Veja também outros sites:
Home •• Revista ••• Reportagens  
Reportagens

03/03/2003

   
 
AG. RBS
 
Ag. Elite/ Divulgação

“Vou fazer alguma coisa de verdade”, disse o modelo e músico Glauco para a mãe ao embarcar para o Iraque como escudo humano

 

Guerra
Os brasileiros de Saddam
A aventura de dois gaúchos residentes
em Londres que decidiram largar tudo
para servir de escudo humano no Iraque e abandonaram a missão na divisa da
Turquia por problemas financeiros

Fábio Farah

 
Ag. RBS
Flávio Ravara, aos 18 anos, quando combateu como legionário na África (no alto, à esq.)
e sua mãe, Tânia, segurando uma foto
do filho: “Nunca rezei tanto na vida”

Em dezembro passado o modelo e músico gaúcho Glauco Caruso Goulart, 29 anos, assistia ao show de Paul McCartney, em Londres, quando se surpreendeu ao reencontrar o amigo de infância Flávio Ravara, 31, com quem tivera uma banda em Rio Grande (RS). Papo vem, papo vai, Flávio fez uma revelação que deixou o amigo boquiaberto: em janeiro de 2003, ele e mais 49 pacifistas partiriam da Inglaterra rumo ao Iraque, para servir de escudo humano iraquiano num eventual ataque dos Estados Unidos.

Flávio seguia a iniciativa de Ken Nichols O’Keefe, um ex-fuzileiro americano que lutou na Guerra do Golfo, em 1991,
e renunciara à cidadania em protesto contra a política externa do seu país. Como escudo humano, o gaúcho lançaria mão do próprio corpo para garantir proteção a
áreas civis. Numa eventual guerra, a idéia é fazer uma barreira humana em frente a hospitais e escolas iraquianas, impedindo um conflito nos locais.

Decidido, Flávio ligou para a mãe, que mora no sul do País, e disse: “Vou ficar um tempo sem ligar porque viajarei pela Europa”. Somente ao irmão mais velho contara a verdade: estava a 4 dias do embarque para o Iraque. No dia mar-
cado, final de janeiro passado, Glauco, o amigo que Flávio encontrou no show de McCartney, foi se despedir do par-
ceiro de infância. Três ônibus vermelhos de dois andares – tradicionais em Londres – levariam os 50 escudos huma-
nos à terra de Saddam.

Morando há três anos na capital inglesa, Flávio trabalha-
va de dia em uma empresa internacional de telefonia e, à noite, tocava gaita e violão em pubs. Em sua bagagem, constavam uma camisa da seleção brasileira, um violão e um cartão de crédito. Um ativista, no momento da partida, desistiu da empreitada e Glauco, apenas com uma mochila de roupas nas costas, decidiu, ali, acompanhar o amigo. “Participar de um movimento como este é tudo o que eu sempre quis. Vou fazer alguma coisa de verdade”, justificou Glauco, que tem um certificado de honra ao mérito da Aeronáutica pendurado na parede do quarto e guarda uma foto tirada no túmulo de John Lennon.

Glauco, ao contrário do amigo, só avisou os familiares no percurso para Bagdá. “Desmontei na hora”, conta a advogada Maria Ilma, sua mãe. “Chorei de desespero.”
Tânia Ravara, 51 anos, mãe de Flávio, andava por uma feira livre, em Rio Grande, quando um desconhecido a abordou para comentar a iniciativa do filho. “Discutimos e fui parar
no hospital por nervosismo”, conta ela, que soube ali que
o filho virara manchete na pequena cidade do sul do País
por causa da iniciativa.

Tânia já vira o filho se envolver em outra situação de risco quando Flávio, aos 18 anos, viajou para a França para servir na Legião Estrangeira e combateu na África. “Nunca rezei tanto como agora. Tenho certeza de que ele voltará.” Há três semanas, uma queixa feita via telefone por Glauco à mãe, Maria Ilma, acenava para o desfecho imaginado por Tânia. “Disseram que tudo seria financiado, mas terei que gastar do meu próprio bolso”, falava Glauco.

Na terça feira 11, o Iraque concedeu visto aos escudos humanos que aguardavam na Turquia e, na chegada a
Bagdá, pagou alojamento, ofereceu telefone e internet gratuitos aos voluntários. “Não há nenhum escudo humano brasileiro aqui no Iraque”, garantiu à Gente, por telefone, Marcelo Antônio dos Santos Ferreira, presidente da Federação das Entidades Árabes-Brasileiras e chefe da
última comitiva brasileira no país.

Tinha razão. Glauco e Flávio abandonaram a missão por problemas financeiros, próximos da fronteira com a Turquia. “Eles não concordaram com o direcionamento da missão.
Iam para o Iraque para pregar a paz, mas parece que o discurso político estava tomando conta de tudo”, diz
Maria Ilma, mãe de Glauco.

Na segunda-feira 24, enquanto o secretário de Relações Exteriores britânico, Jack Straw, dizia que a ONU teria um prazo de duas semanas para propor uma nova resolução sobre o Iraque e o secretário de Estado norte-americano Collin Powell tentava convencer a China a apoiar a guerra, as mães de Glauco e Flávio respiravam aliviadas. Após o silêncio de semanas, Maria Ilma recebia uma ligação de Londres, para onde retornaram sãos e salvos os brasileiros.

Comente esta matéria
 
 

Clique para vê-la ampliada
EDIÇÃO 187
ENQUETE

Na sua opinião,
quem será a musa
do carnaval 2003?

Deborah Secco
Luisa Mell
Daniela Sarahyba
Manuela Saadeh
Quitéria Chagas
Luma de Oliveira
Luciana Gimenez
Luiza Brunet
Adriane Galisteu
Ivete Sangalo
Daniela Mercury
Gil

:: VOTAR ::
 
FÓRUM
 BUSCA

RESUMO DAS NOVELAS
Saiba o que vai acontecer durante a semana na sua
novela preferida
TESTE
Inteligência Sexual
Quanto mais uma pessoa entende de sexo, mais satisfação na cama ela tem
• Fale conosco
• Expediente
• Assinaturas
• Publicidade
 
| ISTOÉ | ISTOÉ DINHEIRO | PLANETA | EDIÇÕES ANTERIORES | ESPECIAIS |
| ASSINE A NEWSLETTER | ASSINATURAS | EXPEDIENTE | FALE CONOSCO | PUBLICIDADE | AVISO LEGAL
© Copyright 1999/2003 Editora Três