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Entrevista

08/07/2002

   
AP
“Scolari vai carregar para o resto da vida o mérito de ter mantido suas convicções e, com elas, ter levado o Brasil ao penta”
 
CONTINUAÇÃO

Na sua época de jogador, a seleção foi batizada de Era Dunga. Dizia-se que era uma equipe que apresentava um futebol feio e retranqueiro...

Você conviveu com o Ronaldo na Copa de 1994, quando ele era um garoto, e na de 1998, quando já tinha se transformado numa estrela do futebol internacional
Quais são suas lembranças daquela final contra a Itália, em 1994, quando o Brasil venceu o tetracampeonato nos pênaltis?
 

 

Dunga
“É a melhor sensação da vida”
O capitão do tetracampeonato vê semelhanças entre as seleções campeãs de 1994 e 2002 e diz que até hoje sente-se anestesiado pelo ato de ter erguido a taça

Mariana Kalil

 

Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga, é protagonista de uma virada espetacular na carreira. Jogador da Seleção Brasileira na derrota de 90, quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo da Itália com um vergonhoso nono lugar, Dunga carregou durante muito tempo a culpa de não ter alcançado o argentino Maradona na hora do gol matador que mandou a Seleção Brasileira de volta para casa. Seu nome batizou uma era – a chamada Era Dunga, sinônimo de futebol retranqueiro, defensivo e perdedor. Em 1994, na Copa dos Estados Unidos, ele deu a volta por cima. Com a braçadeira de capitão, entrou para a história do futebol nacional ao suceder Bellini (1958), Mauro (1962) e Carlos Alberto Torres (1970) no ofício de levantar aos olhos do planeta a taça de tetracampeão do mundo. “Aquele momento está anestesiado até hoje em mim”, revelou à Gente do Japão, por telefone. Consultor do clube japonês Jubilo Iwata, aos 38 anos, Dunga virou referência de futebol guerreiro e vencedor – posição que dá a ele autoridade para dissertar sobre o tema e suas adjacências, como fez na entrevista a seguir, embalado pela alegria do pentacampeonato.

A seleção de 1994 chegou à Copa numa situação parecida com a que conquistou o penta. Ambas estavam desacreditadas, mas deram a volta por cima. Que comparações faria com a equipe dirigida por Carlos Alberto Parreira e com a de Luís Felipe Scolari?
Os dois grupos tinham em comum um ponto muito forte: a união e a vontade de vencer. Ambos passaram pelas eliminatórias enfrentando inúmeros problemas, o que acabou forçando os jogadores a uma concentração muito maior. Independente de jogar 10 ou 90 minutos, todos deram, juntos, o sangue pela seleção.

Você acredita que o apelido Família Scolari fez jus a essa equipe?
Exatamente. Eram todos uma família, sem espaço para brilhos individuais. Todos os jogadores tiveram consciência da sua importância para a equipe e entenderam que ninguém era indispensável ao grupo.

Na sua época de jogador, a seleção foi batizada de Era Dunga. Dizia-se que era uma equipe que apresentava um futebol feio e retranqueiro. Até que ponto essas críticas atrapalharam sua atuação na seleção e até que ponto são capazes de atrapalhar o desempenho dos jogadores em campo?
Depende da reação de cada jogador. É lógico que ninguém gosta de crítica. E é bom frisar que são sempre dois tipos de crítica: aquela que limita-se ao âmbito profissional e a outra que critica o ser humano.

Qual é a que mais incomoda?
A que é endereçada à nossa vida pessoal, claro. Muitos comentaristas, em vez de analisar a seleção dentro de campo, analisam o que gostariam que fosse feito. Os críticos precisam passar a informação fiel e não seus desejos pessoais. É esse tipo de crítica que machuca. As seleções de 1994 e 2002 tornaram-se campeãs porque deixaram as críticas não-construtivas do lado de fora do gramado.

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