialista”
O ator de 80 anos mantém a vitalidade, embora nunca tenha feito ginástica, há oito anos não
vê tevê e conta que não acredita em Deus

Juliana Lopes

 

Abençoado é o teatro, uma arte que se pode seguir com a idade que for. Assim pensa Paulo Autran, 80 anos, ator desde criança. “Posso fazer tantos papéis...”, elucubra. Preguiçoso com a vida real, mas lépido no teatro, atualmente está em turnê pelo interior de São Paulo com a peça Variações Enigmáticas e dirige Vestir o Pai, em cartaz na capital paulista, na qual atua a atriz Karin Rodrigues, com quem está casado desde 1999 sem dividir o mesmo teto. Em casa, é visitado pelos amigos em grupos de cinco – é o máximo de pessoas que gosta de ver de uma vez. Foi lá que o ator nascido em Caçapava (SP) recebeu Gente. Durante a entrevista de menos de uma hora, ele fumou cinco cigarros. “Fumo porque sou burro”, penitencia-se.

O senhor está sempre elegante. É vaidoso?
Não, só sou objetivo, até no que visto. Sabe quantos
anos tem essa camisa? Comprei em 1991, na Alemanha,
numa cidadezinha de banhos. Quando eu acho que estou precisando, olho, gosto e compro. Sou a pessoa mais
rápida no comprar roupa.

No que o senhor é lento?
Em geral eu sou bem preguiçoso. Nunca fiz exercícios. Quando era moço me matriculei três vezes na ACM (Associação Cristã de Moços). Só fui uma vez. Mas tinha um corpaço quando moço. Agora é que eu estou com corpo de velho. Natural.

Alguma vez sentiu uma dificuldade de se movimentar pela falta de ginástica?
Não, nunca. Agora, com a idade, você normalmente anda mais devagar. Mas no palco consigo andar com muita rapidez. Porque aí eu estou concentrado naquilo. No momento em que o personagem tem que ir rapidamente até o ponto X ou Y do palco eu consigo me mover mais rápido.

Já se desconcentrou em cena?
Me desconcentrei totalmente em cena quando fazia o Édipo Rei, de Sófocles, em 1967. Era o dono da companhia e o administrador veio me falar sobre os refletores do palco, antes de eu entrar em cena. Na hora que entrei, inadvertidamente olhei para o lado dos refletores e pensei: “Meu Deus, qual
é o momento da peça em que eu estou?”. Fiz uma pausa enorme e me sopraram lá de baixo as três primeiras palavras do texto. Foi angústia total! Uma sensação horrível. Minhas mãos não suam, não comecei a tremer (risos). Nada disso!
Eu fico é angustiado por dentro.

Não fica nervoso nem fora dos palcos?
Sou muito controlado. Sofri um acidente quando estava fazendo o musical My Fair Lady, com Bibi Ferreira. Havia comprado meu primeiro carro, um fusquinha. Tinha 40 anos e precisei ficar dez meses no hospital, totalmente imobilizado. Aí um amigo disse ao médico: “Sorte que o Paulo é uma pessoa calma, não é?”. O médico falou: “Calmo? Conta uma notícia ruim para ele e toma o pulso dele! Ele é na verdade controlado.” Eu controlo meu nervosismo nas horas em que preciso (risos). E olha que quebrei o fêmur, clavícula, ombro, todas as costelas de um lado, tudo! (risos)

Quando o senhor aprendeu a controlar suas emoções?
Aprendi a me controlar aos 6 anos, quando minha mãe
morreu. Durante muitos anos senti muito a falta dela (voz embargada). Via todo mundo sofrendo tanto, eu chorei
muito. No dia do enterro, a cozinheira e o chofer começaram a brincar comigo. Pensei: “Que dois idiotas, o que eles estão querendo? Dizer coisinhas nesse momento? Que bobagem!”. Eles estavam amavelmente querendo distrair um garoto
de seis anos, mas o garoto estranhou (pausa). Sofri muito (pausa). Vamos falar de outra coisa.

E seu pai?
Me relacionava pouco com meu pai até que ele foi internado no hospital. Eu tinha 37 anos. Fui passar seis noites com ele porque ele não dormia de tantas dores. Nessas seis noites eu realmente conheci meu pai e fiquei amigo dele, até ele morrer. Até então ele era só um homem que quando começava a contar uma história eu pensava: “Ai, tomara que chegue logo no fim!” (risos). A partir dali comecei a gostar muito dele.

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