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14/10/2002

   

Superação/Nega Gizza
Salvação pelo rap
Apadrinhada de MV Bill e parceira de Kátia Lund, co-diretora
de Cidade de Deus, a rapper lança seu primeiro CD, viu o irmão
traficante ser assassinado e diz ter sido salva pela música

Marlos Mendes

Leandro Pimentel
“Hoje, vejo que mais do que falar sobre uma realidade dura é preciso fazer algo para transformá-la”, diz Nega Gizza, que trabalha numa ONG que reúne 326 favelas do Rio

Gisele Gomes de Souza, 25 anos, conhecida no mundo do rap como Nega Gizza, mora desde os 10 anos na mesma rua da favela Parque Esperança, na Baixada Fluminense, mas nem sempre se sente à vontade por ali. A poucos metros da casa onde vive com a família, seu irmão Márcio, traficante de drogas, foi morto há quatro anos num confronto com a polícia. “Sempre evito passar pelo local. Para mim é como se tivesse sido ontem. Às vezes, penso que lutei e não venci em tentar mostrar a ele outro caminho”, desabafa. A história de Márcio é contada em “Neném”, uma das faixas de Na Humildade, CD de estréia de Nega Gizza, que traz parcerias dela com seu irmão adotivo, o polêmico MV Bill. “Ele sempre dá um toque nas coisas que faço. O Bill me ensinou muita coisa.”

A relação com o rapper que conquistou status de porta-voz da Cidade de Deus aconteceu por intermédio de Neném, que foi aliado dos traficantes da favela. “Quando meu irmão morreu, o Bill se sentiu responsável por mim e me acolheu como irmã de coração”, explica a cantora, que busca conforto entre os amigos da Cidade de Deus sempre que as lembranças a incomodam. “É raro você encontrar alguém que passou por tudo que ela passou e ainda acredita que pode vencer”, diz MV Bill. O rapper acreditou no talento de Gizza e abriu espaço para ela cantar em seus shows Brasil afora.

Envolvida com a gravação do CD, ela não assistiu ao filme de Fernando Meirelles e Katia Lund sobre a favela e evita comentá-lo. “Se a comunidade está envolvida no assunto, ela tem que gostar do que é mostrado. E o Bill já demonstrou que as pessoas não estão satisfeitas na CDD (Cidade de Deus). É melhor não falar muito desse bagulho porque a Katia é minha parceira”, esquiva-se. A parceria já rendeu frutos e promete ainda mais. Katia Lund dirigiu Prostituta, o primeiro clipe da rapper, indicado ao Video Music Brasil deste ano. Elas dividem ainda a direção de um documentário sobre rappers do Brasil, Estados Unidos e Cuba, que deve acabar de ser rodado em 2003.

“A polícia vinha
e quebrava tudo, a
gente ficava entocado
no mato e armava o barraco de novo’’

Nega Gizza, que aos 10 anos participou da invasão onde surgiu a favela Parque Esperança, no Rio

Nada mal para quem começou a batalhar aos 7 anos, vendendo cerveja e refrigerante nas ruas, e aos 10 participou com a mãe e os três irmãos da invasão do terreno onde hoje é o Parque Esperança. “Tínhamos que fazer um barraco e dormir nele para mostrar que precisávamos do terreno. A polícia vinha e quebrava tudo, a gente ficava entocado no mato e armava o barraco de novo”, lembra a cantora. De posse do terreno, o barraco deu lugar a uma construção de um cômodo em alvenaria, para onde a família se mudou no réveillon de 1991, debaixo de chuva. “O caminhão não conseguiu subir porque era tudo barro,
a gente teve que arrumar um carrinho para trazer a mudança
e continuar a construir a casa já morando nela.”

Nas ruas de barro do Parque Esperança, a adolescente que escrevia versos em tom de protesto e cantava músicas românticas entrou em contato com o rap pelos alto-falantes da rádio comunitária e levou um baque: “Eram as coisas que eu pensava e escrevia. Não imaginava que havia um tipo de música que falasse sobre a realidade como o rap”. Ela tomou coragem e foi bater na porta da rádio, onde além de tocar discos, lia e comentava os jornais.

Atualmente, ela apresenta um programa na Viva Rio AM e na Roquete Pinto FM. “O rap me salvou. Hoje vejo que mais do que falar sobre uma realidade dura é preciso fazer algo para transformá-la.” Por conta disso, ela trabalha como tesoureira da Central Única de Favelas (Cufa), uma ONG que reúne representantes de 326 favelas do Rio. Grávida de sete meses de Odilon da Silva, o MC Bien, Nega Gizza batalha em várias frentes para que seu filho e outras crianças das áreas pobres das grandes metrópoles não tenham o mesmo destino de seu irmão.

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