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Reportagens

10/06/2002

   
 
No sábado 1º, Tim dormiu na Nova Cruzeiro e voltou ao local no domingo, com uma microcâmera escondida. Combinou encontro às 22 horas com o motorista, mas não apareceu mais

 

Violência/ Tim Lopes
Repórter desaparece
na guerra do tráfico
Jornalista da Globo e vencedor do Prêmio
Esso, Tim Lopes está desaparecido desde
a noite de domingo 2, quando subiu favela
no Rio em reportagem para denunciar baile
funk de traficantes

Vivianne Cohen

 
A polícia encontrou perto de uma gruta na favela um corpo carbonizado e fragmentos de fitas de filme 8 mm – não utilizadas em microcâmeras. O exame de DNA fica pronto até 15 de junho

Para ele, sua mais nova missão era muito mais importante do que somar mais um furo jornalístico à brilhante carreira de repórter investigativo. Ao invadir o submundo violento da favela de Vila Cruzeiro, na Penha, no subúrbio do Rio, para denunciar a existência de um baile funk promovido por traficantes do morro, que seria financiado com o dinheiro do tráfico de drogas e onde haveria exploração sexual de menores, o jornalista da Rede Globo Arcanjo Antonino Lopes, o Tim Lopes, 50 anos, atendia a um pedido dos moradores da comunidade.

Impotentes diante do pouco caso da polícia, eles ligaram para a emissora duas semanas atrás com a esperança de que a repercussão de uma reportagem produzida por Tim ajudasse a resolver o problema. Contudo, contando apenas com sua experiência e sem dispor do aparato de segurança da polícia, Tim Lopes desapareceu na noite do domingo 2, quando finalizava a reportagem. Muito abalada, sua mulher, Alessandra, está sendo acompanhada por uma assistente social da Globo, onde ele trabalhava desde 1995. Antes, esteve no Jornal do Brasil, em O Globo e em O Dia, entre outros veículos.

A determinação e precisão do repórter lhe renderam o primeiro Prêmio Esso de Telejornalismo, em dezembro do ano passado, como autor da matéria “Feira de Drogas”, na qual mostrava a livre comercialização de maconha e cocaína, à luz do dia, no centro de uma favela carioca. Na época da ditadura militar, desafiou a censura ao escrever reportagens sobre sexo no jornal alternativo O Repórter. Acabou preso de forma arbitrária por alguns dias.

Desta vez, porém, o desafio era maior. A Vila Cruzeiro é considerada uma das favelas mais perigosas da cidade, comandada pelo traficante Elias Pereira da Silva, conhecido como Elias Maluco, um dos chefes do Comando Vermelho. Aquela foi a quarta visita de Tim à região. No sábado, ele chegou a dormir na favela e voltou ao local no domingo, com uma microcâmera escondida. Combinou de encontrar-se às 20 horas com o motorista que o levou, Rudman Castro. Na hora marcada, entretanto, apareceu e disse que ainda não tinha finalizado o seu trabalho. Remarcou o encontro para as 22 horas e não apareceu mais. O motorista o esperou até meia-noite. Na segunda-feira 3, a Globo registrou o seu desaparecimento na 22ª DP, na Penha. No meio da tarde daquele mesmo dia, policiais fizeram uma blitz na favela e encontraram perto de uma gruta um corpo carbonizado, duas cápsulas de calibre 45, fragmentos de fitas de filme 8 milímetros – não utilizadas em microcâmeras – e sangue.

O material encontrado foi levado para o Instituto Carlos Éboli para que o corpo seja identificado através de exame de DNA e de parte da mandíbula. Foi recolhido também o sangue de um parente de Tim, pai de um jovem de 19 anos, para a comparação do DNA. O resultado do teste deve ser conhecido até 15 de junho. A emissora divulgou uma nota oficial no final da tarde de segunda 3 comunicando o desaparecimento do jornalista. “Ainda não há qualquer confirmação de que o corpo seja do jornalista e todos nós, seus companheiros de trabalho, torcemos do fundo de nossos corações para que isto não aconteça”, dizia a nota.

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