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Em seu último caso, o advogado Clóvis
Sahione, 65 anos, conseguiu a absolvição dos três
policiais militares acusados de matar Sandro do Nascimento, o seqüestrador
do ônibus 174, no Rio, com uma tese curiosa: Sandro teria
se sufocado ao se debater entre os braços dos PMs, no camburão
onde morreu. “Acho inverossímil, mas aceitaram”,
confessa Sahione, para depois justificar: “A tese encontra
apoio nos fatos antecedentes, na hora em que aquele homem violentou
uma cidade. Era um terrorista, nos Estados Unidos teria levado um
tiro na testa”, afirma o advogado. Hoje, ele defende os fiscais
da Receita Federal e funcionários da Secretaria de Fazenda
do Rio de Janeiro, entre eles o ex-subsecretário de Administração
Tributária, Rodrigo Silveirinha, acusados de depositar ilegalmente
US$ 33,4 milhões na Suíça durante o governo
de Anthony Garotinho.
Foi
assim, esforçando-se para justificar os crimes de seus clientes
quando não podia negar a autoria, que Clóvis Sahione
fez história desde seu primeiro caso famoso,
em 1978. Defendendo uma prostituta que matara um delegado de polícia,
convenceu os jurados que ela
agira em legítima defesa da honra. Desde então, passaram
pela sua banca réus como a atriz Dorinha Duval, que saiu
livre do tribunal, em 1983, após matar o marido; o general
Newton Cruz, absolvido em 1992 da acusação de ter
matado o jornalista Alexandre Baumgarten; e até Hosmany Ramos,
em 1985, no único julgamento em que o cirurgião plástico
foi inocentado das acusações de assalto e homicídio.
“Todos os grandes casos no Brasil nos últimos 20 anos
passaram por mim”, vangloria-se.
Em alguns deles, como os do ônibus 174 e
de Dorinha Duval, Sahione teve o apoio da opinião pública,
mas a vontade popular em ver seus clientes considerados culpados
nunca foi problema para o advogado. Antes do julgamento de Newton
Cruz, por exemplo, o Ibope mostrava que 90% da população
eram a favor da acusação. No júri, o resultado
foi de 7 a 0 para Sahione. Pronto para ir de encontro à opinião
pública com seus novos clientes, o advogado adianta sua tática
nesses casos: “Faço o possível para mostrar
que meu cliente é um homem comum, que pode ter uma fraqueza”.
Na luta para evitar a prisão preventiva
dos fiscais, pedida pela CPI da Assembléia Legislativa do
Rio que investiga o caso, Sahione já começou a defendê-los
informalmente. “Silveirinha tem três filhos e chora
por eles. Carlos Eduardo Ramos tem uma doença grave e perdeu
40 quilos. Lúcio Picanço operou o coração
no ano passado e vai operar a vesícula. Não vi nada
que me impedisse de defendê-los”, diz ele, casado com
Valéria Sahione há 43 anos, pai de sete filhos e avô
de 11 netos.
Sahione, que chega diariamente às 6h30 no
seu escritório de dois andares em um prédio no Centro
do Rio, também recusa clientes. “Não defendo
assaltantes, traficantes e estupradores”, afirma. Na lista
não estariam incluídos, por exemplo, Guilherme de
Pádua e Paula Thomaz, assassinos da atriz Daniela Perez.
“Defenderia os dois porque poderiam ser pessoas que momentaneamente
perderam a razão”, diz.
Mas Sahione também já foi recusado.
Chamado por Benedita da Silva para processar um deputado que acusara
seus filhos de falsificar diplomas, percebeu que uma assessora falou
ao ouvido da então governadora durante a conversa. “No
fim, ela me disse que não poderia ser advogado dela por ter
defendido o general Newton Cruz”, conta o advogado que, antes
de abraçar a profissão, chegou a ser do Partido Comunista
Brasileiro, entre 1955 e 1962. “Era orador oficial do congresso
da UNE (União Nacional dos Estudantes).”
A
outra recusa ocorreu por causa de sua ligação com
o Flamengo, onde chegou a ser vice-presidente jurídico. Procurado
por Eurico Miranda para uma consulta
pessoal, ouviu do presidente do Vasco que ele nunca
poderia ser seu advogado, pois os torcedores não entenderiam.
“Foi brincadeira. Sahione é meu amigo. Se tivesse de
usar seus serviços passaria por cima de paixões clubísticas”,
diz Eurico.
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