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03/06/2002

   
 
Leandro Pimentel
“Ela foi salva por um bombeiro após um acidente de ônibus e, desde então, decidiu seguir carreira no quartel: como recruta, agora torce para que nenhuma emergência a deixe fora do próximo Carnaval
Reprodução
“Não consegui parar de rir quando me vi em fila junto com outros recrutas. Tomei uma bronca e recebi uma pena’’ Selminha Sorriso

 

Profissão / Selminha Sorriso
A porta mangueira
Depois de dez anos de espera, porta- bandeira da escola de samba carioca Beija-Flor de Nilópolis consegue realizar o sonho de ser bombeiro

Eduardo Minc

 

Cortar grama, pintar paredes e fazer flexões, tarefas antes inimagináveis para Selma Rocha, agora fazem parte da rotina da moça. Carioca de 27 anos, que há sete encanta o público da Marquês de Sapucaí como porta-bandeira da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, ela foi aprovada, há dois meses, no concurso para recrutas do Corpo de Bombeiros. Desde então, Selminha Sorriso – como tornou-se conhecida no mundo do samba – dá expediente como soldado Selma em outro tipo de escola, a de bombeiros Coronel Sarmento do Rio. “No início foi difícil me adaptar a tanta seriedade, como bater continência. Mas agora estou me acostumando com facilidade”, diz.

A falta de seriedade, aliás, vem lhe rendendo punições. “Outro dia não consegui parar de rir quando me vi em fila com outros recrutas. Tomei uma bronca e recebi uma pena”, diz ela. Selma, que aprendeu na prática os passos de uma porta-bandeira nota dez – em sete anos de desfile, nunca tirou nota menor que essa –, como punição pelas suas gracinhas no quartel tem sido obrigada a conhecer a teoria da nova profissão. “Meus superiores adoram me deixar três horas presa num quarto estudando o Manual de Instrução de Salvamento. Acho até que já o decorei”, diz.

O sonho de se tornar bombeiro começou em 1992. Na época, Selma viajava pela Suécia a trabalho com um grupo de sambistas, quando o ônibus em que estava capotou. O resgate só pôde ser feito por uma porta de emergência localizada no teto do ônibus e Selma lembra que se emocionou ao ver um bombeiro descendo e caminhando em sua direção: “Ele tinha um olhar doce de quem estava compreendendo meu desespero e amava o que fazia”.

Contagiada por essa experiência, decidiu que também iria salvar vidas ao voltar ao País. Durante 10 anos, ela esperou que a corporação carioca abrisse concurso para mulheres, o que aconteceu apenas no ano passado. Aprovada nas provas, agora ela faz o curso de soldado. No quartel, aprende sobre salvamento em alturas e combate a incêndio. Recentemente, enfrentou uma das primeiras provas: atravessar de um prédio para o outro equilibrando-se sobre em barras de ferro que formavam uma espécie de trilho. “Pensei que não fosse conseguir, fiquei com medo. Mas cumpri a missão”, conta.

Quando não está de plantão, Selma cumpre uma carga horária de cinco horas e meia por dia. Como recruta, ganha R$ 400 por mês e engorda a renda – que chega a R$ 2 mil – com a receita do salão de beleza que possui em Nilópolis (RJ). Separada, Selma mora com o filho Igor, de 11 meses, e encontra fôlego para freqüentar o quinto período da faculdade de direito. “Se um carro alegórico pegar fogo enquanto ela estiver desfilando, ela vai ficar entre a cruz e a espada”, brinca o puxador de samba Neguinho da Beija-Flor. “Ficará sem saber se apaga o fogo ou se mantém o rebolado.”

Mesmo diante da austeridade do quartel, a porta-bandeira vive com as unhas pintadas de branco e sempre traz o batom na bolsa. O que a atormenta é a possibilidade de não desfilar no próximo Carnaval por conta de alguma emergência. “Se não estiver na passarela em 2003, minha quarta-feira de cinzas vai durar o ano inteiro de tão triste que vou ficar”, diz.

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