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11/11/2002

   
 
Fotos: Leandro Pimentel
 

 

Cinema / Rodrigo Pimentel
Voz do ônibus 174
Com pós-graduação em Sociologia, o ex-policial militar que acompanhou o seqüestro do
ônibus 174 participou da realização do
premiado documentário sobre o episódio.
E agora quer fazer filme sobre polícia do Rio

Vivianne Cohen

 
Fotos: Leandro Pimentel
Pimentel na esquina onde ocorreu a
tragédia, no Rio. A linha 174 mudou
para 158. “Arriscava a minha vida, perdi
amigos e a violência não diminuiu”, diz ele

A tragédia do ônibus 174 foi acompanhada de longe pelo capitão Rodrigo Pimentel, 31 anos. Em junho de 2000, no Jardim Botânico, zona sul do Rio, quase cinco horas de agonia dos passageiros do ônibus resultaram na morte de Geísa Gonçalves, uma das reféns tomadas por Sandro do Nascimento, também morto na operação. Integrante do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE) – grupo responsável por acompanhar o seqüestro –, ele assistia a tudo pela televisão no Gabinete do Comando Geral da PM e foi consultado sobre a possibilidade de ser dado um tiro para matar o assaltante. A favor do disparo, Pimentel até se colocou à disposição para efetuá-lo. “A vida das reféns corria risco. Tecnicamente falando, e não emocionalmente, a polícia tinha que ter matado o Sandro com um tiro na cabeça no início”, afirma. Insatisfeito com o desfecho, o capitão, que tornara-se um feroz crítico da polícia pelos jornais, uma vez mais não se manteve calado. Participou de uma reportagem no Fantástico, da Globo, e por isso ficou preso por 20 dias. Seria a primeira de quatro prisões por emitir suas opiniões publicamente.

Somente agora, dois anos após o episódio, sua voz pôde ganhar eco. Ao ler no jornal sobre a produção de um documentário sobre o seqüestro do ônibus, ligou para o cineasta João Moreira Salles – de quem ficou amigo após a participação num documentário no qual criticava a ação da polícia na luta contra o tráfico – e pediu que ele o apresentasse a José Padilha, diretor do filme Ônibus 174. “O Zé chegou a me oferecer salário para ajudar no filme, mas não aceitei. Minha vontade de contar o que aconteceu era maior do que tudo”, diz ele, que se tornou co-produtor do filme. “A atuação dele foi fundamental. Acho que foi incompreendido pela polícia. Era uma figura importante lá”, diz José Padilha. Pimentel passou cinco finais de semana pesquisando as melhores imagens nos arquivos da Globo e opinou sobre tudo. “Não tenho medo de dizer o que penso. A polícia está falida, algo tem que mudar.” Ônibus 174 está em cartaz no Rio e levou prêmio de melhor documentário da 26ª Mostra BR de Cinema (leia resenha à pág. 69).

Ao lutar por sua liberdade de expressão, Pimentel viveu
uma via-crúcis, iniciada numa palestra numa universidade no Rio. Ele falava mal da política de segurança do então governador Anthony Garotinho e travou um embate com Clarissa Matheus, que assistia à palestra e defendeu o pai. “Depois disso, a minha carreira virou um inferno”, lembra.
Foi transferido para Itaperuna, interior do Estado, e ficou longe da mulher, Rosele, 32, e do filho Eduardo, 2. Respondendo a vários inquéritos policiais por denunciar
as más condições e a corrupção na instituição, Pimentel decidiu pedir demissão da polícia há um ano, após 12 de serviço. O ex-capitão diz ter sido perseguido. “Meu telefone e os dos meus amigos foram grampeados e fui seguido na rua”, conta. Era o fim de um sonho de menino, alimentado quando assistia aos seriados policiais.

Considerado um dos melhores policiais do Estado e pós-graduado em Sociologia Urbana, Pimentel já tem em mente outro projeto para cinema: um documentário sobre a polícia do Rio. Mesmo afastado, o ex-capitão, que passou quatro anos circulando diariamente em favelas para combater o narcotráfico, não deixa as críticas de lado. “Não adianta
subir em favelas. Arriscava a minha vida, perdi amigos e a violência não diminuiu”, diz ele, que viu sete companheiros de equipe morrer e chegou a assumir a autoria de dois homicídios. Hoje, Pimentel se dedica à sua empresa de consultoria de segurança particular e pretende continuar a se fazer ouvir com sua nova arma: o cinema.

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