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Teatro
Lígia Cortez,
mestra nos palcos e na vida
Atriz e diretora comanda duas escolas de
interpretação, mantém três projetos para crianças carentes e volta
ao teatro com o pai, Raul Cortez
Chantal Brissac
Foto:
Piti Reali
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Criança,
Lígia Cortez era tão tímida que chegava a se
esconder em algum canto da casa quando alguém ia visitar
a família. Os pais, os atores Raul Cortez e Célia
Helena, procuravam estimulá-la a gostar de teatro para se
soltar mais. Mas a menina torcia o nariz para aquilo que fazia sua
mãe sair à noite, mesmo na chuva. Só na adolescência
é que percebeu que poderia se conhecer - e também
se soltar mais - com o teatro. E abraçou a carreira de uma
maneira tão intensa que surpreendeu até os pais. Ela
conseguiu ir muito mais longe do que eu, pois além de ser
uma atriz brilhante, já dirigiu e escreveu peças.
Tenho muito orgulho de Lígia, diz Raul Cortez, 67 anos.
A atriz Célia Helena, que morreu há dois anos de câncer,
também se envaidecia com a filha. Trabalharam juntas em várias
peças e Lígia lhe deu uma neta, Vitória, 13
anos. Célia Helena, que tinha 61 anos, não chegou
a conhecer a segunda neta, Clara, de seis meses. Esta gravidez
aconteceu alguns meses depois que minha mãe morreu. Antes
eu não pensava em ter mais um filho, mas naquele momento,
após uma perda tão sofrida, senti um grande desejo
de gerar uma nova vida, diz Lígia, 39 anos.
Como Vitória,
Clara também nasceu de parto normal e tem sido amamentada
de quatro em quatro horas por uma mãe lépida. A
experiência de ser mãe em duas fases tão diferentes,
aos 26 e quase aos 40, é incrível, conta a atriz,
casada há 15 anos com o artista plástico Ulisses Cohn.
Agora estou muito mais tranqüila. Mesmo agarrada
a Clara em tempo quase integral, Lígia não deixou
de lado as atividades na Casa do Teatro e no Teatro-escola Célia
Helena. A primeira é uma escola para crianças e adolescentes
que querem aprender a atuar. No bairro do Pacaembu, em São
Paulo, os alunos têm aulas de teatro, música, circo,
dança e artes plásticas, em uma dinâmica de
grupo que Lígia considera vital para o exercício da
expressão. No Teatro-escola Célia Helena, ela continua
a desenvolver o trabalho da mãe, de formar jovens atores
para o palco, o cinema e a televisão. Deste centro já
saíram nomes como Carolina Kasting e Antônio Callone,
que estão em Terra Nostra, da Globo, e Maria Manuela, que
vai interpretar Odete Lara no filme dirigido por Ana Maria Magalhães,
que começa a ser filmado esta semana no Rio de Janeiro.
Na
Casa do Teatro, Lígia é professora e diretora das
crianças, que todo final de ano apresentam suas montagens
de textos de Shakespeare, Samuel Becket e Monteiro Lobato, entre
outros autores. As pessoas não têm idéia
da importância da arte-educação na formação
da criança e do adolescente, diz Lígia. Atenta
às várias gerações que já passaram
pela escola em 15 anos, a atriz acredita que os adolescentes de
hoje estão precisando de um estímulo. Houve
uma fase, há muito tempo, em que eles eram muito tímidos,
depois vieram crianças sem limite algum e agora eles são
entediados, muito protegidos, não vêem a luz do dia.
Nossa missão é estimulá-los, afirma.
Outro de seus
trabalhos é junto a comunidades carentes de São Paulo.
Lígia está com três projetos em andamento: um
na favela de Paraisópolis, onde montou um grupo de aulas
de arte-educação, outro em uma vila de Interlagos,
na zona sul de São Paulo, coordenada por um padre alemão
que criou um centro de artes, e um terceiro no Tremembé,
zona norte paulistana, com o jogador Raí, fundador do projeto
Gol de Letra, em que crianças fazem esporte e aprendem dança,
música e teatro depois do horário de aulas. A
união com Lígia tem sido maravilhosa, pois as crianças,
além de praticarem esporte, conseguem se expressar artisticamente,
diz Raí. O objetivo de Lígia é se dedicar cada
vez mais a atividades voluntárias, sem deixar de lado seus
projetos teatrais.
Peça
com o pai
Um projeto no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) também
está na lista de prioridades da atriz. Lá ela dá
aula de teatro para grupos de crianças e adultos. Ano que
vem, ela irá subir ao palco com o pai para fazer Rei Lear,
de Shakespeare.
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