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Reportagens

24/06/2002

   
 
Felipe Barra
“Minha convivência com atletas no exterior me fez perceber que era possível conviver em uma sociedade mais justa, cívica e pacífica’’ Raí
Edu Lopes
“A Fundação Gol de Letra foi um casamento entre mim e o Raí e já nos rendeu 600 filhos ’’ Leonardo
Edu Lopes
“Os problemas destas crianças mexem comigo. Não tenho como não me envolver com elas”, diz ele

 

Solidariedade / Futebol
O melhor gol de Raí
Tetracampeão da Copa de 1994 e um dos símbolos sexuais do País, Raí brilha no terceiro setor com a Fundação Gol de Letra, criada em parceria com Leonardo, que ajuda crianças carentes

Fábio Farah

 
Edu Lopes

Os nomes ingleses dos personagens eram complicados e apesar de ele se atrapalhar na pronúncia, as crianças o olhavam com fascínio e respeito, esparramadas sobre almofadas azuis e vermelhas. Sentado no chão de uma sala da Fundação Gol de Letra, em São Paulo, o ex-jogador Raí contava para uma pequena platéia de crianças carentes a história de Robin Hood, relatada no livro Heróis e Guerreiras: Quase Tudo Que Você Queria Saber, de Heloísa Pietro (Cia das Letrinhas). Naquela hora, contudo, o herói era ele. Foi uma tarde especial de segunda-feira para 180 crianças que freqüentam a instituição na Vila Albertina, zona norte de São Paulo, fundada por Raí em dezembro de 1998 em parceria com o jogador Leonardo. Embora esteja lá todos os dias, não é sempre que dá para o craque participar das atividades com as crianças. E naquele dia, o ídolo estava lá para brincar com elas.

Edu Lopes
Na aula de música Raí revelou seu lado brincalhão. Com um violão divertiu as crianças da Gol de Letra ...

Coordenador de futebol do São Paulo, Raí tornou-se um entusiasta do terceiro setor. Os resultados para uma instituição ainda engatinhando são fantásticos. Mantida por meio de parcerias com a iniciativa privada, a Gol de Letra foi escolhida no ano passado, pela Unesco, como referência internacional no atendimento à criança e ao adolescente. O jogador também foi eleito “Educador do ano de 2001”, fato inédito na Academia Brasileira de Educadores, que premiava apenas profissionais do setor. “Os problemas destas crianças mexem comigo. Não tenho como não me envolver com elas”, diz Raí, pouco depois de levar uma pincelada de tinta no nariz de uma menina sentada ao seu lado na aula de artes plásticas. “O que rola na instituição é muito sentimento e muita vibração porque as pessoas trabalham com amor à causa. Elas têm uma filosofia voltada para isso.” Além da unidade em São Paulo, que funciona num prédio cedido pelo governo estadual, há outra em Niterói (RJ), administrada por Leonardo. “A fundação foi um casamento entre mim e o Raí e já nos rendeu 600 filhos”, diz Leonardo, em referência ao número de crianças assistidas. “Elas tem um carinho muito grande pela gente.” No dia-a-dia, a instituição oferece atividades de complementação escolar para mais de 600 crianças, com idade entre 6 e 14 anos.

Edu Lopes
... fazendo barulho e desobedecendo o professor

Na aula de música, algumas delas se divertiam com a presença do craque.“Dá o violão para o Raí que ele toca violão”, sugeriu o professor. Com o violão, ele dedilhou algumas notas, afinando o instrumento, até cair na farra. Quem saísse fora do ritmo, saía da brincadeira. Raí não se conteve e arrancou risadas das crianças quando desobedeceu o professor, tocando freneticamente o instrumento e incentivando os meninos a fazer o mesmo. “Você sai da brincadeira”, brincou o professor com o craque.

Raí e Leonardo jogavam no São Paulo quando começaram a discutir a criação da instituição. “Esse trabalho nasceu de uma amizade e essa é a base da Gol de Letra, que quero manter para sempre”, diz. A vida na França, quando jogava pelo Paris Saint-Germain, ajudou o craque a amadurecer a idéia. “Minha convivência com atletas no exterior me fez perceber que era possível conviver em uma sociedade mais justa, cívica e pacífica”, conta o ex-jogador, que estudou Língua e Civilização Francesa na Universidade de Sorbonne, onde se interessou por filosofia e histórias medievais de cavalaria. “Cheguei a tal ponto de excitação com o projeto que mal conseguia dormir à noite. Pensava nisso o tempo todo”, lembra. “Um bom vinho ajudava a filosofar sobre o projeto com o Léo.” Leonardo reforça que a indignação de ambos com as diferenças sociais levou a idéia para frente. “A gente convive com situações cruéis. Não tem como se sentir legal em uma realidade difícil”, diz.

Raí pensou em criar o instituto sem se envolver diretamente, temendo uma reação negativa à sua iniciativa. “No Brasil, ações sociais são vistas com desconfiança. Pensam que você quer abater o imposto de renda ou posar de bom moço”, diz. “Hoje sinto que seria impossível me manter distante das crianças.” Diferente de outros atletas que sentiram a miséria na pele e tiraram disso estímulo para diminuir o sofrimento de quem atravessa as mesmas dificuldades, Raí encontrou no pai sua motivação. “Ele vivia miseravelmente no Nordeste e migrou para São Paulo em busca de oportunidades. Conseguiu reconstruir sua vida”, conta. “Quero transformar a realidade das crianças para que elas possam construir o próprio futuro”, diz Raí.

Certamente um futuro cheio de inspiração. No fim da tarde daquela segunda-feira na Gol de Letra, num campo de cimento, o atleta foi mostrar para as crianças seu maior talento: jogar futebol. Alguns meninos, com a ginga que só a rua ensina, tentaram roubar a bola do jogador, mas não conseguiram. Era para as meninas que gentilmente ele abandonava a bola, como se elas tivessem driblado o craque-cavalheiro.

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