|

“Se
viver é viajar, a viagem de minha família foi numa
canoa. A aparência da embarcação pode ser frágil,
mas na verdade ela é de uma força fora do comum, e
foi nela que meu pai escolheu levar os filhos em segurança.”
Mais do que um trocadilho com o nome da mãe, o texto lido
pela escritora Mabel Velloso na missa dos 95 anos de Dona Canô
dá uma mostra do que a dona-de-casa Claudionor Vianna Teles
Velloso representa para a família mais conhecida de Santo
Amaro da Purificação, na Bahia. A mais famosa entre
os 60 mil moradores da cidade, desde que os filhos Caetano Veloso,
60, e Maria Bethânia, 56, projetaram o nome da família
como ídolos da MPB, a matriarca de 8 filhos, 9 netos e 3
bisnetos dispensa o rótulo de celebridade para impor respeito
dando um show de sabedoria na arte de levar a vida. “A vantagem
da idade é saber viver, porque se a gente ficar se martirizando
não vive bem”, afirma.
E
foi com a simplicidade de sempre que Dona Canô assumiu as
rédeas da família formada com o marido, o telegrafista
José Teles Velloso, o Zeca, morto em 1983, com quem se casou
aos 23 anos. A primeira providência foi manter viva nos filhos
a lembrança do pai, que não se limita à foto
em uma das paredes da casa. Desde a morte de Zeca, Dona Canô
nunca mais fez qualquer refeição sentada na cabeceira
da mesa, antes dividida com o marido. “A presença de
meu pai ainda é muito forte na casa. A impressão é
que ele também está em minha mãe”, diz
Mabel, buscando uma explicação para o poder de aglutinação
da mulher que até hoje mantém a família unida
em torno dela.
Com
a tranqüilidade típica de quem nunca foi “muito
revoltada com a vida”, a mãe de Caetano e Bethânia
dá sua receita para se manter lúcida. “A raiva
estressa o organismo. As pessoas devem levar as coisas sem se aborrecer,
fazendo de conta que não ouvem, não vêem”,
ensina a matriarca. Ela mora apenas com Nicinha, a filha mais velha,
mas não passa um dia sem falar com os filhos. De todos, só
Caetano não faz ligações diárias para
Santo Amaro. “Caetano é imprevisível. Ele acorda
tarde e, por causa do trabalho, tem pouco tempo para conversar”,
justifica, referindo-se ao único filho que não carrega
os dois eles no sobrenome. “O cartório registrou assim,
mas ele não deixou de ser Velloso”, afirma a mãe
do compositor.
No
que depender dos outros filhos, no entanto, nunca vai faltar telefonema
para Dona Canô atender, inclusive de Bethânia, a mais
apegada das filhas. “São duas ligações
por dia, no mínimo”, entrega a mãe, exibindo
o riso farto, uma de suas marcas. A cantora confirma. “Fui
a última a sair de perto dela, pra estudar em Salvador quando
tinha 17 anos, e até hoje falo com ela três, cinco
vezes por dia, quantas for preciso.”
 |
 |
| Entre
Caetano e Maria Bethânia (à dir) na missa pelo
aniversário na segunda-feira 16 e dançando no pátio de
casa (à esq): “A vantagem da idade é saber viver,
porque se a gente ficar se martirizando não vive bem”, afirma |
Próxima
>
|