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Entrevista

03/06/2002

   
Fotos: Piti Reali
“Soube do câncer (vencido em 2000) por mapa astral. Fui ao centro radiológico e falei: ‘Pode olhar aí do lado esquerdo’. O médico me achou biruta. Mas confirmou”
 Piti Reali
“Nunca tive dinheiro fácil. Nem sabia que tinha nascido em berço de ouro. Tinha um fusca para ir à faculdade e parava longe para ninguém ver”

CONTINUAÇÃO
Você passou anos sendo a filha do principal acionista do Banco Itaú e hoje é uma líder em cidadania. Quando começou a transformação?
Meu sonho era ter um ônibus com mamógrafo para levar o exame à periferia
• Tenho orgulho do meu avô ter criado o Banco Itaú. Mas preciso de uma carreira solo

 

Milú Villela
“Falta a elite pôr a mão na massa”
- continuação
 

Seu exemplo influencia os filhos?
Vamos ver daqui a alguns anos. Um já voltou para casa após quatro anos fora do País, o outro está lá. Hoje minha sobrinha é muito ligada no social.

Qual de seus filhos voltou?
Não ponha os nomes, por favor. Foi um acordo que a gente fez. Disse para eles a vida inteira que não tinha interesse em aparecer, e aí de repente eu viro o marketing do MAM, do Ano do Voluntariado, saio em todas as mídias. Não estava combinado.

Nunca teve interesse pelo banco?
Não. Gosto de lidar com gente e cultura. Sou presidente do Itaú Cultural, não deixa de ser um braço do Itaú.

Sempre foi mística?
Passei a crer, mas também tenho uma santa aqui na mesa, um terço. Rezo todo dia, tenho um sustentáculo religioso. Tenho na parede a “Oração dos Pássaros” do Frei Betto, meu primo.

Vocês tinham uma relação distante. Como se deu a reaproximação com Frei Betto?
Um dia passei um e-mail para ele: querido primo, gostaria de conversar sobre voluntariado. Ele veio e ficamos encantados. Depois, ele apareceu na morte do meu pai. Todo de branco. Eu perguntava: “Que você está fazendo aqui, Betto?”. Aí ele disse: “Eu vim fazer uma missa de corpo presente”. Eu me supreendi: “Chamei outro padre, não programei essa missa”. Aí ele falou: “Mas eu já decidi”. Aí falei para ele: “Betto, meu pai mandou você aqui”.

Você nasceu em berço de ouro, nunca precisou de dinheiro, acha que as pessoas estranham por que você faz isso tudo?
Nasci em berço de ouro, mas nunca tive dinheiro fácil. Nem sabia que tinha nascido em berço de ouro. Nunca se falou em dinheiro em casa. Os valores eram outros, era educação, cultura. Não existia consumismo. Eu tinha muita asma. E a primeira viagem de avião que fiz com meu pai aos 10 anos foi porque ele achou que eu tinha de consultar um médico na França. Meu pai morou lá 4 anos e trabalhou em 1931 em pesquisas sobre câncer com a madame Curie (Marie Curie, do Institute du Radium de La Fundacion Curie). Lembro que eu fui com uma saia cinza, tinha duas blusas de malha branca. Lavava uma de noite e usava a outra de dia. Hoje em dia eu sou obrigada a aparecer bem vestida porque se espera isso da figura pública. Até 1994, nunca tinha voado de primeira classe nem ficado em hotel cinco estrelas. Até 1987 não tinha um tostão na minha conta.

Como não tinha dinheiro?
Não tinha! Ninguém entende isso. É lógico que tinha a casa, tinha coisas, mas ia fazer sacolão às sete da manhã. Quando tinha casamento para ir, pedia roupa emprestada à minha mãe. Não tinha esses vestidos. Com 20 anos fui fazer faculdade, tinha um fusquinha e parava longe da PUC. Não queria que me vissem de carro.

Por que a preocupação?
Porque todos iam de ônibus! Depois eu tive a escola, a Caracol. A Miúcha levava a Bebel Gilberto, ela estudava na escola. Fiquei lá sete anos. Mas meu marido (o médico Raul Marino) achou que eu estava cuidando mais dos filhos dos outros que dos meus. E larguei a escola. Esse negócio de ter dinheiro não conta na minha vida. Não estou tentada por isso. Tenho orgulho do meu avô ter criado o Banco Itaú. Mas preciso de uma carreira solo. É o valor de contribuir. Faço a minha parte todos os dias.

Acha que falta à elite brasileira pensar dessa forma?
Falta a elite brasileira participar e pôr a mão na massa. Resgatar essa dívida que nós temos. A sociedade civil está aí fazendo coisas sozinha. Cada pessoa deveria doar no mínimo duas horas por semana. Se não quer dar o tempo dela pondo a mão na massa, dá dinheiro! Vai ajudar a escola perto de casa. As pessoas não querem caridade, mas simplesmente oportunidade. É in fazer alguma coisa pelo País, é totalmente out não fazer nada. Sei que isso vai machucar muita gente, mas eu tenho que dizer.

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EDIÇÃO 148
 
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Milú Villela diz: "É in fazer alguma coisa pelo País, é totalmente out não fazer nada". E você? Faz algum trabalho voluntário?
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FÓRUM
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