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“Quando
ouvi João Gilberto não achei graça. Fiquei
fissurado com Sérgio Mendes, Bossa Rio e Tamba Trio’’
Ivan Lins |
.Em
uma tarde de 1972, Ivan Lins ligou o rádio e levou um susto
que ajudaria a definir sua carreira nas décadas seguintes.
O que ouvia era absolutamente familiar e isso aumentava o espanto.
Ella Fitzgerald, uma das damas do jazz americano, dava voz a “Madalena”,
canção de Ivan e Ronaldo Monteiro de Souza, que já
tinha estourado com Elis Regina. A surpresa poderia ter sido menor,
afinal, em 1971, no camarim do Teatro Municipal do Rio, a cantora
já tinha confessado ao compositor que gostaria de gravar
aquele sucesso de Elis. “Achei legal o elogio. Só que
não levei fé”, lembra Ivan, em uma mesa de bar
de São Paulo, entre um chope e um pastelzinho de queijo.
Passados 31 anos, Ivan Lins é um dos músicos
brasileiros mais respeitados no Exterior. O caminho foi longo e
sem afobação. Uma característica desse geminiano
nascido no bairro carioca da Tijuca há 57 anos é a
paciência. Seus discos, no final da década de 70, chamaram
a atenção do americano Quincy Jones, que criou arranjos
para “Dinorah, Dinorah” e “Velas Içadas”,
vencedoras do Grammy na categoria jazz em 1981 e 1982. “O
Quincy Jones é o pai da minha carreira internacional”,
diz Ivan. Hoje, mais da metade de sua agenda é fora do Brasil,
principalmente nos Estados Unidos. Europa e Japão também
são paradas certas, sempre com casas cheias e platéia
atenta.
Os primeiros meses de 2003 são dedicados
ao público brasileiro, com temporadas do show A Quem me Faz
Feliz, baseado no CD homônimo lançado em setembro.
Em maio, Ivan apresenta-se no Japão e emenda uma turnê
com a cantora americana Jane Monheit na Europa. Para agosto, os
espetáculos devem ser em solo norte-americano e a volta para
a Europa está prevista para outubro. A tentativa de se transferir
para os Estados Unidos chegou a ser feita. Em 1992, Ivan fechou
as malas rumo a Los Angeles. “Passei só oito meses.
Escolhi a cidade errada. Não agüentei a frieza das pessoas.
Talvez, se tivesse ido para Nova York, estaria lá e feliz”,
reconhece ele, que não cogita mais sair do Brasil. “Ainda
mais com os fogueteiros do Bush e do Saddam querendo explodir tudo”,
brinca.
O garoto, que viveu com a família nos Estados
Unidos dos 2 aos 5 anos, só foi conhecer a MPB no início
dos anos 50 com as estrelas da Rádio Nacional. “É
louco pensar que eu era um menino e cantava ‘ninguém
me ama/ ninguém me quer’, da Nora Ney. Estava apaixonado
por uma vizinha, que nem me dava bola”, lembra. Nos anos seguintes,
Ivan voltaria a se sentir escanteado. Suas irmãs eram fãs
de Elvis Presley. Ele preferia Frank Sinatra, a quem imitava, ou
as big bands e suas harmonias sofisticadas. “Meu ouvido foi
ficando mais apurado e, por isso, me envolvi mais com música
do que com letra. Quando ouvi João Gilberto não achei
graça. Fiquei fissurado pela Bossa Nova depois de conhecer
Sérgio Mendes, Bossa Rio, Tamba Trio”, diz ele, que
só começou a estudar piano aos 18 anos e, antes de
assumir a música, concluiu a faculdade de Química
Industrial.
Um
dos compositores preferidos de Elis Regina, Ivan diz
que a morte da cantora, em 1982, levou a MPB para a banalização.
“Elis era muito exigente e nos sentíamos
na obrigação de caprichar. Depois muitos soltaram
a franga. Até eu”, reconhece ele, que, em meados dos
80, liderou paradas com badalas como “Vitoriosa”. Foi
no final dos anos 80, com as propostas de shows no Exterior, que
Ivan viu a chance de permanecer fiel a suas origens musicais. “Você
precisa de um transformador para levar um empurrão e voltar
para a linha”, diz.
Nessa guinada, ele construiu uma casa em Teresópolis,
na serra fluminense, onde vive com Valéria, companheira há
20 anos, e mantém uma coleção de uma centena
de garrafas de cachaça. “Sou cachaceiro. E não
é só em Minas Gerais que se produz cachaça
boa”, garante. Os filhos são cinco: Luciana, 30, Cláudio,
29, e João, 27, frutos da união de Ivan com a atriz
e cantora Lucinha Lins, que vieram a se juntar a Carla, 28, e Diana,
22, do primeiro casamento de Valéria. “O sonho era
uma casa bem grande para todos morarem juntos, mas demorei tanto
para construir que eles cresceram e foram tocar a vida no Rio”.
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