15 de novembro de 1999
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Política

Moroni Torgan na mira do narcotráfico
Relator da CPI dos traficantes já foi pregador da Bíblia e hoje anda com seguranças e três armas

Cláudia Carneiro

Foto: Roberto Jayme

De terno sempre escuro, sapatos engraxados, camisa branca, a Bíblia e o Livro dos Mórmons em punho, por dois anos o missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Élder Torgan, saía a campo diariamente atrás de seu rebanho. Dos 20 aos 22 anos, ele bateu à porta das casas de famílias em São Paulo e Mato Grosso para pregar a palavra de Deus, obstinado com a função atribuída pela sua igreja. “Foi uma das experiências mais importantes da minha vida”, revela hoje o deputado federal Moroni Bing Torgan, nascido no Rio Grande do Sul e eleito pelo PFL do Ceará, que agora vive o auge de sua carreira parlamentar comandando as ações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga as ações dos narcotraficantes no País.

Aos 43 anos, Moroni deixou de lado suas ovelhas, mas continua odiado por pistoleiros, contrabandistas e outros criminosos que perseguiu quando atuava como delegado da Polícia Federal em Fortaleza. Ele teve de alterar sua rotina e vive cercado de policiais e seguranças, para se proteger das ameaças que recebe dos chefões do crime organizado. Com 1,90 m de altura e pesando 120 quilos, o deputado é autêntico peso-pesado na luta contra os figurões que movimentam cerca de US$ 30 bilhões anuais por trás de organizações criminosas. Desde que as investigações da CPI do Narcotráfico começaram a desmontar uma poderosa rede com tentáculos em vários Estados, ele tratou de pedir proteção reforçada à Polícia Federal.
Depois de interrogar testemunhas e cumprir a agenda da CPI, o delegado-deputado costuma desaparecer de Brasília às sextas-feiras e ressurgir em algum outro ponto do território nacional sem que ninguém saiba do seu paradeiro. Sua presença em eventos não é mais divulgada. Suas companheiras de viagem são uma submetralhadora Uzi, uma pistola 9 mm e um revólver calibre 38 - que só dispensa quando está no Congresso, onde tem a proteção de seguranças da Câmara. Ele muda periodicamente os números dos telefones pessoais e não os passa para ninguém, assim como não carrega telefone celular. Já está acostumado com as ameaças de morte.

Destino incerto
O relator da CPI também sacrificou alguns hábitos de sua família. Seus dois filhos pré-adolescentes nunca saem de casa sozinhos e, mesmo em casa, estão sob o cuidado de seguranças. O mesmo acontece com a mulher, Rosa, 42, com quem é casado há 19 anos. A família mora “entre Brasília e Fortaleza”, diz o deputado. Da mulher e dos pais, Moroni Torgan recebe freqüentes pressões para abandonar a CPI. “Confio em Deus, confiem em mim”, responde ele. Sua luta em favor da CPI do Narcotráfico começou em abril de 1991, quando, em seu primeiro mandato de deputado federal, apresentou proposta para instalação da comissão. A CPI funcionou durante seis meses e, no ano seguinte, o então deputado Jabes Rabelo perdeu o mandato por ter facilitado a ação do irmão Abdiel no tráfico de 500 quilos de cocaína. Na mesma época, Moroni subiu à tribuna com uma listagem de 150 metros impressa em computador e o nome de 50 mil traficantes. A CPI, porém, não teve força política para continuar.

Envie esta página para um amigoSete anos depois, a nova CPI do Narcotráfico desbaratou a quadrilha que usava aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) para o tráfico de drogas, atingiu em cheio a rede de policiais e traficantes que atuava no Acre - o que resultou na cassação e prisão do deputado federal Hildebrando Pascoal e no indiciamento de outras 26 pessoas. Além disso, começou a desvendar as conexões do crime organizado no Maranhão, Mato Grosso, Campinas (SP) e Rio de Janeiro. “Mas precisa muita luta para continuar a desmantelar o crime organizado no País”, ressalta.

Moroni Torgan teve sua primeira projeção na carreira quando assumiu o posto de delegado de Polícia Federal em Fortaleza e prendeu, em três anos, 500 pessoas acusadas de tráfico de drogas. Logo tornou-se secretário de Segurança Pública do Ceará, convidado pelo governador Tasso Jereissatti, de quem foi vice-governador até ser reeleito para a Câmara, em 1998. Naquela época, já adotava o estilo de enfrentar pessoalmente os criminosos - ia até suas casas para prendê-los. Como xerife maior da luta contra os traficantes, ele já planeja vôos políticos. Moroni pode ser o candidato de Tasso Jereissatti para a Prefeitura de Fortaleza, em 2000.
 

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