|
Até
a adolescência, o ator Carlos Loffler, 42, só queria
saber de cantar numa banda de rock com os amigos e não fazia
a menor idéia da importância de seu avô - morto
quando ele tinha 10 anos - para a história do cinema e do
teatro no Brasil. Até que Loffler assistiu a O Homem do
Sputnik, um dos clássicos da chanchada brasileira, e
descobriu que, por trás do senhor tímido que prezava
o convívio com a família e se atrapalhava para contar
uma simples piada, estava um dos maiores comediantes do País.
Único dos cinco netos de Oscarito a seguir a carreira artística,
Carlos se prepara para reviver o avô na peça Theatro
Musical Brazileiro 3, com estréia marcada para setembro,
no Rio. Será a oportunidade para finalmente atuar com algumas
das perucas que herdou, verdadeiras relíquias usadas por
Oscarito para compor seus personagens na década de 50.
Apesar
de já ter homenageado o avô num espetáculo que
correu o circuito alternativo carioca, em 1990, o ator encenará
pela primeira vez esquetes idênticas às dos filmes
da Atlântida e do Teatro de Revista. Ele encarnará
os mesmos personagens de Oscarito. "Uma hora isso tinha de
acontecer, e vai ser agora", diz Loffler, sem esconder uma
ponta de nervosismo diante da responsabilidade. Preparação,
no entanto, é que não vai faltar para que o neto faça
jus à memória do comediante espanhol, que fez carreira
no Brasil. "Venho estudando os filmes dele desde que comecei
a atuar."
A
opção pelo teatro, aliás, foi conseqüência
de uma característica que Loffler herdou do avô. Tímido
como Oscarito, ele seguiu o conselho da amiga Louise Cardoso e procurou
as aulas de teatro para ficar mais à vontade no palco. "Entrei
com a intenção de melhorar como cantor, mas acabei
ficando", lembra o ator, que estreou em 1983, com o grupo de
teatro infantil Além da Lua.
A
predominância de papéis cômicos acentuou as semelhanças
com Oscarito, a ponto de emocionar antigos colegas do comediante.
Como em 1989, quando Loffler interpretou Babalu, um ardoroso fã
das cantoras do rádio, no musical Splish Splash. No
fim de uma das sessões, recebeu os cumprimentos de Grande
Otelo, o maior parceiro de Oscarito. "Ele ficou muito emocionado,
me disse que lembrou muito do meu avô", conta. Atriz
de filmes da Atlândida, Eva Todor é outra a ressaltar
a semelhança entre os dois. "O Loffler é um ator
cômico nato. Não quer dizer que não faça
outras coisas, mas é emocionante como ele lembra o Oscarito",
diz.
Na
carreira de Carlos Loffler destacam-se filmes como Os Trapalhões
e a Árvore da Juventude, Feliz Ano Velho e o papel
de Veludo da segunda versão de Navalha na Carne, sua
maior atuação no cinema. Na tevê, viveu o Seu
Babau na Escolinha do Professor Raimundo. Mesmo fazendo tipos
distantes do perfil de Oscarito, o ator não esconde a ascendência,
pelo menos para quem conhece de perto os homens da família.
"Tem vezes que minha avó (a atriz Margot Louro, 86,
viúva de Oscarito) me acha igual ao meu avô. Acho que
é algum trejeito que faço inconscientemente, não
sei." Ele só lamenta não ter assistido ao Oscarito
no Teatro de Revista. "Meu avô parou sabendo que o crescimento
do humor desbocado, cheio de apelo sexual, tinha acabado com o espaço
dele." Pelo menos a partir de setembro, a comédia de
Oscarito tem espaço para voltar com força total.
|