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Reportagens

17/03/2003

   
 
Fotos: Piti Reali
Ivan vive em Teresópolis com a mulher Valéria: “Queria uma casa grande para toda a família morar junto, mas demorei
para construir e os
filhos foram tocar
a vida no Rio”

 

Música
Ivan Lins no mundo
O cantor faz mais shows no Exterior do
que no Brasil e diz ter encontrado nos palcos internacionais a chance de ser fiel a sua música

Dirceu Alves Jr

 
Fotos: Piti Reali
“Quando ouvi João Gilberto não achei graça. Fiquei fissurado com Sérgio Mendes, Bossa Rio e Tamba Trio’’
Ivan Lins

.Em uma tarde de 1972, Ivan Lins ligou o rádio e levou um susto que ajudaria a definir sua carreira nas décadas seguintes. O que ouvia era absolutamente familiar e isso aumentava o espanto. Ella Fitzgerald, uma das damas do jazz americano, dava voz a “Madalena”, canção de Ivan e Ronaldo Monteiro de Souza, que já tinha estourado com Elis Regina. A surpresa poderia ter sido menor, afinal, em 1971, no camarim do Teatro Municipal do Rio, a cantora já tinha confessado ao compositor que gostaria de gravar aquele sucesso de Elis. “Achei legal o elogio. Só que não levei fé”, lembra Ivan, em uma mesa de bar de São Paulo, entre um chope e um pastelzinho de queijo.

Passados 31 anos, Ivan Lins é um dos músicos brasileiros mais respeitados no Exterior. O caminho foi longo e sem afobação. Uma característica desse geminiano nascido no bairro carioca da Tijuca há 57 anos é a paciência. Seus discos, no final da década de 70, chamaram a atenção do americano Quincy Jones, que criou arranjos para “Dinorah, Dinorah” e “Velas Içadas”, vencedoras do Grammy na categoria jazz em 1981 e 1982. “O Quincy Jones é o pai da minha carreira internacional”, diz Ivan. Hoje, mais da metade de sua agenda é fora do Brasil, principalmente nos Estados Unidos. Europa e Japão também são paradas certas, sempre com casas cheias e platéia atenta.

Os primeiros meses de 2003 são dedicados ao público brasileiro, com temporadas do show A Quem me Faz Feliz, baseado no CD homônimo lançado em setembro. Em maio, Ivan apresenta-se no Japão e emenda uma turnê com a cantora americana Jane Monheit na Europa. Para agosto, os espetáculos devem ser em solo norte-americano e a volta para a Europa está prevista para outubro. A tentativa de se transferir para os Estados Unidos chegou a ser feita. Em 1992, Ivan fechou as malas rumo a Los Angeles. “Passei só oito meses. Escolhi a cidade errada. Não agüentei a frieza das pessoas. Talvez, se tivesse ido para Nova York, estaria lá e feliz”, reconhece ele, que não cogita mais sair do Brasil. “Ainda mais com os fogueteiros do Bush e do Saddam querendo explodir tudo”, brinca.

O garoto, que viveu com a família nos Estados Unidos dos 2 aos 5 anos, só foi conhecer a MPB no início dos anos 50 com as estrelas da Rádio Nacional. “É louco pensar que eu era um menino e cantava ‘ninguém me ama/ ninguém me quer’, da Nora Ney. Estava apaixonado por uma vizinha, que nem me dava bola”, lembra. Nos anos seguintes, Ivan voltaria a se sentir escanteado. Suas irmãs eram fãs de Elvis Presley. Ele preferia Frank Sinatra, a quem imitava, ou as big bands e suas harmonias sofisticadas. “Meu ouvido foi ficando mais apurado e, por isso, me envolvi mais com música do que com letra. Quando ouvi João Gilberto não achei graça. Fiquei fissurado pela Bossa Nova depois de conhecer Sérgio Mendes, Bossa Rio, Tamba Trio”, diz ele, que só começou a estudar piano aos 18 anos e, antes de assumir a música, concluiu a faculdade de Química Industrial.

Um dos compositores preferidos de Elis Regina, Ivan diz
que a morte da cantora, em 1982, levou a MPB para a banalização. “Elis era muito exigente e nos sentíamos
na obrigação de caprichar. Depois muitos soltaram a franga. Até eu”, reconhece ele, que, em meados dos 80, liderou paradas com badalas como “Vitoriosa”. Foi no final dos anos 80, com as propostas de shows no Exterior, que Ivan viu a chance de permanecer fiel a suas origens musicais. “Você precisa de um transformador para levar um empurrão e voltar para a linha”, diz.

Nessa guinada, ele construiu uma casa em Teresópolis, na serra fluminense, onde vive com Valéria, companheira há 20 anos, e mantém uma coleção de uma centena de garrafas de cachaça. “Sou cachaceiro. E não é só em Minas Gerais que se produz cachaça boa”, garante. Os filhos são cinco: Luciana, 30, Cláudio, 29, e João, 27, frutos da união de Ivan com a atriz e cantora Lucinha Lins, que vieram a se juntar a Carla, 28, e Diana, 22, do primeiro casamento de Valéria. “O sonho era uma casa bem grande para todos morarem juntos, mas demorei tanto para construir que eles cresceram e foram tocar a vida no Rio”.

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