06 de dezembro de 1999
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Televisão

Espanhol em Terra Nostra
Filho da cantora Maysa e diretor da novela das oito, Jayme Monjardim viveu num internato em Madri, foi piloto comercial e quer ser veterinário

Rosângela Honor

Foto: Leandro Pimentel

Em 1984, Jayme Monjardim Matarazzo era mais um dos muitos cineastas que tentavam obter subsídios do governo para realizar seus filmes. Naquela época, ele trilhou o mesmo caminho percorrido por muitos diretores e bateu à porta da Embrafilme. Esbarrou num obstáculo que vinha se tornando uma constante em sua vida: o sobrenome Matarazzo, herdado do pai, o industrial paulista André Matarazzo. Seu curta não foi escolhido porque os diretores da instituição alegavam que ele não precisava de dinheiro. Depois disso, ele aboliu o sobrenome que é símbolo da aristocracia paulista.

Hoje, aos 43 anos, ele se tornou um dos diretores mais importantes de sua geração e é uma referência na televisão brasileira. Assina a direção de Terra Nostra, novela de Benedito Ruy Barbosa que devolveu à Globo os maiores índices de audiência dos últimos anos no horário das oito. O diretor credita o sucesso da trama ao fato de ser uma história passional. “Novelas precisam de heróis e de personagens que se identifiquem com o público”, ensina Monjardim. Há um ano, o diretor voltou à Globo - onde havia dirigido Sinhá Moça, O Outro e Direito de Amar - para comandar a minissérie Chiquinha Gonzaga trazendo na bagagem seu estilo pessoal e inconfundível, criado há nove anos na Rede Manchete, quando foi exibida a novela Pantanal, também de Benedito Ruy Barbosa. Nos últimos anos, passou pela Rede Bandeirantes e tocou projetos fora da televisão.

Jayme Monjardim não se considera autor de uma nova estética e diz que esse mérito deve ser atribuído a Walter Avancini. “Ele, sim, criou algo novo. É o pai dos diretores”, elogia. Avancini, por sua vez, diz que Jayme trilhou um caminho próprio. O diretor também tem um olhar infalível para novos talentos. O ator Thiago Lacerda conquistou o papel de protagonista de Terra Nostra depois de um teste com o diretor. “Ele tem uma sensibilidade fora do comum e seu envolvimento com o trabalho é de pura paixão”, diz Jayme. “O Jayme é discreto e tem um carinho especial com os atores”, devolve Thiago.

Fanático por televisão, liga as quatro tevês em casa e assiste a vários programas ao mesmo tempo. “Acho o Silvio Santos um gênio e o Ratinho um grande apresentador, mesmo que o programa dele não seja saudável”, diz. Filho único de André Matarazzo e da cantora Maysa, Jayme Monjardim passou a infância entre a fazenda do pai, em Bragança Paulista, em São Paulo, e um colégio interno em Madri, na Espanha, onde ficou dos 7 aos 17 anos. A fala mansa esconde o menino levado que chegou a ser expulso do colégio Brasil Europa, um dos mais tradicionais de São Paulo, porque foi pego olhando as meninas no banheiro. “Eu era muito travesso.”

Aos 7 anos, depois da morte do pai, foi levado para um colégio interno na Espanha. Lá, teve que se adaptar ao rígido regime disciplinar. Muitas vezes, quebrou as normas estabelecidas pela instituição ao fugir para encontrar espanholas. A rebeldia lhe rendeu muitos castigos, inclusive físicos. A média 5 exigida pelo colégio era um pesadelo para ele. Suas notas oscilavam entre 4 e 4,5. “Consegui superar as dificuldades diante da necessidade de sobreviver sozinho.”

A vida no colégio interno quase o transformou num espanhol. Ele conta que até hoje não sabe escrever bem o português. “Ainda penso em espanhol”, admite. Jayme Monjardim também fala inglês e italiano. Aprendeu os idiomas na época em que morou com Maysa em países como Itália, Portugal, Estados Unidos e México. “Este é o meu patrimônio cultural”, acredita. Aos 17 anos, retornou ao Brasil e avisou à mãe que não queria mais ir para a Espanha. Mesmo afastado de Maysa nos anos em que viveu no colégio interno, é dela que o diretor guarda as melhores lembranças. “Mesmo longe, ela sempre esteve próxima de coração e alma”. Não esquece a última vez em que a viu no aeroporto, em São Paulo, quando partiu em viagem de lua-de-mel de seu primeiro casamento, aos 20 anos. Soube da morte da mãe pelo rádio. “Tocaram a música ‘Ouça’, um de seus maiores sucessos, e informaram o acidente”, recorda. Maysa morreu em 22 de janeiro de 1977, num desastre de carro na Ponte Rio-Niterói. “Ela me ensinou que a gente deve falar sempre o que pensa.”

Nessa época, Jayme trabalhava como piloto comercial em uma empresa de fertilizantes, em São Paulo. Tentou ingressar na aviação civil, mas a miopia e o astigmatismo o reprovaram no teste. “Perdi dois anos de minha vida voando.” Mesmo assim, sonha um dia ter um avião particular. Essa não foi sua única aventura antes de enveredar pela direção, em 1983, quando fez um estágio com o cineasta italiano Michelangelo Antonioni, atuando como assistente em uma de suas produções. Foi dono de uma empresa de produções em formato super-8. “Já filmei casamentos, batizados e até cirurgias”, conta. Hoje, acumula no currículo 28 curtas, dez novelas e duas minisséries.

Envie esta página para um amigoHá um ano, Monjardim se mudou para o Rio com a atual mulher - a quarta -, a atriz Daniela Escobar, e o filho, André Escobar Matarazzo, de um ano e meio. Seus outros filhos, Maria Fernanda, 13 anos, e Jayme, de 14, moram em São Paulo. Ele trocou a casa na Serra da Cantareira, em São Paulo, por uma na Barra da Tijuca, no Rio. Embora não tenha se adaptado à cidade, Jayme deverá ficar no Rio pelo menos até 2005, quando termina o contrato com a Globo. “Não gosto de praia, detesto areia”, diz. Também sente falta dos restaurantes e do convívio com amigos de São Paulo. “Morro de fome no Rio”, diz. “São poucos os restaurantes bons.” Seu maior hobby é a criação de 30 cavalos que tem em seu haras, em Amparo, São Paulo. “Estudo os cavalos portugueses.” Por isso, ainda preserva o sonho de estudar veterinária. Como o excesso de trabalho o tem impedido de ir a Amparo, ele tem se dedicado, depois do curso que fez há um ano, a mergulhar em Angra dos Reis.

Com a família Matarazzo, tem pouco contato. Nos primeiros capítulos de Terra Nostra, recebeu uma ligação da tia, Filomena Matarazzo, 91 anos, mãe do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), elogiando a novela. “Tenho que ligar para o Jayminho de novo e pedir para ele melhorar a dicção dos personagens. Ou precisam falar melhor ou eu estou surda”, diz Filomena, que se orgulha do baú com objetos dos imigrantes italianos que ganhou na festa de lançamento da novela e guarda em sua saleta.

Colaborou Rodrigo Cardoso

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