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Entrevista

02/09/2002

   
Piti Reali
"O É o Tchan vendeu 2 milhões, mas isso nunca mais vai se repetir. Enquanto isso, o Roberto Carlos, aos 60 anos de idade, vendeu 1 milhão e meio"
 
 
CONTINUAÇÃO
Houve falta de visão de longo prazo quando as gravadoras investiram no axé e deixaram a MPB de lado?
Como você explica os Racionais, que vendem 1 milhão sem gravadora e sem investir em marketing?
• Como você vê a ameaça da internet?

 

José Antonio Eboli
"Acabou a época de vender
1 milhão de CDs"
continuação
 


Mas a Sony lançou o Rouge, grupo criado para ser vendido no mercado.
O Rouge também é uma situação que a indústria trabalha. É um grupo de marketing? É. Mas o público consome? Consome também. Claro, o artista que vai ficar é o que tem aquela coisa que vem com o público.

Como você explica os Racionais, que vendem 1 milhão sem gravadora e sem investir em marketing?
É um fenômeno. A gente tem de reconhecer que existe. É uma coisa verdadeira. Todas as gravadoras já quiseram contratá-los e eles não querem. Acontece. Eles chegaram a assinar com a Sony para a distribuição, mas desistiram. Não precisam dividir o bolo com a gente.

Já se acostumou com a idéia de vender menos?
Totalmente. Posso te dizer que acabou a época de vender 1 milhão de CDs. Hoje não espero isso de ninguém. Parece uma maldição, mas o artista que vende muito logo de cara, vira fenômeno, não se mantém. O ideal é quando ele vai crescendo pouco a pouco, e chega em um patamar bom. Roberto Carlos, por exemplo, é um artista que já vendeu mais de 60 milhões de cópias e nunca foi o número um. O É o Tchan vendeu 2 milhões, naquele momento, mas isso nunca mais vai se repetir. Enquanto isso, o Roberto, no ano passado, aos 60 anos de idade vendeu 1 milhão e meio.

As gravadoras divulgam como cópias vendidas o número de CDs enviados para as lojas, mas não efetivamente vendidos. Essa prática não é enganosa?
Você tem toda a razão. A gente tem sido muito questionado ultimamente sobre isso, e acho que as companhias exageraram nesse marketing. A indústria usou e abusou desse expediente. Agora a gente sente que tem de ser mais cauteloso nesse aspecto. Já vi o Zezé Di Camargo esclarecer isso para o público em programas de tevê. Só nos Estados Unidos, que têm o sistema Sound Scan, que computa os discos no caixa das lojas, é possível dizer com certeza o número de discos vendidos.

Seria viável usar o sistema americano no Brasil?
Seria viável, mas esse sistema depende da informatização das lojas. Posso dizer que essa é uma das grandes vergonhas que a gente tem como indústria. Falta vontade. Hoje sei que, se a gente for discutir isso dentro da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos), vai se chegar à conclusão de que no momento temos outras prioridades, como a pirataria. Mas na época áurea, de 1995 a 1998, por que não foi feito? Poderia ter sido feito. É uma vergonha.

E quanto à numeração pedida por artistas como o Lobão?
Nós não somos contra a numeração, desde que seja feita de uma maneira viável. Vamos defender que se faça isso por lotes. Para numerar um a um praticamente teria de se rever todo o sistema de produção.

O CD chega a custar R$ 25 nas lojas, enquanto o pirata custa R$ 5. Por que a indústria não baixa o preço?
Porque a gente já está operando com a margem mais baixa possível. O custo do CD é o mais barato, cerca de R$ 1,50. Mas um disco como o do Djavan tem um custo de gravação de R$ 300 mil, além de R$ 500 mil a R$ 1 milhão de gastos em marketing. Há ainda os royalties do artista, que ficam entre 15% a 20%, além do royalty autoral, que é de 10%.

Sabe-se que boa parte da verba de marketing vai para a indústria do jabá (pagar para o artista tocar). Por que não diminuir esse gasto?
É óbvio que, com as receitas das gravadoras secando, elas estão tratando de reduzir seus gastos. Não vou dizer que o jabá não existe, eu estaria sendo hipócrita, mas diria que cada vez mais está virando coisa do passado.

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