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15/07/2002

   
 
Leandro Pimentel
“Desabei quando meu filho morreu. Até por sentimento de culpa, por não conseguir salvá-lo’’ Nilton Petrone, o Filé
Delfim Vieira/AE
Filé atendeu Ronaldo quando ele rompeu o tendão: “Falei para ele se segurar, porque o filho dele iria nascer”, diz ele

 

Esporte / Nilton Petrone
O craque que consertou Ronaldo
O fisioterapeuta Filé, a quem Ronaldo dedicou
o penta por ter recuperado seu joelho, perdeu filho adolescente vítima de distrofia muscular
e agora inaugura clínica em sociedade com
o jogador no Rio

Carlos Braga

 

Em abril de 2000, uma provação profissional veio juntar-se à tragédia pessoal vivida pelo fisioterapeuta Nilton Petrone, 41 anos. Ronaldo sofreu uma grave lesão na primeira partida que jogou, pela Inter de Milão, depois de um longo e penoso período de recuperação de uma operação no joelho. Ao tentar driblar um adversário, o jogador sofreu uma ruptura completa do tendão patelar. Naquele momento, Nilton, também conhecido como Filé, percebeu que seu trabalho de cinco meses tinha sido inútil e que outro, ainda mais longo, iria começar. No Brasil, seu filho Ulisses, de 14 anos, encontrava-se em estágio avançado de distrofia muscular progressiva, doença em que os músculos vão perdendo suas funções.

Todos os esforços de Nilton não conseguiram salvar seu filho, que morreu em abril de 2001. O trabalho dele, porém, contrariando a descrença de muita gente, conseguiu devolver Ronaldo ao futebol, a tempo de o craque ganhar a Copa do Mundo e dedicar a vitória ao amigo. “Eu dizia para o Ronaldo. O Ulisses é um exemplo de como a gente pode conseguir ser forte. Ele sempre dizia que estava tudo ótimo, apesar de nem conseguir mais mexer a mão”, lembra Nilton, fisioterapeuta contratado pela Inter de Milão desde 1999.

Foi uma época difícil. Nilton tinha que conduzir duas trajetórias interrompidas pela fatalidade. A de Ulisses, seu filho, e a de Ronaldo, que conheceu quase garoto, com 19 anos, quando jogava no clube PSV da Holanda. “Eu desabei quando meu filho morreu. Até por sentimento de culpa, pelo fato de não conseguir salvá-lo, já que sua doença era neurológica”, diz Nilton, que é formado em fisioterapia esportiva. Naquele 12 de abril de 2000, ele quase desabou novamente quando viu Ronaldo cair no gramado e chorar. Experiente, percebeu que não era dor física, pois a dor da ruptura do tendão é como a de uma pedrada, não dura dez segundos.

A dor vinha do desespero. Nilton esperou Ronaldo ser retirado de maca do campo, abraçou-o e ouviu o jogador perguntar incrédulo: “Meu Deus do céu, por que aconteceu isso com a gente?”. Nilton pediu que Ronaldo pensasse no filho que viria. E ficaram em silêncio durante toda a viagem de avião que os levou até Paris, onde Ronaldo foi operado. “Falei para ele se segurar, porque o filho dele iria nascer. Ele tinha que basear a vida dele no filho”, conta Nilton, que é casado pela segunda vez e tem dois filhos e uma filha. A missão de acompanhar Ronaldo de perto exige um empenho de Filé que ultrapassa os gramados. O fisioterapeuta se divide entre Rio e Milão. “Passo 40 dias lá, e uma semana aqui para ver meus filhos e minha mulher, que continuam morando no Brasil.”

Foi Romário quem indicou Nilton a Ronaldo e lhe deu seu apelido: Filé, originalmente Filé de Borboleta, devido a sua magreza na época. Em 1996, Ronaldo estava com um problema no joelho e Filé cuidou dele. Nascia ali a amizade entre o fisioterapeuta e o garoto de Bento Ribeiro, que ainda tentava se acostumar ao frio da Holanda. Nilton estava ao seu lado na ascensão, quando foi eleito o melhor jogador do mundo pela primeira vez, e na queda, quando muitos acreditavam que Ronaldo não voltaria a jogar bola. Filé conta que nessa época, ele e amigos do jogador tentavam filtrar as informações que chegavam a ele.

Filé acredita que Ronaldinho saiu fortalecido e maduro desse período. Assim como a amizade dos dois. Tanto que o jogador insistiu em ser parceiro de Nilton em algum negócio ligado à fisioterapia e investiu R$ 12 milhões num campus com 15 mil metros de área construída, no Rio, que terá faculdades de Enfermagem, Educação Física, Psicologia e Fisioterapia, com um moderno centro de reabilitação. Será chamado de Campus R9, em homenagem ao jogador. Nilton é assim. Sempre fica amigo de seus pacientes. Como ficou do surfista de ondas grandes Carlos Burle, que, em 2001, desceu um paredão d’água de 22 metros, considerada a maior onda da história do surfe. Eles se conhecem há 12 anos, época em que Nilton mal tinha maca para acomodar seus pacientes. Ele o curou de uma lesão na coluna que muitos achavam que tiraria para sempre Carlos Burle do mar. “Vim do Havaí para me tratar com ele. Ele olhou os exames e disse: isso é besteira. Vai demorar uns meses, mas você vai voltar”, lembra Carlos. Profecia cumprida.

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