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Entrevista

10/06/2002

   
André Durão
“O barato de fazer teatro é que você nem precisa de sexo à noite, você dorme com aplauso”, diz Jorginho
 
CONTINUAÇÃO

Por que um diretor consagrado como você ainda encontra dificuldades para conseguir patrocínio para as suas peças?

• Por algum tempo, você ficou marcado pelo estilo autoritário de dirigir. Isso mudou?
• O Guel (Arraes) é uma referência de qualidade. Ele conseguiu fazer o popular com um nível de qualidade enorme.
 

 

Jorge Fernando
“Eu era a Scarlet O’Hara de Inhaúma”
O diretor da Globo relata seu duro início de vida, banca peça de R$ 480 mil sem patrocínio e diz que na tevê não existe fracasso

Vivianne Cohen

 

O humor é a chave do sucesso de Jorge Fernando. À frente de comédias ele experimentou o prazer dos aplausos, como nas memoráveis novelas Guerra dos Sexos, Que Rei Sou Eu? e Brega e Chique e chegou ao posto de diretor de núcleo em 1995. Nos estúdios, arranca gargalhadas dos colegas. Sua atitude de mostrar as nádegas após dar uma sonora bronca tornou-se célebre. E agora ele se prepara para estrear mais um besteirol no teatro. Este mês, vai atuar e dirigir Aqui Se Faz, Aqui Se Paga, escrita por Mauro Rasi. Apesar do currículo invejável – até Roberto Carlos já teve seu show dirigido por ele – Jorginho não está rico. Seus bens são três apartamentos e uma casa em Araras (RJ). Aos 47 anos, o diretor ainda tem que gastar parte considerável do que ganha para produzir suas peças. “Se não levar a vida com humor, tenho motivo de sobra para ser uma pessoa histérica”, diz ele.

Por que um diretor consagrado como você ainda encontra dificuldades para conseguir patrocínio para as suas peças?
Não sei. Já ouvi de tudo. Quando buscava patrocínio para essa peça, uma mulher de uma grande empresa disse que eu não tinha o perfil da companhia. Porque eles só davam patrocínio para monstros sagrados do teatro ou para grupos com conteúdo e ela não sabia onde me encaixar. Falei: “Me encaixa no sucesso”. É melhor vender uma casa ou fazer um empréstimo no banco do que ter que implorar.

Você está colocando dinheiro do seu bolso neste espetáculo?
Estou me dando R$ 480 mil de presente, que é o valor desta peça. Já tenho na cabeça que perdi essa grana. Não pode essa lei do Garotinho (ex-governador do Rio e candidato à Presidência) de que menor de 21 anos paga 50% do valor do ingresso. Acaba saindo mais barato que um cinema. O meu gasto é em dólar, por isso não acho que teatro seja caro. No Rio, eu acho que tem que custar R$ 40, se não você não paga os gastos. Rezo para fazer sucesso porque tenho que me manter.

O fracasso é maior no teatro?
Na televisão não existe fracasso. As Filhas da Mãe para mim foi um sucesso. Tudo bem que ela não deu o índice de audiência esperado, mas nunca tive tanto prestígio. Nunca tinha ganho 4 estrelas numa novela e ganhei nessa. Ela não alcançou as metas desejadas para o horário por uma série de motivos, como a guerra do Oriente, o horário de verão, as férias. Achei legal ela acabar antes porque saiu na glória. Depois de 24 anos, eu inovei. Podem gostar ou não da história do rap, mas foi um trabalho novo. Foi o melhor trabalho que fiz, independente do número no Ibope. Eu e o Silvio de Abreu (autor da novela) ficamos cúmplices.

Era cobrado para ter audiência?
Lógico que era. Primeiro tinha a nossa cobrança, não queríamos fazer merda para derrubar o horário. Ainda mais convencidos do jeito que somos por causa do sucesso que fizemos. Sabia que tinha uma meta a cumprir, o meu salário reflete isso, então sou o primeiro interessado. Gosto da Marluce (Dias da Silva, diretora-geral da Globo), os diretores de núcleo ganharam espaço com ela. Hoje, sei tudo sobre a programação da Globo. A emissora tá preocupada com a renovação de atores e diretores. Acho isso certo, mas antigamente tinha uma coisa mais de grife, hoje está pasteurizado. O importante é você colocar a sua cara. Acho que eu tenho isso, assim como o Dênis Carvalho, o Guel (Arraes), e o Daniel Filho. Todo mundo sabe o que pode esperar de uma produção minha.

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