06 de dezembro de 1999
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Os novos fabricantes de sucessos
Uma nova geração de produtores musicais, que inclui Dudu Marote, BiD, Tom Capone, Carlos Eduardo Miranda e Chico Neves, se destaca pelo trabalho em importantes discos do cenário pop

Paula Alzugaray e Ramiro Zwetsch

Atrás de um grande disco, na maioria das vezes há um bom produtor musical. Se há dez anos essa afirmação estava distante de ser totalmente verdadeira, nos anos 90 virou quase uma regra. Todo artista que tem ou quer alcançar destaque no universo da música pop, procura um bom produtor, capaz de encontrar as combinações certas entre vozes, instrumentos e recursos tecnológicos para criar fórmulas que garantam o sucesso das músicas. "Produtor musical é como o diretor de um filme. O compositor é o roteirista, a banda é o elenco e o arranjador é o cenógrafo", define o produtor Carlos Eduardo Miranda. O envolvimento entre músicos e produtores é tão grande que é como se a banda ganhasse temporariamente outro integrante - como o britânico George Martin, que passou a ser conhecido como "o quinto Beatle". "É pior que casamento, porque você passa, no mínimo, 12 horas por dia com o artista", diz Dudu Marote. Com direito a 2% do valor de cada CD vendido, o produtor já faturou cerca de R$ 220 mil com o disco De Volta ao Planeta..., do grupo Jota Quest, que já vendeu 500 mil discos.

Miranda e Marote são dois representantes de uma nova geração de profissionais que está conquistando notoriedade graças à recente popularização dos recursos eletrônicos de gravação. Desde o princípio da década, eles montaram seus próprios estúdios - alguns dentro de casa -, garantiram autonomia e liberdade de criação e se projetaram no universo da música pop.


Eduardo BiD, 32 anos
Um olho no passado, outro no futuro

Foto: Julio Vilela

Caubi Peixoto cantando rock, o sambista Moreira da Silva em ritmo de música pop e Gilberto Gil num repente com Chico Science. Promover encontros entre diferentes tribos e gerações faz parte do trabalho do produtor musical paulistano Eduardo BiD. "Gosto de misturar a escola velha com a nova. Eles precisam se alimentar da gente e nós deles", diz BiD, que produziu discos de Chico Science & Nação Zumbi, Pavilhão 9 e Mundo Livre S.A.

É inspirado numa coleção de discos vinil e CDs de hip hop, jazz, funk, reggae e MPB, que BiD mantém ativas as influências da velha guarda e pratica uma das atividades básicas de qualquer produtor dos anos 90: a garimpagem de trechos musicais que servirão de material bruto de trabalho. "Costumo buscar coisas obscuras de gente conhecida. Já usei trechos de Mutantes, Jobim e Jorge Benjor com instrumentos gravados". Nessa brincadeira de misturar ritmos brasileiros, surgiu a parceria com Chico Science, em Afrociberdelia (1996). "Ele já tinha uma personalidade musical muito forte. Sabia que queria misturar rock com funk e maracatu, mas não tinha o equipamento." Alguns loops, várias programações de bateria eletrônica e samplers de Mutantes e Gilberto Gil depois, o Nação Zumbi se tornaria a semente do mangue beat - um movimento que revolucionou a MPB ao integrar à música nordestina os recursos eletrônicos.


Dudu Marote, 34 anos
A máquina de fazer sucessos

Foto: Julio Vilela

O grupo mineiro Skank já havia lançado um disco quando encomendou um remix da música "Baixada News" para o produtor paulistano Dudu Marote, no final de 1993. A versão ficou tão boa que Marote foi convidado para produzir os dois discos seguintes da banda, Calango (1994) e Samba Poconé (1996), que venderam, juntos, 3 milhões de cópias. "Eu imaginava que o Skank tinha três músicas que podiam acontecer, mas não fazia idéia que faria tanto sucesso", conta Marote. "Antes de gravarmos Calango, todas as músicas estavam em estado bem bruto e eu tive que interferir bastante nos arranjos." Essa interferência aconteceu em vários níveis - mudança de acordes, repetição de refrãos, acréscimo de instrumentos ou elementos eletrônicos - e foi providencial, pois a banda saltou de 100 mil cópias vendidas do primeiro álbum para 1,2 milhão com Calango. O sucesso, no entanto, ao contrário do que parece, também pode criar feridas no relacionamento entre o produtor e a banda. "Na hora que o produtor aparece tanto ou mais que o artista, surgem problemas. Depois do Samba Poconé, o Skank me demitiu porque, na opinião deles, minha exposição na mídia foi exagerada." Procurados pela reportagem de Gente, os integrantes do Skank não quiseram falar no assunto.

