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Testemunhas do Século
Barbosa Lima
Sobrinho
O repórter das lutas históricas
Aos 102
anos, o jornalista, escritor e imortal participou ativamente dos
principais momentos da vida política do Brasil
Leneide Duarte
Foto:
Leandro Pimentel
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Um ano antes
de seu nascimento, acontecia a primeira Olimpíada da era
moderna, em 1896. No ano em que nasceu, em 1897, travavam-se as
grandes batalhas da Guerra de Canudos. Aos 102 anos, completados
no dia 22 de janeiro, o jornalista, político, escritor e
imortal pernambucano Barbosa Lima Sobrinho mantém uma rotina
que inclui os encargos de presidente da Associação
Brasileira de Imprensa, fundada em 1908, as reuniões da Academia
Brasileira de Letras, que já presidiu de 1953 a 1954 e da
qual é o membro mais velho, e um artigo semanal, publicado
aos domingos no Jornal do Brasil desde 1927.
Não
tenho ido à Academia toda semana porque eu, que tinha o prazer
e a alegria de andar a pé, hoje luto com alguma dificuldade
para caminhar, lamenta. Se pudesse dar algum conselho,
recomendaria que não se quisesse viver além dos 100
anos. É um sofrimento por tudo o que a gente não pode
mas que gostaria de fazer, comenta Barbosa Lima na sala de
sua casa no bairro de Botafogo, zona sul do Rio.
Atleta, nadador
e remador na juventude, até há pouco tempo o velho
jornalista não dispensava 500 pedaladas na bicicleta ergométrica
que tem em casa. No Clube Náutico Capibaribe, no Recife,
eu era o proa da guarnição dos remadores. Nossa guarnição
foi a única do Brasil que teve dois acadêmicos, o Múcio
Leão e eu, conta. Antes de se chamar Alexandre José
Barbosa Lima Sobrinho, o filho do tabelião Francisco Cintra
Lima se chamou Alexandre José Cintra Lima até que
começou a escrever no jornalzinho do colégio, na época
do ginásio. Um dia, o pai lhe propôs mudar seu nome
para Alexandre José Barbosa Lima, em homenagem ao tio. Positivista,
o velho Barbosa Lima foi um político importante no início
da República. Governou Pernambuco durante a presidência
de Floriano Peixoto e, na juventude, integrou um clube republicano
e abolicionista.
Em 1921, Barbosa
Lima Sobrinho veio definitivamente para o Rio e em 1924, com 27
anos, já era redator-chefe do Jornal do Brasil. O Rio de
Janeiro, então capital da República, tinha 1,5 milhão
de habitantes. E a tiragem dos grandes jornais diários na
época era de 60 mil exemplares.
As linotipos
tinham acabado de ser substituídas pelas modernas rotativas,
capazes de imprimir 20 mil exemplares de 18 páginas por hora.
Até 1934, Barbosa Lima Sobrinho escrevia seus artigos a mão.
Depois, passou a usar a máquina de escrever e, mesmo após
a invenção do computador, preferiu manter distância
da nova tecnologia.
A vida do presidente
da ABI está de tal forma ligada à história
da imprensa e da política do Brasil que é impossível
contá-la sem retomar fatos políticos que marcaram
a vida nacional. Barbosa Lima Sobrinho coleciona recordes: acompanhou
a história do Brasil através de 23 presidentes da
República, é o repórter político mais
antigo do País, escreve para o Jornal do Brasil há
78 anos, período no qual publicou mais de 4 mil artigos.
Está casado com Maria José Pereira Barbosa Lima, 92,
há 68 anos. Mora há 61 anos na mesma casa, foi o mais
novo presidente da história da Associação Brasileira
de Imprensa, eleito em 1926, aos 29 anos, e já é o
mais velho que a ABI teve.
Na
militância política, Barbosa Lima Sobrinho foi eleito
três vezes deputado federal por Pernambuco - 1934, 1945 e
1958 - e governou seu estado de 1948 a 1951. Procurou manter sempre
uma posição de independência. Ele lembra que,
após o golpe de 1964, sua casa foi revistada por um oficial
e dois soldados. Mostrou sua coleção de obras marxistas
e, em seguida, outra estante dedicada a livros antimarxistas. Fez
questão de dizer aos militares, ao se despedir, que ficava
triste de ver o Exército brasileiro naquele papel de cão
farejador, o mesmo Exército glorioso que um dia se
recusou a perseguir escravos fugidos.
Foi a primeira
personalidade a assinar o pedido de impeachment de Fernando Collor,
em 1992, e anticandidato a vice-presidente do Brasil, numa chapa
encabeçada por Ulysses Guimarães, em 1974, sem a menor
chance de derrotar o candidato do regime militar, Ernesto Geisel.
Na sua história de luta pela democracia, esteve à
frente da campanha, em 1984, das Diretas Já e, em 1947, votou
contra a cassação do Partido Comunista.
Do casamento
com Maria José teve quatro filhos: Roberto, que já
morreu, Fernando, Carlos Eduardo e Lúcia. Ele gosta de recordar
que, em 1931, quandofoi pedir a mão de sua mulher, o pai
dela, Horácio Pereira, foi honesto: Minha filha não
sabe cozinhar, não sabe costurar e nem passar. Ao que
o jovem jornalista respondeu: Se eu quisesse uma empregada,
doutor, não teria vindo falar com o senhor. Trabalho no jornal
que tem a maior seção de classificados do País.
Sem nunca ter sido muito religioso, Barbosa Lima Sobrinho se diz
católico apostólico romano e declara:
Sou pequeno demais para me pronunciar diante de um problema
tão grande como o da existência de Deus.
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