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| “Tínhamos
uma premonição de que a cocaína era um
veneno que ia infestar a sociedade americana’’ Neville
d’Almeida |
Sobre as paredes brancas do prédio de pé-direito
altíssimo da Galeria Fortes Vilaça, em São
Paulo, estão dispostos sonhos acalentados durante 30 anos
por Neville d’Almeida. Em 1973, em Nova York, ele e Hélio
Oiticica desenvolveram juntos o projeto “Cosmococas”.
“Você acha que não sofri nesse tempo todo, sem
conseguir mostrar o trabalho?”, pergunta Neville, 61 anos.
Como o próprio nome da série diz, é a cocaína
que forma os desenhos sobre os rostos de ícones norte-americanos,
como Marilyn Monroe, Jimi Hendrix e Yoko Ono, em obras transformadas
primeiro em instalações e, somente agora, em fotografias
em tamanho grande. Hoje, quando as drogas são causadoras
de violência e morte, muitos pensam em apologia. Neville discorda.
“Não tínhamos compromisso com a droga, mas com
a arte. Essa substância tinha um sentido um pouco diferente
do que tem hoje. Tínhamos uma premonição de
que a cocaína era um veneno que ia infestar a sociedade americana”,
diz Neville.
Hélio
Oiticica morava em Nova York graças a uma bolsa da Fundação
Guggenheim e trabalhava como tradutor. “O apartamento era
decorado com ninhos, várias camas cercadas de cortinados.
Sempre havia quatro, cinco televisões ligadas, mais três
ou quatro rádios”, lembra-se o escritor Silviano Santiago,
que também vivia na cidade na época. Neville ficava
em Londres, rodeado por Gil, Caetano e Jorge Mautner. “Vivia
com US$ 100 por mês. Só viajei para Nova York porque
consegui uma passagem baratíssima naqueles vôos que
você tem que levar até garrafa de água”,
conta. O cineasta e o artista haviam se conhecido em 1968, quando
Neville fez uma sessão de seu primeiro filme, Jardim de
Guerra. Pensaram em vários projetos juntos, que culminaram
na criação das “Cosmococas”, em março
e agosto de 1973. “Neville é muito pragmático,
e isso ajudou o Hélio, cujos projetos ficavam às vezes
no ar. É a pessoa que melhor sabe escutar que conheço.
Ele pega o que você disse, digere e usa”, diz Silviano
Santiago, que conhece o cineasta desde quando moravam em Belo Horizonte.
Neville
fala com saudades do artista, morto em 1980. “O Hélio
era uma pessoa com uma dignidade e uma generosidade muito grandes.
Ele não enganava você, não puxava o seu saco”,
lembra. E fica chateado quando se referem à série
como obra de artistas doidões, menosprezando o talento de
ambos. “Conheci as drogas. Na época não havia
essa organização mundial, isso virou um bom negócio
para a polícia, o exército, o ladrão, menos
para o povo”, diz. “Mas me livrei delas. E não
foi com clínica não. Eu busquei ajuda e encontrei
em Deus”, diz. Neville d’Almeida está habituado
às críticas. Também foi assim com seus filmes,
carregados de sexualidade e sempre malhados, como A Dama do Lotação
e Navalha na Carne. Isso não quer dizer que ele
não se aborreça. Tirando a Bíblia da mochila
que carrega, ele recita, emocionado: “Os meus inimigos falam
mal de mim, dizendo: ‘Quando morrerá ele e perecerá
seu nome?’. Diz falsidades. E, no seu coração,
amontoa a maldade”.
O
cineasta se dedica à Igreja Presbiteriana de Bethesda, em
Copacabana. Não renega o que fez e costuma agradecer a Deus.
“Acho que sou um bem-aventurado, modestamente. Porque Deus
me deu a oportunidade de conhecer os dois lados, a obscuridade total
com cinco filmes jamais exibidos e o sucesso, com A Dama do Lotação”,
diz.
Morando
na Ilha da Jibóia, no Rio, com quatro cachorros, Neville
tem três filhos – o cineasta Tamur, de 28 anos, a estudante
de psicologia Jade, de 23, e a pequena Sophia, de 3. E muitos projetos
na gaveta. São cinco documentários prontos, um longa-metragem
de ficção inspirado em Mark Twain em fase de captação
de recursos, exposições de esculturas e fotos e também
a direção de uma ONG. É porque Neville d’Almeida,
fotógrafo, desenhista, escultor e cineasta, também
é ecologista. Modestamente, como costuma dizer.
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