Apareceram então convites para produzir Pato Fu, Jota Quest e Maurício Manieri, todos trabalhos com projeção comercial satisfatória. "Em todo disco em que eu trabalho eu procuro duas ou três faixas que possam ser divulgadas, tocar no rádio", explica. Com esse faro comercial, Marote se tornou um dos produtores mais procurados do País. Só em 1999, foram cinco discos produzidos, alguns ainda não lançados no mercado fonográfico. Todo esse apetite por trabalho tem outra razão, além das motivações financeiras. "A maioria dos grandes produtores internacionais já tem mais de 50 discos nas costas", explica. "Eu, por enquanto, tenho 12. Nesse ritmo, talvez em uns oito anos eu chegue lá".


Carlos Eduardo Miranda, 37 anos, e Tom Capone, 32
Os bons companheiros

Foto: Adi Leite (Carlos Eduardo Miranda)

Às vezes, um produtor pode interferir tanto em um trabalho que, no final, a banda não reconhece o próprio som. Quando o paulistano Carlos Eduardo Miranda pegou Samba Esquema Noise (1994), primeiro disco do grupo pernambucano Mundo Livre S.A., para produzir, ele passou três meses no estúdio. Mudou o andamento de algumas faixas e acrescentou instrumentos gravados por músicos do Nação Zumbi e dos Titãs. "Quando a banda ouviu, alguns não sabiam como tocar as músicas.", diz Miranda. "Éramos totalmente ignorantes quanto à técnica de gravação", conta Fred 04, líder do Mundo Livre. "Confiamos em Miranda e ele realmente mudou muito algumas músicas." Recentemente, a revista especializada Showbizz apontou o álbum como o terceiro mais importante de pop rock nacional da década de 90.

Um ano depois, durante o show de lançamento do primeiro disco dos Raimundos - produzido por Miranda e apontado pela Showbizz como o mais importante da década - no Rio de Janeiro, Miranda foi apresentado a outro produtor de predileção assumida pelo rock pesado. O carioca Tom Capone, dono de uma coleção de mais de 50 guitarras, tornou-se um bom parceiro.

Foto: Kiko Cabral (Tom Capone)

Os dois trabalharam juntos no quinto álbum dos Raimundos, Só No Forevis (1999), carregando nas guitarras. "Cada música sugere uma guitarra diferente. A gente usou uns dez ou 15 tipos diferentes", conta Capone. Assim como as músicas têm tratamentos diferenciados, cada disco também pede um processo de produção próprio. Para reproduzir o impacto das apresentações ao vivo do grupo carioca Pedro Luís e a Parede, Tom Capone subverteu a maneira tradicional de gravação. Gravou as faixas de Astronauta Tupy (1997) com todos os músicos tocando ao mesmo tempo. Fez uma espécie de "disco ao vivo em estúdio".

Capone e Miranda ainda têm uma outra afinidade: ambos atuam como diretores artísticos das gravadoras Warner e Trama, respectivamente. "Diretor artístico é o cara que descobre o artista, contrata e sugere um produtor para o disco", explica Miranda, que já indicou Capone para produzir os grupos de rock Acabou La Tequila e Pravda.


Chico Neves, 39 anos
Entre cabos e pincéis

Foto: Leandro Pimentel

Em 1990, quando lançou carreira-solo, a carioca Fernanda Abreu deu o pontapé inicial da cultura dance brasileira. Com SLA Radical Disco Club, foi a primeira vez que o Brasil dançou em massa com o recurso eletrônico do sampler. Quem assinava a operação de computadores era o músico Chico Neves. "Ele é um especialista em sampler. Até hoje ele é meu consultor nesse terreno", diz o produtor musical Liminha, de quem Neves foi assistente de 1980 a 1986. "Eu trabalho com o som como o pintor trabalha com a tinta. Vou misturando tudo até chegar no resultado", diz Neves, que está por trás de outro recente sucesso de crítica e público, o disco O Dia em que Faremos Contato (1997), de Lenine. O músico pernambucano nunca tinha experimentado a parafernália eletrônica até conhecer o carioca Chico Neves. Lenine já era considerado um dos melhores compositores brasileiros da década de 90, mas não tinha emplacado um disco-solo até vender 75 mil cópias. "Sinto que ajudei ele a ser mais compreendido pelo público. Ele ficou mais popular", observa Neves, fazendo questão de ressaltar que a qualidade de uma produção não se mede pelos números de vendas. "Não acho essencial fazer música pop. Quando a gravadora diz que um disco que produzi é difícil de tocar do rádio, considero um elogio", diz Neves.

