 |
| Tony
Quirino, em treinamento, nos Estados Unidos: “Nos momentos
mais difíceis tenho vontade de jogar tudo para o alto e ir embora
daqui. Guerra é a coisa mais horrível que existe”, disse Tony
ao irmão |
Já
eram nove os dias sem qualquer sinal de vida. A apreensão
da família chegara próximo ao limite. Aírton
Quirino de Freitas, pai de Tony Pereira Quirino, brasileiro pára-quedista
do Exército norte-americano, estava deprimido e hipertenso.
Afinal, ter um filho enviado para a guerra é uma sensação
singular e incomparável de impotência e incerteza.
Finalmente, no sábado 29, Tony fez seu primeiro contato desde
o início dos bombardeios anglo-americano ao Iraque na quarta-feira
19 de março. Quem atendeu o telefone foi o irmão Aírton
Júnior, o Juninho. A ligação estava péssima.
“A
batalha está muito sangrenta. Vi coisas horríveis
e acho que nunca mais vou ser o mesmo. Por enquanto, estou levando.
Não sei até onde vai, quando vai terminar”,
disse Tony ao irmão. Permeada por chiados, a conversa foi
se tornando emocional. “Juninho, sempre sonhei em fazer o
que estou fazendo, mas nos momentos mais difíceis tenho vontade
de jogar tudo para o alto e ir embora daqui. Guerra é a coisa
mais horrível que existe”, continuou Tony, que faz
parte da 82ª Divisão Aerotransportada do Exército
americano, especializada em inserções rápidas
de soldados pára-quedistas no campo de batalha por meio de
aviões ou helicópteros. Em sua primeira guerra, ele
estava sob forte abalo psicológico, depois que um companheiro
de pelotão fora atingido durante uma missão de conquista
de espaço aéreo nos dias anteriores. “Poderia
ter sido eu”, disse ele, que avança pelo norte do Iraque
rumo a Bagdá.
Tony
Pereira Quirino, 22, nasceu em Goiânia. Como outros meninos,
gastou boa parte da infância jogando futebol na rua com os
amigos, prazer que ele só deixava nos finais de semana, quando
visitava a fazenda da família no interior do Estado e trocava
a bola pelos cavalos. Vem dessa época também o interesse
por assuntos e artigos militares. “O sonho dele sempre foi
ser soldado. Quando morávamos no Brasil, Tony gostava de
usar roupas camufladas, gostava de se sentir assim”, conta
Aírton Júnior, antes de lamentar: “Ele realizou
um sonho, mas deixou a família toda com o coração
na mão”.
Em
1996, aos 15 anos, Tony mudou-se com os pais e os dois irmãos,
Marcial e Juninho, para os Estados Unidos – a mãe,
Messias, queria que os filhos fizessem faculdade no Exterior. Fixaram
residência na Flórida e abriram uma pequena empresa
de pintura de casas. Pouco mais de um ano depois da chegada, a família
foi abalada com a separação do casal. Aírton
ficou nos Estados Unidos até o final de 1998, quando regressou
ao Brasil e mudou-se para São Miguel do Araguaia, a 500 quilômetros
de Goiânia. Arrendou uma fazenda, casou-se novamente e virou
agricultor. Messias casou-se com um norte-americano e, acompanhada
dos filhos, vive no país até hoje.
|