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Reportagens

02/09/2002

   
 
Foto: Piti Reali Agradecimento: Eric Discos
Anna Muylaert estréia nos longas depois de seis curtas-metragens e da participação na criação de programas de tevê como Castelo Rá-Tim-Bum
“Dei meu sangue para fazer esse filme e preciso de muita sorte para que ele aconteça’’
Anna Muylaert
“Anna merece tudo, é a pessoa mais determinada que conheço, cinema é como se fosse sua religião’’
Marisa Orth
Os premiados
em gramado
O 30o Festival de Cinema de Gramado, realizada de 12 a 17 de agosto no Rio Grande do Sul, consagrou Durval Discos, de Anna Muylaert

LONGA-METRAGEM
BRASILEIRO – FICÇÃO
Melhor filme: Durval Discos, de Anna Muylaert
Prêmio especial do júri: Uma Onda no Ar, de Helvécio Ratton
Prêmio da crítica: Durval Discos
Prêmio do júri popular: Durval Discos
Melhor diretor: Anna Muylaert, de Durval Discos
Ator: Alexandre Moreno, de Uma Onda no Ar
Atriz: Priscila Rozenbaum, de Separações
Roteiro: Anna Muylaert, de Durval Discos
Ator coadjuvante: Emílio de Mello, de Querido Estranho
Atriz coadjuvante: Suzana Saldanha, de Separações
Fotografia: Jacob Solitrenick,
de Durval Discos
Montagem: Eduardo Escorel, de Dois Perdidos numa Noite Suja
Direção de arte: Ana Mara Abreu, de Durval Discos
Música: David Tygel, de Dois Perdidos numa Noite Suja

LONGA-METRAGEM BRASILEIRO – DOCUMENTÁRIO
Melhor filme: Edifício Master, de Eduardo Coutinho
Prêmio especial do júri: Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado

LONGA-METRAGEM LATINO
Melhor filme: La Perdición de los Hombres (México/Espanha), de Arturo Ripstein
Prêmio da crítica: O Filho da Noiva (Argentina/Espanha), de Juan José Campanella
Prêmio do júri popular: O Filho da Noiva
Diretor: Arturo Ripstein, de La Perdición de los Hombres
Ator: Alejandro Trejo, de Taxi
para Tres (Chile)
Atriz: Norma Aleandro, de O Fillho da Noiva

 

Sucesso / Anna Muylaert
Uma voz inteligente
Vencedora de sete prêmios em Gramado, a diretora de Durval Discos ajudou a criar Castelo Rá-Tim-Bum e diz que tevê demais emburrece
as crianças

Dirceu Alves Jr.

 
Divulgação
Marisa Orth e Ary França no filme, que mostra a decadência de uma loja de discos

Vai longe o tempo em que a paulistana Anna Muylaert, 38 anos, queria ir ao programa Boa Noite, Cinderela, apresentado por Silvio Santos na década de 70, realizar um sonho. Ao contrário da maioria das garotas, ela não desejava pedir ao apresentador a boneca da moda. Anna queria era uma filmadora para registrar suas brincadeiras e passeios pelo bairro de Pinheiros, onde nasceu e cresceu. “Não sei muito bem o motivo, mas desde pequena penso em fazer cinema. Se eu conseguir me firmar como cineasta, um dia, já está bom”, diz ela. Sua antiga ambição agora é realidade. Aplaudida no Festival de Gramado pelo filme Durval Discos, Anna venceu sete dos 14 Kikitos oferecidos a longas-metragens de ficção, incluindo melhor filme e direção, e é a representante brasileira no Festival de Montreal, que começou na quinta-feira 22.

Com estréia prevista para 11 de outubro, o filme é o primeiro longa de Anna Muylaert e mostra a decadência de uma loja de vinis, administrada por um sujeito quarentão, que reluta em vender CDs. Protagonizado por Ary França, Etty Fraser e Letícia Sabatella, Durval Discos é um misto de comédia e tragédia. Mergulha na memória afetiva de todos que ainda são fascinados pelas bolachas pretas que giravam sem parar nas vitrolas até meados dos anos 80. “Guardo uns 300 vinis em casa. Com CD, tenho um problema sério. Não consigo ter amor. Meus filhos jogam no chão, arranham”, conta ela, mãe de José, sete anos, do casamento com o músico André Abujamra, e Joaquim, de dois anos e meio, fruto de um namoro com o pintor Márcio Antonon.

