06 de dezembro de 1999
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Política

Cabra vip do sertão
O deputado Inocêncio Oliveira fez plástica no nariz, tratamento para a gagueira e vive com luxo para desfazer o estigma de matuto de Serra Talhada

Cláudia Carneiro
de Recife

Foto: Rubens Chaves

Tarde de novembro, domingo de sol, praia cheia. Depois de correr ao longo da avenida Beira-mar de Recife, o líder do PFL na Câmara, deputado Inocêncio Oliveira (PE), deixa seu espaçoso apartamento com vista para a praia de Boa Viagem, enche o porta-malas de um dos quatro carrões estacionados na garagem e segue para Porto de Galinhas, a praia mais badalada do litoral pernambucano. Quando chega a sua casa de veraneio, distribui cumprimentos aos conterrâneos e eleitores. Tira então a bermuda, o tênis Nike, os óculos Armani e põe um calção de banho para dar um refrescante mergulho na piscina particular. Ao lado, um jet boat fica à disposição do deputado, em caso de um impulso por aventuras sobre as ondas do mar.

Assim vive Inocêncio Oliveira, 61 anos, nos momentos de lazer. Casado há 34 anos com Ana Elisa, 53, ele é pai de Shely, 33, Shirley, 25, e Sheila, 23. O casal perdeu em 1991 o único filho, Sheldon, aos 22 anos de idade. O descanso de Inocêncio na casa de praia alivia as tensões depois de enfrentar exaustivas articulações políticas em Brasília durante a semana e fazer sua peregrinação eleitoral no Estado, às sextas e sábados. Antes disso, Inocêncio enfrentou preconceito para conquistar reconhecimento político. Neste mês, o deputado quer marcar mais um ponto em sua carreira. Em Brasília, ele pretende lançar um livro com idéias sobre o social-liberalismo.

Algumas décadas atrás, o próprio Inocêncio Oliveira não acreditaria ser possível abandonar o estigma de matuto de Serra Talhada para marcar presença na vida política nacional. A 400 quilômetros de Recife, no sertão pernambucano, Serra Talhada é a cidade onde nasceu e morou até há pouco tempo. O sertanejo que chegou ao Recife aos 15 anos formou-se na Faculdade de Medicina, em 1963, e fez carreira em sua terra natal. Foi eleito deputado federal em 1975. Garante que fez mais de 10 mil cirurgias de garganta, vesícula e apendicite, entre outras, nos dois hospitais que conseguiu construir na cidade.

Inocêncio Oliveira chegou a vice-presidente da Câmara, primeiro-secretário e, em 1993, a presidente. Hoje, no sétimo mandato, o deputado ocupa a liderança do PFL pelo quinto ano consecutivo e acha que está a um passo de eleger-se novamente presidente da Câmara, em 2001. “Meu projeto é fazer da Câmara não um centro de debates, mas um centro indutor do processo de desenvolvimento do País”, propõe. “E o PMDB fecha comigo”, completa, apostando na troca de cadeira com o partido, que quer a presidência do Senado.

Existe um trunfo no meio de tanta convicção. Conselheiro do presidente Fernando Henrique nas questões parlamentares, atualmente ele não tem concorrente para a sucessão do deputado Michel Temer (PMDB-SP) na presidência da Câmara. A primeira campanha, contudo, não foi moleza. Para ter chance de vitória, ele teve de enfrentar sessões diárias com fonoaudiólogas e superar a própria gagueira. Inocêncio não conseguia se expressar verbalmente na mesma rapidez com que pensava, o que o deixava embaraçado no corpo-a-corpo com os deputados.

Hoje em dia, o líder só perde o ritmo quando sai do sério. Ele volta ao estado normal com um soco na mesa. Recebe dezenas de cartas de brasileiros pedindo orientação sobre como resolver o problema de gagueira. E responde todas elas. “Um sujeito que sai de Serra Talhada, chega a ser presidente da Câmara dos Deputados, assume a Presidência da República por 12 vezes e é eleito líder de seu partido político cinco vezes, está realizado”, afirma ele. O parlamentar embala sonhos ainda fora de seu alcance: o governo de Pernambuco, para o qual o aliado Jarbas Vasconcelos deve tentar a reeleição, e uma vaga no Senado, que nenhum outro pernambucano pefelista deverá tirar de Marco Maciel em 2002.

O deputado do sertão também enfrentou impopularidade por ter usado máquinas do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS) para perfurar poços artesianos em sua fazenda. A obra subsidiada era feita diante do pagamento de uma quantia simbólica ao governo. “O procedimento foi imoral”, diz José Genoíno, líder do PT na Câmara. “Ele usou o prestígio do seu mandato e depois admitiu o erro”, conclui. Depois do escândalo, Inocêncio, como presidente da Câmara, devolveu ao Estado o custo do subsídio. No entanto, o episódio até hoje lhe causa mal-estar, quando lembrado. “Fui injustiçado, porque qualquer pessoa tinha direito ao subsídio”, acredita.

Envie esta página para um amigoO sucesso político não bastou na vida do médico de Serra Talhada, que já havia adquirido, além dos hospitais, 6,2 mil hectares de fazendas de gado no Maranhão e em Pernambuco, concessionárias de motos e automóveis, três rádios no interior e uma televisão em Caruaru, num patrimônio total de US$ 5 milhões. Vaidoso, Inocêncio decidiu tornar-se um legítimo homem urbano. Abandonou a vida rural que curtia nos fins de semana e mudou-se com a família para Recife em dezembro de 1997. Comprou um apartamento de 400 metros quadrados, de frente para o mar, com quatro suítes, no segundo melhor edifício de Recife, e caprichou na decoração. Contratou uma personal trainer para a mulher, comprou carros novos e a casa de praia no espaço mais cobiçado do litoral de Pernambuco. No ano seguinte, fez cirurgia plástica no nariz e ganhou um perfil mais ajustado à silhueta, com 20 quilos a menos, à custa de muita disciplina. “A gente tinha uma vida muito monótona em Serra Talhada e eram 24 horas por dia respirando política”, conta Inocêncio.

O mundo vip não destruiu os valores mais primitivos do líder. Ele continua a ser o mesmo pão-duro cuja fama corre Brasília. Inocêncio consegue ter uma coleção de gravatas sem nunca ter comprado alguma. E gosta de exibir suas preferidas, da marca Ermenegildo Zegna. Na véspera do casamento de uma das filhas, teve de ser atendido por um médico. O motivo da pressão arterial alta, revelado por amigos, era a gastança para a festa de mil convidados. Até que um dia o presidente Fernando Henrique Cardoso, outro notório pão-duro, quis passar a história a limpo. “Meu amigo Inocêncio, é verdade que você sai de Brasília, vai a Serra Talhada e volta sem botar a mão no bolso uma única vez?” Inocêncio respondeu que sim. “Pois eu, quando era senador, conseguia a mesma proeza”, confessou Fernando Henrique. “Ele sabe guardar dinheiro. Segredo, não”, revela a mulher Ana Elisa.
 

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