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02/12/2002

   
 
Prensa Três
Euclides da Cunha viajou para São Paulo com Ludgero dois dias antes do massacre final em Canudos
“Ludgero Prestes, recebi a sua prezada carta de 3 do corrente; li-a com surpresa indescritível, verdadeiramente encantado; e não poderei traduzir-te minha comoção ao ver aparecer-me quase um homem – e homem na mais digna significação da palavra – o pobre jaguncinho que me apareceu pela primeira vez há onze anos no final de uma batalha. O que fiz foi, na verdade, muito pouco: – o trabalho material de livrar-te das mãos dos bárbaros e conduzir-te a São Paulo. A minha ação verdadeiramente única foi confiar-te a Gabriel Prestes. A ele, sim, deves a tua maior e incalculável gratidão (...)”
Trecho da carta de Euclides para Ludgero em 1908

 

História / Exclusivo
O filho desconhecido
de Euclides da Cunha

O autor de Os Sertões, clássico brasileiro
que completa 100 anos, salvou um menino
de seis anos da Guerra de Canudos, levou-o
para São Paulo e o entregou a um amigo

Fernando Granato

 
Flavio de Barros
A cena da rendição de 300 sertanejos foi descrita em Os Sertões como "comovedora". Entre eles estaria o "jaguncinho" de seis anos
Muito já se falou sobre Euclides da Cunha, autor do maior clássico da literatura brasileira, Os Sertões, lançado há 100 anos, em 2 de dezembro de 1902. O que poucos sabem é que o escritor, enviado à Bahia pelo jornal O Estado de S. Paulo para cobrir a Guerra de Canudos, trouxe do Sertão um menino de seis anos. Ludgero, filho de jagunços, ficara órfão nos combates entre seguidores de Antônio Conselheiro e tropas da República. Uma carta de Euclides para o menino, 11 anos após o conflito, comprova o fato. A correspondência, que está no acervo do Centro de Estudos Baianos da Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi resgatada pelo historiador José Calasans. Escrita um ano antes de sua morte, a carta revela que Euclides confiou a criança a um amigo, o educador Gabriel Prestes, que não tinha filhos e sonhava ser pai.

“(...) Na tua carta vi refletir-se um espírito capaz de grande desenvolvimento. O modesto professor complementar de agora (...) há de subir mais alto”, escreveu Euclides em 7 de outubro de 1908. “Moro na rua Humaitá 61, e não preciso dizer-te que ali tens, francamente aberta, uma casa, tão hospitaleira quanto a minha rude barraca de Canudos.”

Flavio de Barros
Ficha do Colégio Caetano de Campos: Ludgero completou o magistério em 1908

Euclides chegou a Canudos em 16 de setembro de 1897. A cidade estava parcialmente destruída pelo Exército, que reprimia seguidores de Antônio Conselheiro, contrário à República. Ele acompanhou a quarta e última expedição sob o comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães. Em 2 de outubro, viu a rendição de 300 sertanejos, a maioria mulheres, crianças e velhos. A cena foi descrita em Os Sertões como “comovedora”. Entre os seres humanos de “corpos repulsivos em andrajos”, como narrou, estava o “jaguncinho” de seis anos. Euclides nada contou no livro sobre o menino, entregue a ele pelo general Arthur.

Em 3 de outubro de 1897, o escritor se retirou, doente,
do palco da guerra, dois dias antes do fim do conflito. Não viu o massacre dos prisioneiros, a queda da cidade e a descoberta do cadáver do Conselheiro. Ele e o “jaguncinho” já chacoalhavam num trem para São Paulo. Euclides
escreveu boa parte de Os Sertões em São José do Rio
Pardo (SP), onde morou de 1898 a 1901. Pela carta,
perdera contato com o “jaguncinho”.

Ludgero Prestes, nascido em 1890, foi educado no Colégio Caetano de Campos, em São Paulo, onde Gabriel Prestes era diretor-fundador. Pelo documento obtido por Gente nos arquivos do colégio, ele formou-se em magistério em 1908. Euclides lançou Os Sertões seis anos antes. Pagou pela edição 1.500 contos, mais do que o salário de engenheiro. Metade da primeira edição foi vendida em oito dias. A tiragem, 2.000 exemplares, esgotou-se em dois meses.

Nem o sucesso, porém, o livrou do desemprego. Já na Academia Brasileira de Letras, o escritor perdeu o emprego de engenheiro durante uma crise do café. Convidado pelo Itamaraty, integrou comissão no Acre para fixar limites territoriais entre Brasil e Peru. Uma recaída de tuberculose o levou de volta ao Rio. Foi quando desconfiou que a mulher o traía. Euclides foi morto em 15 de agosto de 1909 pelo amante da esposa, o cadete Dilermando de Assis. O paradeiro de Ludgero Prestes é desconhecido. Sabe-se
que seguiu carreira de magistério em São Paulo. Destino inusitado para um filho de jagunços que resistiu contra a República no sertão da Bahia
.

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