A inspiração do roteiro veio com o fechamento da Edgar Discos, loja de vinis de São Paulo, que entregou os pontos em 1996. O Durval do título é apenas uma homenagem a seu avô paterno, o engenheiro Durval Martins Muylaert, morto há 22 anos, com quem a neta sempre teve uma relação forte. “Quando iniciei o projeto, pensei: ele vai me dar sorte, vai ajudar, é um grande relações públicas celestiais”, brinca Anna. “Nos Estados Unidos, existe todo um mercado de produção. No Brasil, preciso apelar para um avô que morreu, para Buda e ainda confesso isso. Dei meu sangue para fazer esse filme e preciso de sorte para que ele aconteça”, diz. Marisa Orth, colega dos tempos de colégio, está orgulhosa com o sucesso daquela que define como sua maior amiga. “Anna merece tudo, é a pessoa mais determinada que conheço, cinema é como se fosse sua religião”, define a atriz, que participa de Durval Discos.

O elenco atesta essa entrega. Ary França, o Durval do título, rendeu-se a Anna. “Quando recebi o convite de uma agente para o teste, não entendi nada, nem o sobrenome da diretora. Achei que fosse a Ana Carolina. Cheguei lá e vi em Anna uma delicadeza profunda, que pauta toda a vida dela”, diz o ator. Etty Fraser, intérprete da mãe do protagonista, reafirma a dedicação da diretora, com quem ensaiou por mais de mês antes de filmar. “Fui com a cara da Anna na hora. Um dia, ela me convidou para um curta-metragem, A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcanti, e prometeu que quando pudesse me daria um grande personagem. E veio esse filme, que me trouxe de volta ao cinema depois de 25 anos”, festeja.

Mas foi só depois de desistir de fazer cinema que Anna Muylaert aprendeu como se faz um filme. Fã de Glauber Rocha, Jean-Luc Godard e Wim Wenders e daquelas que achavam televisão o fim do mundo, cursou a Escola de Comunicação e Artes da USP de 1980 a 1984. “Na mesma época, eu fazia Psicologia e aproveitava meus turnos livres para participar dos trabalhos da turma dela”, conta Marisa Orth. Com duas disciplinas pendentes, Anna abandonou a faculdade, pessimista com o futuro. Escreveu críticas para IstoÉ e O Estado de S. Paulo e migrou para a tevê. Em 1988, integrou a equipe do TV Mix, programa da Gazeta. Um ano mais tarde, como editora e repórter do Matéria-Prima, apresentado por Serginho Groisman, na TV Cultura, buscava uma linguagem diferenciada nas matérias para cativar a garotada. “Essa paixão da Anna pelo cinema sempre ficou muito clara. Ela é múltipla e procurava o surpreendente, uma unidade de fotografia, um ritmo diferente”, diz Groisman. Do Matéria-Prima, Anna saltou para a equipe de roteiro e direção da série infantil Mundo da Lua e viu que a estudante da ECA estava bem equivocada. Cinema é muito mais do que imagem. É texto consistente, dramaturgia. “Passei a devorar livros de Aristófanes e Syd Field e vi que aquilo que estava entendendo era o que o público entendia”, reconhece a diretora, que ainda participou da criação e roteirização do programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum e lançou três livros inspirados no seriado.

Hoje, Anna sabe que, no passado, tinha muita pretensão e pouca bagagem. Durval Discos chega após seis curtas e alguns videoclipes como resultado de um amadurecimento também pessoal. Diz que é outra mulher depois da maternidade, sem se preocupar com o clichê, e fala dos filhos com os olhos brilhando. José até levou o Kikito para mostrar na escola. Joaquim não dá tanta bola para tevê quanto o irmão mais velho. “Tento despertar a atenção deles para outras coisas também. Criança que vê tevê demais emburrece.” Projetos existem, antes, porém, precisa lançar Durval Discos e voltar a ganhar dinheiro, o que não acontece desde fevereiro. “Mas o maior prêmio seria fazer um outro filme”, torce, de dedos cruzados.

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