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Reportagens

30/09/2002

   
 
O dia-a-dia de Rodrigo Rodrigo faz movimentos repetidos ao brincar com objetos como as letrinhas (abaixo). Sem razão aparente, fica irritadiço. A babá tenta ajudá-lo mas ele passa a morder as próprias mãos
Edu Lopes
Edu Lopes
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Especial
Trancados no próprio mundo
Investigado pelo Ministério Público, um episódio de maus tratos numa escola especial em Ribeirão Preto chama a atenção para o drama dos autistas, vítimas do desconhecimento médico e da negligência do Estado

Fábio Farah

 

Edu Lopes
Carinho para tratar Márcia, måe de Rodrigo, 9 anos, espirrou extrato de boldo na boca do filho para conter sua agressividade, a conselho da Associação dos Amigos do Autista (AMA) de Ribeirão Preto: "Isso só prejudicou meu filho"

Rodrigo Francisco Órbes é um menino de nove anos que gosta de correr em gramados amplos. Quem o vê de relance não o distingue de outras crianças da sua idade. Mas Rodrigo é diferente. Ele é autista. Vive trancado em seu próprio mundo. Não fala, vez por outra anda de um lado para o outro e faz movimentos intermitentes com as mãos. Quando escuta a frase "dá um beijo na mamãe", Rodrigo não pula de imediato no pescoço da professora universitária Márcia de Lourdes Francisco, como filhos pequenos costumam reagir a esse pedido. Depois de a mãe sinalizar várias vezes a mão nos lábios e em seguida na face, ele encosta seus lábios no rosto dela. O gesto de Rodrigo pode não ser exatamente um beijo, mas sela a troca de carinho entre mãe e filho. E o sorriso maternal é a prova disso.

Diferente de Rodrigo, Luana Felício, 14, comunica-se por repetição. Seu pai, o engenheiro Donato de Felício, 43, chama a filha para o quintal de casa, em Ribeirão Preto (SP): "Luana, faz carinho no passarinho", o pai diz. A filha, alfabetizada pela mãe, toca a gaiola e repete: "Luana faz carinho no passarinho".

Luana também é portadora do estado mental definido em 1943 por Lao Kanner como distúrbio de desenvolvimento - permanente e incapacitante - e que atinge, na estimativa mais conservadora, cerca de 65 mil pessoas no Brasil. Numa recente reportagem de capa, a revista Time diz que, nos últimos anos, os casos de autismo têm se intensificado e alcançam hoje mais de um milhão de americanos.

Tanto Rodrigo quanto Luana freqüentavam a Associação de Amigos do Autista (AMA) de Ribeirão Preto. Lá aprendiam a reagir a estímulos a partir de terapia comportamental aliada ao método por associação de imagem Teacch - Treatment and Education for Autistic and Related Communication Handicapped Children -, o mais indicado internacionalmente para autismo. Há um mês, contudo, a mãe de Luana, Rosa Maria de Miguel, formalizou denúncia ao Ministério Público de que a entidade responsável pelo atendimento de 45 autistas maltratava os alunos.

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