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11/11/2002

   
 
André Durão
Ele nasceu em Buenos Aires e serviu o Exército com Diego Maradona: “Juramos a bandeira argentina lado a lado”, conta Pedro

 

Família / Pedro Drummond
Um Neto no meio do caminho
Caçula dos três netos de Carlos Drummond
de Andrade, o cenógrafo deixou de criar
abelhas quando recebeu a missão do avô,
que teria completado 100 anos quinta-feira 31, de cuidar de sua obra

Luís Edmundo Araújo

 

Na manhã da segunda-feira 4, um homem de 42 anos posava para fotos ao lado da recém-inaugurada estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, no Rio. O clima era de descontração e, entre as brincadeiras, ele fazia o tradicional chifre com os dedos indicador e médio por trás da cabeça do poeta. O fato chegou a causar protestos velados de quem viu a cena, mas ninguém que passava pelo calçadão da Avenida Atlântica sabia que o brincalhão em questão, o cenógrafo Pedro Drummond, tinha todo o direito de fazer aquilo, até para manter viva a irreverência de um Drummond que poucos conheciam. Caçula dos três netos do poeta – que, se fosse vivo, teria completado 100 anos em 31 de outubro – Pedro recebeu do avô, 12 dias antes de sua morte, a função de cuidar da sua obra.

A conversa entre avô e neto aconteceu após o enterro de Maria Julieta, única filha de Drummond, no dia 5 de agosto de 1987. “O Carlos me disse que teria de cuidar da sua obra e, caso tivesse dúvidas sobre o que fazer, me deixou os telefones de amigos dele, como Plínio Doyle, Fernando
Sabino e Alfredo Machado (dono da editora Record, já falecido)”, lembra Pedro, que cultivava o hábito familiar
de chamar o avô pelo nome. Largou então o sítio onde morava e criava abelhas, em Secretário, região serrana
do Rio, para assumir a nova função.

Filho do poeta argentino Manuel Graña Etcheverry, Pedro nasceu em Buenos Aires e veio morar no Brasil em 1980.
Um ano antes, serviu o Exército argentino no quartel de
La Tablada, junto com Diego Maradona, que já jogava pelo Argentinos Juniors. “O comandante era sócio do time
e sempre liberava o Maradona. Ele foi ao quartel umas
três vezes, mas juramos a bandeira argentina lado a
lado”, conta o cenógrafo.

A relação com o avô se estreitou a partir de 1986, quando Drummond sofreu um infarto no dia das eleições e o neto passou a morar com a família, em Copacabana. A pedido da mãe, seguia o poeta escondido pelas ruas e ligava para a médica quando achava que o avô estivesse passando mal. Tudo porque Drummond fazia o possível para não incomodar ninguém. “Pedia para a médica ligar para ele, e só então o Carlos dizia o que estava sentindo”, diz.

Para o centenário do avô, Pedro não se limitou a cuidar de seu legado. Em parceria com o professor de teatro João Brandão, homônimo do personagem de Drummond, escreveu o roteiro, fez o cenário e até figurações na peça Caminhos de João Brandão, em cartaz no Rio. “Gosto de encontrar novas formas de difundir a obra do Carlos”, afirma o cenógrafo,
que já alugou um balão onde foram escritos versos do poema “Amar” e pensa em mostrar o famoso “Havia Uma Pedra
no Meio do Caminho” na pedra do Pão de Açúcar. Idéias aprovadas por Sérgio Machado, filho de Alfredo e herdeiro
da Record, responsável pela obra de Drummond. “O Pedro tem sido feliz na luta para aumentar ainda mais a amplitude da obra do avô”, diz.

Outro que provavelmente aprovaria tudo isso seria o
próprio poeta, que tinha humor até para brincar com a própria dentadura. “Quando uma criança andando com a
mãe na rua olhava para o Carlos, ele botava a dentadura para fora. Então a criança chamava a mãe e, quando ela
se virava, a dentadura já estava no lugar, e a criança
levava uma bronca, para ‘deixar o velhinho em paz’”,
conta Pedro, que talvez por essas e outras histórias,
não hesitou em brincar com sua estátua. Certamente, Drummond não se incomodaria.

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