15 de novembro de 1999
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Testemunhas do Século

Barbosa Lima Sobrinho
O repórter das lutas históricas
Aos 102 anos, o jornalista, escritor e imortal participou ativamente dos principais momentos da vida política do Brasil

Leneide Duarte

Foto: Leandro Pimentel

Um ano antes de seu nascimento, acontecia a primeira Olimpíada da era moderna, em 1896. No ano em que nasceu, em 1897, travavam-se as grandes batalhas da Guerra de Canudos. Aos 102 anos, completados no dia 22 de janeiro, o jornalista, político, escritor e imortal pernambucano Barbosa Lima Sobrinho mantém uma rotina que inclui os encargos de presidente da Associação Brasileira de Imprensa, fundada em 1908, as reuniões da Academia Brasileira de Letras, que já presidiu de 1953 a 1954 e da qual é o membro mais velho, e um artigo semanal, publicado aos domingos no Jornal do Brasil desde 1927.

“Não tenho ido à Academia toda semana porque eu, que tinha o prazer e a alegria de andar a pé, hoje luto com alguma dificuldade para caminhar”, lamenta. “Se pudesse dar algum conselho, recomendaria que não se quisesse viver além dos 100 anos. É um sofrimento por tudo o que a gente não pode mas que gostaria de fazer”, comenta Barbosa Lima na sala de sua casa no bairro de Botafogo, zona sul do Rio.

Atleta, nadador e remador na juventude, até há pouco tempo o velho jornalista não dispensava 500 pedaladas na bicicleta ergométrica que tem em casa. “No Clube Náutico Capibaribe, no Recife, eu era o proa da guarnição dos remadores. Nossa guarnição foi a única do Brasil que teve dois acadêmicos, o Múcio Leão e eu”, conta. Antes de se chamar Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, o filho do tabelião Francisco Cintra Lima se chamou Alexandre José Cintra Lima até que começou a escrever no jornalzinho do colégio, na época do ginásio. Um dia, o pai lhe propôs mudar seu nome para Alexandre José Barbosa Lima, em homenagem ao tio. Positivista, o velho Barbosa Lima foi um político importante no início da República. Governou Pernambuco durante a presidência de Floriano Peixoto e, na juventude, integrou um clube republicano e abolicionista.

Em 1921, Barbosa Lima Sobrinho veio definitivamente para o Rio e em 1924, com 27 anos, já era redator-chefe do Jornal do Brasil. O Rio de Janeiro, então capital da República, tinha 1,5 milhão de habitantes. E a tiragem dos grandes jornais diários na época era de 60 mil exemplares.

As linotipos tinham acabado de ser substituídas pelas modernas rotativas, capazes de imprimir 20 mil exemplares de 18 páginas por hora. Até 1934, Barbosa Lima Sobrinho escrevia seus artigos a mão. Depois, passou a usar a máquina de escrever e, mesmo após a invenção do computador, preferiu manter distância da nova tecnologia.

A vida do presidente da ABI está de tal forma ligada à história da imprensa e da política do Brasil que é impossível contá-la sem retomar fatos políticos que marcaram a vida nacional. Barbosa Lima Sobrinho coleciona recordes: acompanhou a história do Brasil através de 23 presidentes da República, é o repórter político mais antigo do País, escreve para o Jornal do Brasil há 78 anos, período no qual publicou mais de 4 mil artigos. Está casado com Maria José Pereira Barbosa Lima, 92, há 68 anos. Mora há 61 anos na mesma casa, foi o mais novo presidente da história da Associação Brasileira de Imprensa, eleito em 1926, aos 29 anos, e já é o mais velho que a ABI teve.

Envie esta página para um amigoNa militância política, Barbosa Lima Sobrinho foi eleito três vezes deputado federal por Pernambuco - 1934, 1945 e 1958 - e governou seu estado de 1948 a 1951. Procurou manter sempre uma posição de independência. Ele lembra que, após o golpe de 1964, sua casa foi revistada por um oficial e dois soldados. Mostrou sua coleção de obras marxistas e, em seguida, outra estante dedicada a livros antimarxistas. Fez questão de dizer aos militares, ao se despedir, que ficava triste de ver o Exército brasileiro naquele papel de cão farejador, “o mesmo Exército glorioso que um dia se recusou a perseguir escravos fugidos”.

Foi a primeira personalidade a assinar o pedido de impeachment de Fernando Collor, em 1992, e anticandidato a vice-presidente do Brasil, numa chapa encabeçada por Ulysses Guimarães, em 1974, sem a menor chance de derrotar o candidato do regime militar, Ernesto Geisel. Na sua história de luta pela democracia, esteve à frente da campanha, em 1984, das Diretas Já e, em 1947, votou contra a cassação do Partido Comunista.

Do casamento com Maria José teve quatro filhos: Roberto, que já morreu, Fernando, Carlos Eduardo e Lúcia. Ele gosta de recordar que, em 1931, quandofoi pedir a mão de sua mulher, o pai dela, Horácio Pereira, foi honesto: “Minha filha não sabe cozinhar, não sabe costurar e nem passar”. Ao que o jovem jornalista respondeu: “Se eu quisesse uma empregada, doutor, não teria vindo falar com o senhor. Trabalho no jornal que tem a maior seção de classificados do País.” Sem nunca ter sido muito religioso, Barbosa Lima Sobrinho se diz “católico apostólico romano” e declara: “Sou pequeno demais para me pronunciar diante de um problema tão grande como o da existência de Deus”.

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