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Política
José Serra
toma remédio para melhorar o humor
Apontado como ministro mais popular, ele
combate o temperamento ranzinza com pílulas antidepressivas e anuncia
candidatura ao governo de São Paulo
Cláudia Carneiro
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Foto:
Roberto Jayme
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Reconhecido
na política pelo seu estilo ranzinza, o ministro da Saúde,
José Serra, 57 anos, está tomando pílulas contra
o mau humor - mas, se olhasse apenas para os números, talvez
não precisasse delas. Na última pesquisa de popularidade
entre os ministros do governo Fernando Henrique Cardoso, Serra foi
apontado como o melhor por 18% dos consultados - dez pontos percentuais
à frente do segundo colocado, Pedro Malan, da Fazenda. As
cápsulas de 300 mg de St. John Wort ou extrato de São
João, o nome popular da erva Hypericum perforatum -- um antidepressivo
descoberto na Idade Média -, são ingeridas todas as
manhãs, em jejum. "Dizem que melhora o humor",
explica o ministro da Saúde.
O medicamento
é a mais recente novidade de uma farmacinha secreta que Serra
nega existir, mas vários amigos dizem ter visto no seu gabinete.
Pode-se entender as razões do ministro para se recusar a
dar publicidade à farmacinha e elas são menos por
temer a fama de hipocondríaco do que por não querer
privilegiar laboratórios com propaganda gratuita. O ministro
confirma apenas que usa o medicamento Omeprazol, similar ao conhecido
Losec, indicado para acidez e outros males do estômago - um
ponto fraco de Serra. A preferência pela fórmula só
foi revelada depois que ele descobriu que o Omeprazol é 50%
mais barato que o seu concorrente. "Tudo bem, as pessoas acham
simpático ter um ministro da Saúde hipocondríaco",
reage, com naturalidade.
Como economista,
Serra encontrou nos números os motivos desta simpatia pela
hipocondria. Numa pesquisa recente, ele constatou que o brasileiro
faz uso exagerado de medicamentos. "O consumo per capita de
remédio no Brasil é o nono do mundo, enquanto nossa
renda per capita está além do 70.º lugar",
revela. Parte da histórica fama de mal-humorado pode ser
creditada às olheiras, característica que, somada
ao fato de o ministro dormir de madrugada e quase nunca assumir
compromissos matutinos, lhe rendeu o apelido de Nosferatu, o vampiro.
O curioso é que mesmo esta constatação, que
há algum tempo era rebatida com uma careta, desperta agora
o bom humor de Serra. "Tenho certa queda por olheiras",
diz, sem franzir o rosto. "Elas dão um ar diferente."
A mudança
de estado de espírito faz parte de uma guinada mais ampla
nos hábitos de Serra. Ele está cada vez mais ortodoxo
em relação a sua própria forma física:
"Não fumo, tenho horror a cigarro, não tomo café,
evito frituras e açúcar e como verdura fresca",
conta. Tanta disciplina esconde, contudo, um antigo vício.
"Sou chocólatra. Tenho surtos de vontade de comer chocolate",
confessa. "Posso dizer que é a minha maior tentação,
mas procuro evitar, porque tenho receio de engordar." Atualmente,
Serra registra 85 quilos, dois a mais que seu peso ideal. "Se
pudesse, comeria chocolate todos os dias", diz.
Com mais preparo
físico e melhor humor, o ministro tem obtido resultados expressivos.
Desde que assumiu o cargo, em 31 de março do ano passado,
ele mudou a lei dos planos de saúde, determinou a venda de
remédios pelo nome do princípio ativo - a chamada
lei dos genéricos -, criou a agência nacional de vigilância
sanitária, que funciona nos moldes da FDA americana, e estabeleceu
vacinação gratuita dos idosos em todo o território
nacional.
Para o ano 2000,
sua prioridade é injetar mais recursos no programa ministerial
de "atenção básica", a política
preventiva para a saúde pública. O programa "Saúde
da Família", cujo nome Serra quer mudar, é a
menina dos olhos do ministro da Saúde. Está implantado
em 1.300 municípios com previsão de recursos na ordem
de R$ 800 milhões até o final de 1999. "Se os
ministros anteriores tivessem as características dele, certamente
a saúde estaria em melhor estado", acredita o ex-deputado
Sigmaringa Seixas (PT-DF). Com todos estes resultados, Serra não
receia mais anunciar suas pretensões políticas. "Gostaria
muito de ser candidato a governador de São Paulo", diz,
lançando-se à sucessão de Mário Covas.
Picuinha
presidencial
Casado
com Monica Allende, 55 anos, pai de Verônica, 27, e Luciano,
24, José Serra cultiva uma amizade de mais de 30 anos com
o presidente Fernando Henrique, desde o exílio em Santiago
do Chile, em 1966. Quando ambos eram parlamentares e faziam oposição
ao governo Fernando Collor, eles chegavam a se telefonar mais de
três vezes num dia. Esta estreita relação, no
entanto, não impede que um adore falar mal do outro. "É
tudo brincadeira", diz Serra. Para o ministro, foi o senador
Fernando Henrique quem espalhou sua fama de hipocondríaco,
o apelido de Nosferatu e a lenda de que só havia visto uma
vaca aos 50 anos. "Conheci o animal quando tinha 12 anos, em
Limeira, quando saí de São Paulo pela primeira vez",
corrige Serra. Nem mesmo a cirurgia que Serra fez no Carnaval passado,
para retirar as bolsas de gordura sob os olhos, passou em branco.
Numa roda de amigos, o presidente disse que o procedimento não
teve o efeito desejado. "Ficou melhor que a dele, que foi exagerada",
devolveu Serra, se referindo ao mesmo tipo de cirurgia sofrida por
FHC. "Somos ótimos amigos, embora minhas opiniões
sejam mais parecidas com as de dona Ruth", encerra o ministro.
Serra sabe que essa comparação, sim, irrita profundamente
o velho amigo.
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