| Içami
Tiba é um pai orgulhoso. Em sua sala, expõe fotografias
de Maria Natércia, com quem está casado há
35 anos, dos três filhos – o advogado André Luiz,
30 anos, a psicóloga Natércia, 28, e a estudante Luciana,
20 – e do neto Eduardo, de 2 anos. Psiquiatra e psicoterapeuta
especializado no relacionamento de pais e filhos, esse paulista
de 62 anos observa em sua própria família o harmonioso
resultado da criação centrada nos conceitos de disciplina,
gratidão, religiosidade, ética e cidadania, que ele
estabeleceu como os pilares de sua teoria da Integração
Relacional.
Com
experiência de 34 anos, Tiba é conhecido do público
por ter participado de diversos programas de tevê e rádio,
e por seus livros. Desde 1985, o médico já publicou
14. O último deles, Quem Ama Educa, foi lançado em
novembro e virou um fenômeno. Em quatro meses, vendeu 67 mil
exemplares.
Quem
Ama Educa está se tornando seu maior best-seller. Os
pais estão perdidos na maneira de criar os filhos?
O livro chegou na hora certa, num momento de grandes
crimes. Todo mundo está percebendo como a sociedade está
mal. Minha proposta é corrigir isso na base. Coloco valores
sociais na educação doméstica. Não adianta
a gente ir soltando o filho e achar que a sociedade vai corrigi-lo.
Não adianta os pais terem filhos e já acharem que
são educadores. Eles têm de se preparar. Uma pessoa
com mais informação é capaz de mudar o rumo
da história do filho. Estamos vivendo uma geração
de crianças tiranas, os pais não sabem o que fazer
com elas. Mais do que cuidar delas, é preciso educá-las.
O que o filho faz na rua já fez em grau menor em casa há
tempos. Só que os pais, de certa maneira, absorvem. A educação
doméstica atual está formando pessoas egoístas.
Os pais são as primeiras vítimas da má educação
dos filhos.
É
coincidência ou está havendo um boom de crimes
de pai contra filho e filho contra pai?
Está mais freqüente, sim, e isso é conseqüência
de falta de tolerância que, por sua vez, é conseqüência
de egoísmo, que é conseqüência de uma educação
que foi centrada só nos filhos: hiperproteção,
provisão de tudo que se quer e liberdade para fazer tudo
que se tem vontade. Os pais estão vivendo em função
dos filhos e se anulando. Os filhos, na ignorância, estabelecem
o que os pais devem fazer. A explicação de todos os
crimes é a falta de educação, a incapacidade
de lidar com contrariedades. São aqueles que chamo de “parafuso
de geléia”, quando têm o poder na mão
querem matar o outro porque não conseguem superar o problema.
É
o caso da Suzane von Richthofen, que matou os pais com o namorado?
Foi bem isso. Suzane não criou auto-estima. E educação
é criar uma boa auto-estima, que é o combustível
que faz o ser humano sobreviver às contrariedades. Assim,
se não for como a pessoa quer, ela tem base interna suficiente
para suportar. A Suzane foi criada numa gaiola de ouro. Os pais
sempre a protegeram. Quando chegou à adolescência,
sem a auto-estima bem estabelecida, entrou na maconha para se sentir
igual a todos. E surgiu uma pessoa em sua vida, que lhe prometeu
liberdade, que ela não tinha. De repente, ela se tornou uma
Julieta desse Romeu, que estava interessado no que ela tinha, não
na pessoa dela. E veio o que chamo de mecanismo da birra: “Quero
brincar de casada e meus pais não deixam, então, vamos
eliminá-los”. Tanto foi birra que ela comemorou o aniversário
com os pais recém-assassinados por ela. O birrento não
se arrepende. Ele curte o brinquedo, feliz da vida, não pede
desculpa.
Mas
nem todo mundo que tem baixa auto-estima é um criminoso em
potencial, não?
Não é. Para chegar a esse ponto,
precisa de mais distorções. Nesse caso, estão
envolvidos a baixa auto-estima, que vem da educação,
o uso de drogas, que compromete a personalidade, e as más
companhias. Esses rapazes, Daniel, o irmão e o próprio
pai, já eram altamente delinqüentes.
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