06 de dezembro de 1999
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Testemunhas do Século -- Mário Lago, 88 anos

Ator por acaso, comunista por opção
Neto de anarquista, ele formou-se em Direito, compôs sambas famosos, como “Amélia”, e conheceu a mulher num comício do PCB

Leneide Duarte

Foto: André Durão

O melhor personagem do ator Mário Lago foi o companheiro Pádua. Sua atuação foi tão convincente que levou-o à prisão na vida real, já que “Pádua” era o próprio comunista Mário Lago. Pádua era o codinome do ator na sua militância marxista, que lhe rendeu muitas prisões: a primeira em 1932 e a última em 1969, no ano seguinte ao AI-5. “Fui militante do Socorro Vermelho, depois da Juventude Comunista, quando peguei a primeira cadeia, em 1932. Foram ao todo sete prisões: 1932, 1941, 1946, 1949, 1952, 1964 e 1969”, enumera o ator, compositor, poeta, autor teatral e militante comunista, em seu apartamento em Copacabana, aos 88 anos, completados no dia 26 de novembro. Na última prisão, graças à presença, entre os presos, de Carlos Lacerda, que fora governador, Mário Lago teve algumas regalias. “Essa cadeia foi mole, tivemos até visitas da família”, relembra Mário.

O interesse pela política surgiu dentro de casa, com o convívio com o avô italiano, o flautista e anarquista Giuseppe Croccia, e, posteriormente, na Faculdade de Direito da Universidade do Brasil, onde se formou em 1933. O avô anarquista via com entusiasmo qualquer revolução. “Durante a Coluna Prestes, em 1926, vovô colecionava as notícias dos jornais e vibrava com a marcha.” Aos domingos, entre 1921 e 1922, o avô, que dormia no mesmo quarto de Mário, levava o neto para ver a demolição do Morro do Castelo, no Centro do Rio.

Aos sete anos, em 1918, a gripe espanhola foi responsável pela primeira grande desilusão de Mário. Ele descobriu que Papai Noel não existia. Mário foi atingido pela epidemia de gripe, como milhares de pessoas na cidade. “Na Santa Casa, havia o chá da meia-noite, espécie de eutanásia para quem estava em estado terminal. Era preciso liberar as camas para outros. Pararam os teatros e quase tudo na cidade. Foi quando fiquei sabendo que não existia Papai Noel, que era meu pai quem comprava os presentes e que não ia ter dinheiro naquele Natal”, conta.

Na Faculdade de Direito, onde entrou em 1930, Mário Lago fez seu batismo na política. “Virei marxista, que sou até hoje”, diz. “Só que agora não tenho filiação partidária. Eu nunca fui do PC, fui PC”, brinca o ator, que se alinha às lutas do Partido dos Trabalhadores. “Sou PT, não sou do PT.” Sua mais importante conquista nas lutas políticas foi Zeli, sua companheira por 50 anos, que lhe deu cinco filhos: Antônio Henrique, Graça Maria, Mário Lago Filho, Luiz Carlos e Vanda. Filha do dirigente comunista Henrique Cordeiro, Zeli estava num comício do partido no Largo da Carioca quando conheceu Mário. Foi no dia 23 de março de 1947, e em novembro do mesmo ano já estavam casados. Só se separaram quando ela morreu, em 1997.

Quando Mário se casou, os comunistas já tinham voltado à ilegalidade - em maio de 1947, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro do PCB - depois de uma curta “primavera” em que elegeram Luiz Carlos Prestes como o senador mais votado em 1945. Não por acaso, um dos filhos de Mário se chama Luiz Carlos.

A militância política não atrapalhou a veia artística de Mário. Ele fez teatro, cinema e tevê, ganhando a vida como ator, mas a carreira artística começou por acaso. Ele conta que via o diretor teatral Joracy Camargo ensaiar o novo repertório para sua temporada de excursão pelo País. Certa vez recebeu o convite de Joracy para subir no lugar do galã titular, que não estava satisfazendo o diretor. Era 1942 e a nova carreira veio se somar à de autor de teatro de revista e de compositor de música popular.

Para sobreviver, depois de demitido da Rádio Nacional, logo após o golpe de 1964, por ter sido da diretoria do Sindicato dos Radialistas, Mário teve de trabalhar em fotonovela: “Posar para fotonovela é a coisa mais terrível do mundo. Você é um robô. O diretor diz ‘agora ri’, você ri e não sabe por quê”. Na televisão, Mário ingressou nos anos 50. Não havia videoteipe e, na antiga TV Rio, aos domingos, ia ao ar o Teatro Moinho de Ouro, com uma peça por semana. “Ensaiávamos de quinta a sábado e, no domingo, entrávamos ao vivo. Não havia folga semanal”, diz.

A outra paixão de Mário, a música, vem de berço. Filho do maestro e violinista Antônio Lago, estudou piano durante seis anos no Conservatório com Rocília Villa-Lobos, a primeira mulher de Villa-Lobos. “Desisti do piano quando me encantei com uma roda de samba”, conta Mário, cujo pai desde cedo levou-o a conviver com músicos e artistas. Em 1936, aos 25 anos, Mário estreou como compositor com a marcha de Carnaval “Menina, Eu Sei de Uma Coisa”, sua primeira parceria com Custódio Mesquita, gravada por Mário Reis.

Envie esta página para um amigoEm sua vida de compositor foi parceiro de Ataulfo Alves, Benedito Lacerda e Elton Ribeiro e entre seus sucessos mais conhecidos estão “Amélia”, “Atire a Primeira Pedra” e “Nada Além”, um enorme sucesso na voz de Orlando Silva, em 1938. “Nada Além” seria gravada também por Nélson Gonçalves, Francisco Carlos, Cauby Peixoto, Quarteto em Cy, Maria Bethânia e Gal Costa, entre outros.

Em 1991, aos 80 anos, quando a maioria das pessoas já acha que deve gozar de merecida aposentadoria, Mário Lago começou nova carreira: a de showman. Para marcar a data, ele resolveu criar um show com suas músicas, entremeadas de histórias que viveu. Surgiu o espetáculo Causos e Canções de Mário Lago, que já excursionou por todo o Brasil nos últimos oito anos.
 

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