Antônio Pinto, 32 anos, e Apollo 9, 30
Superproduções a partir de voz e pandeiro

Foto: Pio Figueiroa (Apollo 9)

Foi numa típica cena de samba de botequim que o músico pernambucano Otto mostrou suas composições para Apollo 9, ou Francisco Carvalho, tecladista do Planet Hemp. "Ele me mostrou quase todas as músicas no pandeiro e nós planejamos um disco com muitos elementos eletrônicos", diz Apollo 9, que já acumulava a experiência de produção de alguns discos de música techno. E foi justamente com a poderosa mistura de percussão e bateria eletrônica de Samba Pra Burro que tanto Otto, ex-percussionista do grupo Mundo Livre S.A., quanto Apollo 9 dispararam. O disco ganhou o prêmio de melhor disco de MPB de 1998 pela Associação Paulista dos Críticos de Arte e a parceria volta com novo CD no ano que vem.

Foto: Alexandre Tokitaka (A.Pinto)

Foi também a partir da voz e do pandeiro que o produtor Antônio Pinto realizou os arranjos de cinco músicas de Adão Xelebaradã, um compositor carioca da favela do Cantagalo. Antônio, que começou a carreira fazendo remixes e desde 1992 está investindo na produção de trilhas sonoras (Central do Brasil, O Primeiro Dia, O Menino Maluquinho), conheceu o compositor durante a realização da trilha do curta Adão, de Walter Salles Jr. "Do músico, só ficou a voz e a composição. Todos os instrumentos foram gravados por músicos convidados", diz ele. O que era poesia declamada ganhou tinturas de "techno-punk-afro".

Liminha, 48 anos
O pai de todos

Depois de acompanhar os Mutantes como baixista de 1969 a 1974, Liminha resolveu se aventurar nos mares da produção musical e começou com o pé direito. A gravadora Warner acabava de ser inaugurada em 1976 e ofereceu ao músico a produção do primeiro disco das Frenéticas. "A gravadora não acreditava muito no grupo, pois elas eram garçonetes", conta ele. "Praticamente empurraram a produção para mim, que não tinha experiência." Resultado: foi o primeiro disco de ouro da Warner.

Com o sucesso logo na primeira produção, choveram convites e o produtor se consolidou na década de 80, trabalhando em discos marcantes da carreira de artistas como Gilberto Gil, Lulu Santos e Titãs. "Liminha é a nossa escola", diz Dudu Marote. "Ele ajudou as pessoas a reconhecerem o trabalho do produtor", completa BiD. Antes de Liminha, o papel do produtor quase não tinha relevância no cenário musical. Com suas produções, ficou claro que esse profissional pode até mudar os rumos da carreira de um artista, alavancando as vendas de discos ou ajudando a lapidar um conceito musical.

Uma das marcas registradas do estilo Liminha de produzir é a interferência no repertório. "Interfiro sempre", diz. "Peço para o artista vir ao estúdio com música sobrando, para que eu possa justamente dar minha opinião." Desde o disco das Frenéticas - quando sugeriu a gravação de "Perigosa", de Rita Lee - ele opina na escolha das músicas - e surpreende. Durante as gravações de Rappa Mundi (1997), do grupo Rappa, ele sugeriu uma versão - meio reggae, meio rap - para "Hey Joe", de Jimi Hendrix. A música foi a primeira do disco a chegar às rádios.


Suba, entre muitos amigos

Envie esta página para um amigoMarina Lima, Arnaldo Antunes, Edson Cordeiro, Mestre Ambrósio, Bebel Gilberto, Edgard Scandurra, Taciana, Daniela Mercury. Foram muitos os artistas que se deixaram cativar e beberam da fonte inesgotável de sonoridades digitais do produtor iugoslavo Mitar Subotic, o Suba, que viveu quase dez anos no Brasil e faleceu aos 38 anos no final de outubro. "Entre as várias coisas que aprendi com ele, posso destacar duas que mudaram para sempre a minha relação com a música: suas dicas a respeito da linguagem digital (ele era um craque, nunca tinha visto alguém trabalhar com tanta eficiência nos teclados e computadores) e a sua visão européia de música pop", diz Marina Lima, para quem Suba produziu Pierrot do Brasil (1998). Além de um produtor criativo, requisitado em trabalhos de alta carga eletrônica, Suba era um artista inovador, que acabava de lançar na Europa seu primeiro CD, São Paulo Confessions, cotado com cinco estrelas pela edição alemã da revista especializada Rolling Stone.


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