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23/09/2002

   
 
Leandro Pimentel
Na véspera do aniversário, Dona Canô em ação na tradicional cerimônia do corte do quiabo, fatiado para preparar o caruru do dia seguinte: “Virei atração turística”, diz ela, que recebe visitas de curiosos só pela manhã
Leandro Pimentel
Na cozinha de casa, onde costuma fiscalizar
o almoço
Leandro Pimentel
Com Bethânia, que liga várias vezes por dia: “Fui a última a sair de perto dela”, diz a cantora
Leandro Pimentel
Caetano e o filho Tom, de 6 anos, no almoço da família

 

Aniversário
A festa dos Velloso
Caetano, Maria Bethânia e os outros seis filhos de Dona Canô comemoram com missa e festa para 300 pessoas, na Bahia, os 95 anos da matriarca da família

Luís Edmundo Araújo, de Santo Amaro da Purificação (BA)

 

Leandro Pimentel

“Se viver é viajar, a viagem de minha família foi numa canoa. A aparência da embarcação pode ser frágil, mas na verdade ela é de uma força fora do comum, e foi nela que meu pai escolheu levar os filhos em segurança.” Mais do que um trocadilho com o nome da mãe, o texto lido pela escritora Mabel Velloso na missa dos 95 anos de Dona Canô dá uma mostra do que a dona-de-casa Claudionor Vianna Teles Velloso representa para a família mais conhecida de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. A mais famosa entre os 60 mil moradores da cidade, desde que os filhos Caetano Veloso, 60, e Maria Bethânia, 56, projetaram o nome da família como ídolos da MPB, a matriarca de 8 filhos, 9 netos e 3 bisnetos dispensa o rótulo de celebridade para impor respeito dando um show de sabedoria na arte de levar a vida. “A vantagem da idade é saber viver, porque se a gente ficar se martirizando não vive bem”, afirma.

E foi com a simplicidade de sempre que Dona Canô assumiu as rédeas da família formada com o marido, o telegrafista José Teles Velloso, o Zeca, morto em 1983, com quem se casou aos 23 anos. A primeira providência foi manter viva nos filhos a lembrança do pai, que não se limita à foto em uma das paredes da casa. Desde a morte de Zeca, Dona Canô nunca mais fez qualquer refeição sentada na cabeceira da mesa, antes dividida com o marido. “A presença de meu pai ainda é muito forte na casa. A impressão é que ele também está em minha mãe”, diz Mabel, buscando uma explicação para o poder de aglutinação da mulher que até hoje mantém a família unida em torno dela.

Com a tranqüilidade típica de quem nunca foi “muito revoltada com a vida”, a mãe de Caetano e Bethânia dá sua receita para se manter lúcida. “A raiva estressa o organismo. As pessoas devem levar as coisas sem se aborrecer, fazendo de conta que não ouvem, não vêem”, ensina a matriarca. Ela mora apenas com Nicinha, a filha mais velha, mas não passa um dia sem falar com os filhos. De todos, só Caetano não faz ligações diárias para Santo Amaro. “Caetano é imprevisível. Ele acorda tarde e, por causa do trabalho, tem pouco tempo para conversar”, justifica, referindo-se ao único filho que não carrega os dois eles no sobrenome. “O cartório registrou assim, mas ele não deixou de ser Velloso”, afirma a mãe do compositor.

No que depender dos outros filhos, no entanto, nunca vai faltar telefonema para Dona Canô atender, inclusive de Bethânia, a mais apegada das filhas. “São duas ligações por dia, no mínimo”, entrega a mãe, exibindo o riso farto, uma de suas marcas. A cantora confirma. “Fui a última a sair de perto dela, pra estudar em Salvador quando tinha 17 anos, e até hoje falo com ela três, cinco vezes por dia, quantas for preciso.”

Fotos: Leandro Pimentel Fotos: Leandro Pimentel
Entre Caetano e Maria Bethânia (à dir) na missa pelo aniversário na segunda-feira 16 e dançando no pátio de casa (à esq): “A vantagem da idade é saber viver, porque se a gente ficar se martirizando não vive bem”, afirma

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