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Entrevista

02/09/2002

   
Pitti Reali
Eboli: “Meu filho tem 19 anos e está descobrindo Djavan. Isso é muito bonito”
CONTINUAÇÃO

Houve falta de visão de longo prazo quando as gravadoras investiram no axé e deixaram a MPB de lado?

Como você explica os Racionais, que vendem
1 milhão sem gravadora
e sem investir em marketing?
• Como você vê a ameaça da internet?

 

José Antonio Eboli
"Acabou a época de vender
1 milhão de CDs"

Pressionado pela pirataria e pela crise, o presidente da maior gravadora do País desabafa
e diz que a indústria errou ao apostar só no axé
e abandonar a MPB

Silvia Ruiz

 

Ele não compra um disco há anos. Mas, por ironia, a maior preocupação do publicitário José Antonio Eboli é descobrir como levantar as vendas de CDs da Sony Music Brasil, gravadora que ele preside desde 1999. Dona do passe de nomes como Roberto Carlos, Djavan, Skank, KLB e Zezé Di Camargo e Luciano, a Sony foi a gravadora número um do País no ano passado em meio à pior crise econômica da história da música brasileira - de 1999 para cá, a queda nas vendas em dólar foi de desastrosos 72%. Mas apesar disso, o paulistano Eboli, 46 anos de idade e 28 de mercado musical, está otimista. O interesse dos filhos, dois rapazes de 19 e 20 anos, pela MPB é para ele um sinal de que o gênero deve ser revitalizado. Ele falou à Gente sobre o futuro da MPB.

Depois de movimentos como pagode, axé e sertanejo, não há um gênero em alta na música brasileira. Como a gravadora lida com isso?
Isso está acontecendo no mundo. Os grandes fenômenos, Michael Jackson, Beatles, Madonna, não estão acontecendo. Há uma entressafra mundial. No Brasil a gente teve a década de 60, quando surgiu a Bossa Nova, Jovem Guarda, Tropicália e MPB. Nos anos 70 teve samba, black music, regional music, com a geração de Elba Ramalho e Fagner, e Clube da Esquina. Os anos 80 foram a década do pop rock, os 90 da lambada, depois pagode, sertanejo, axé. Tudo leva a crer que nos anos 2000 vá acontecer alguma coisa.

Em que você aposta?
Na nova MPB, com novos talentos. Mas para isso as gravadoras têm de voltar a ter paciência de investir, de se contentar com vendas fracas. Como estava tudo muito fácil, todo mundo só queria discos de 500 mil cópias para cima. Temos que aprender a ganhar dinheiro vendendo 100 mil discos. Antes os artistas pediam jatinho, limusine. Isso acabou.

Houve uma falta de visão de longo prazo quando as gravadoras investiram no axé e deixaram a MPB de lado?
Infelizmente, sim. Quando se está vendendo muito, e fácil, habitua-se com os grandes números. Essa é uma indústria muito competitiva, e a competitividade às vezes leva para coisas boas e às vezes para coisas ruins. Quando você vê um artista que vende um milhão de cópias, não se importa se esse um milhão vai ser por um ano e depois vai acabar. Hoje, disco de ouro (100 mil cópias vendidas) tem de ser comemorado como se fosse disco de 1 milhão. Antes, disco de ouro era obrigação. Os anos 90 foram a época do dinheiro fácil.

O que houve com a criatividade?
Acho que há três coisas: a situação econômica do País, a pirataria, que hoje domina 60% do mercado, e uma falta de criação artística. Nossos principais ídolos da MPB estão com 60 anos de idade e ao mesmo tempo vejo um interesse do mais jovens pela música deles. Meu filho, por exemplo, tem 19 anos e está descobrindo Djavan. Isso é muito bonito. Estive no show do Gil na semana passada e só tinha garotada. A música brasileira de qualidade está sendo redescoberta. Nada contra os outros movimentos. É fácil a gente hoje malhar o axé. Mas, quando ele surgiu foi de uma maneira muito genuína e bonita, com Daniela Mercury, mas depois foi perdendo a qualidade.

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