 |
|
Cuschnir: homens inseguros no sexo
|
É
fácil ouvir histórias bem- humoradas de homens que
têm nos famosos comprimidos do Viagra um divisor de águas
da vida sexual. Sem dúvida, o remédio e seus atuais
concorrentes (Cialis e Levitra) são donos de mérito
indiscutível como arsenal para homens com problemas de ereção
sexual. Mas vem aí o lado negro da história. É
alta a incidência de homens inseguros e dependentes dessas
pílulas. E
justo elas, que forneceram segurança a eles, agora os torna
totalmente “vendidos” a seus efeitos miraculosos.
Tenho
recebido, na experiência de consultório, depoimentos
de homens até mais hesitantes de suas performances sexuais
do que antes do advento do Viagra. Não são poucos
os que relatam situações como “não tentei
nada naquela noite, pois estava sem a pílula”. Disfarçam,
mascaram até com a desculpa da falta do preservativo, mas
no fundo não se sentem encorajados o suficiente para tentar
uma relação sexual quando estão sem o medicamento.
Isso vale para muitos jovens: em busca de supostas experiências
transgressoras como a de garantir sexo a noite toda e fazer uso
do recurso para isso, podem se ver aprisionados a uma dependência,
tornando-se mais inseguros na seara sexual. Sem falar dos riscos
aos cardíacos, diabéticos, etc.
Alguns
homens em processo terapêutico ainda conseguem perceber o
que está acontecendo. Relatam que após tomar pela
primeira vez a droga, acabam mais inseguros no sexo. Alguns começam
a achar que nem assim terão uma boa relação
sexual. “O problema é a libido na minha cabeça
e para isso o remédio não adianta”, enxergam
vários.
Inúmeras
gerações de remédios já vieram salvar
gloriosamente o sexo masculino, na tentativa de dar segurança
e maior praticidade na hora do ato sexual. Na maioria das vezes
os métodos químico-medicamentosos são eficientes.
Certamente drogas como o Viagra, o Cialis e o Levitra devolveram
a muitos homens – vários deles com mais de 55 anos
– a felicidade de poder levar uma vida sexual ativa e intensa,
por vezes abandonada. Felizmente já não são
mais as pomadas orientais duvidosas nem somente os aflitivos injetáveis
localizados. Em uma relação já desgastada sexualmente,
mas não afetivamente, o uso do remédio é indicado,
pois evita que o casamento vire uma guerra. Para quem acha que a
boa relação é uma boa ereção
com uma mulher mais jovem, usando o medicamento, terá mais
certeza da sensação de ser 30 anos mais jovem.
Não
se deve esquecer, contudo, que a chave do segredo dessas angústias
sexuais continua a ser a transformação da vida masculina
pós-feminismo. Os
homens sempre precisaram manter um exemplar desempenho sexual, em
todos os sentidos. Mas a pressão era bem diferente. Precisavam
de quantidade e não estavam nem aí se seriam avaliados
por elas. Decerto era mais importante a autovalorização
junto aos colegas de farra do que propriamente com as parceiras.
Mas
agora tudo mudou. Elas os avaliam, cobram e se sentem rejeitadas
se eles não comparecem. Estão também atentas
não só à quantidade mas os classificam. São
os novos tempos de vida sexual. Não foram poucos os relacionamentos
que passaram por crises, que transitavam pela baixa auto-estima
dela ou dele. A relação homem e mulher, com seus encontros
e diferenças, está cheia de máscaras criadas
conforme a tecnologia bioquímica se esmera em promover mais
amálgamas para novos disfarces. Para tanto, vale apostar
no fortalecimento da identidade pessoal.
Luiz
Cuschnir é psiquiatra e psicoterapeuta há 30 anos em São
Paulo. Precursor do masculismo, acaba de lançar seu sexto livro,
A Relação Mulher & Homem – uma História de Encontros e Diferenças
(Editora Campus)
|