15 de novembro de 1999
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Teatro

Lígia Cortez, mestra nos palcos e na vida
Atriz e diretora comanda duas escolas de interpretação, mantém três projetos para crianças carentes e volta ao teatro com o pai, Raul Cortez

Chantal Brissac

Foto: Piti Reali

Criança, Lígia Cortez era tão tímida que chegava a se esconder em algum canto da casa quando alguém ia visitar a família. Os pais, os atores Raul Cortez e Célia Helena, procuravam estimulá-la a gostar de teatro para se soltar mais. Mas a menina torcia o nariz para aquilo que fazia sua mãe sair à noite, mesmo na chuva. Só na adolescência é que percebeu que poderia se conhecer - e também se soltar mais - com o teatro. E abraçou a carreira de uma maneira tão intensa que surpreendeu até os pais. “Ela conseguiu ir muito mais longe do que eu, pois além de ser uma atriz brilhante, já dirigiu e escreveu peças. Tenho muito orgulho de Lígia”, diz Raul Cortez, 67 anos. A atriz Célia Helena, que morreu há dois anos de câncer, também se envaidecia com a filha. Trabalharam juntas em várias peças e Lígia lhe deu uma neta, Vitória, 13 anos. Célia Helena, que tinha 61 anos, não chegou a conhecer a segunda neta, Clara, de seis meses. “Esta gravidez aconteceu alguns meses depois que minha mãe morreu. Antes eu não pensava em ter mais um filho, mas naquele momento, após uma perda tão sofrida, senti um grande desejo de gerar uma nova vida”, diz Lígia, 39 anos.

Como Vitória, Clara também nasceu de parto normal e tem sido amamentada de quatro em quatro horas por uma mãe lépida. “A experiência de ser mãe em duas fases tão diferentes, aos 26 e quase aos 40, é incrível”, conta a atriz, casada há 15 anos com o artista plástico Ulisses Cohn. “Agora estou muito mais tranqüila”. Mesmo agarrada a Clara em tempo quase integral, Lígia não deixou de lado as atividades na Casa do Teatro e no Teatro-escola Célia Helena. A primeira é uma escola para crianças e adolescentes que querem aprender a atuar. No bairro do Pacaembu, em São Paulo, os alunos têm aulas de teatro, música, circo, dança e artes plásticas, em uma dinâmica de grupo que Lígia considera vital para o exercício da expressão. No Teatro-escola Célia Helena, ela continua a desenvolver o trabalho da mãe, de formar jovens atores para o palco, o cinema e a televisão. Deste centro já saíram nomes como Carolina Kasting e Antônio Callone, que estão em Terra Nostra, da Globo, e Maria Manuela, que vai interpretar Odete Lara no filme dirigido por Ana Maria Magalhães, que começa a ser filmado esta semana no Rio de Janeiro.

Envie esta página para um amigoNa Casa do Teatro, Lígia é professora e diretora das crianças, que todo final de ano apresentam suas montagens de textos de Shakespeare, Samuel Becket e Monteiro Lobato, entre outros autores. “As pessoas não têm idéia da importância da arte-educação na formação da criança e do adolescente”, diz Lígia. Atenta às várias gerações que já passaram pela escola em 15 anos, a atriz acredita que os adolescentes de hoje estão precisando de um estímulo. “Houve uma fase, há muito tempo, em que eles eram muito tímidos, depois vieram crianças sem limite algum e agora eles são entediados, muito protegidos, não vêem a luz do dia. Nossa missão é estimulá-los”, afirma.

Outro de seus trabalhos é junto a comunidades carentes de São Paulo. Lígia está com três projetos em andamento: um na favela de Paraisópolis, onde montou um grupo de aulas de arte-educação, outro em uma vila de Interlagos, na zona sul de São Paulo, coordenada por um padre alemão que criou um centro de artes, e um terceiro no Tremembé, zona norte paulistana, com o jogador Raí, fundador do projeto Gol de Letra, em que crianças fazem esporte e aprendem dança, música e teatro depois do horário de aulas. “A união com Lígia tem sido maravilhosa, pois as crianças, além de praticarem esporte, conseguem se expressar artisticamente”, diz Raí. O objetivo de Lígia é se dedicar cada vez mais a atividades voluntárias, sem deixar de lado seus projetos teatrais.

Peça com o pai
Um projeto no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) também está na lista de prioridades da atriz. Lá ela dá aula de teatro para grupos de crianças e adultos. Ano que vem, ela irá subir ao palco com o pai para fazer Rei Lear, de Shakespeare.
 

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