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Entrevista

03/06/2002

   
Piti Reali
“Acho que foi mais duro perder meu irmão e minha cunhada num desastre aéreo do que ter tido câncer. Com a morte de meu irmão, meu pai morreu junto”
 
CONTINUAÇÃO
Você passou anos sendo a filha do principal acionista do Banco Itaú e hoje é uma líder em cidadania. Quando começou a transformação?
• Meu sonho era ter um ônibus com mamógrafo para levar o exame à periferia
• Tenho orgulho do meu avô ter criado o Banco Itaú. Mas preciso de uma carreira solo

 

Milú Villela
“Falta a elite pôr a mão na massa” - continuação
 

E o que aconteceu?
A mamografia confirmou um pequeno nódulo. Aí mandaram para o exame patológico. Já queriam tomar as decisões por mim, queriam operar, tirar tudo. Eu falei: vocês estão loucos, eu tô indo embora. Eu vou resolver o que vou fazer da minha vida. Confirmado o câncer, saí do médico, entrei no carro, e gritei. Chorei, me perguntava: “Meu Deus, por quê? Por que eu?”. Tive a reação que todo mundo tem. Aí cheguei em casa liguei para o (médico) Raul Cutait, que é meu amigo. Falei: “Raul: você sabe qual é o centro com maior estatística de cura?”. Era o Memoriam Hospital, em Nova York. Aí ele perguntou: “Quem vai com você?” Eu falei: “Eu vou sozinha. Eu sou uma mulher sozinha”. E ele disse: “Vou com você”.

Como foi a cirurgia?
Durou 45 minutos. Verificaram se havia metástase e não tinha nada. Na semana seguinte voltei para o Brasil para retornar em seguida e fazer seis semanas e meia de radioterapia. Durante o tratamento, montei um esquema para o Ano Internacional do Voluntário não ser prejudicado pela minha saúde. Chamei Luis Norberto Paschoal (dono da DPaschoal) para me ajudar. E já estava tudo engrenado quando eu voltei. Depois que tudo passou, fiquei pensando: se eu não fiz mamografia por dois anos, imagine quem leva quatro horas para ir para o trabalho e mais quatro para voltar. Que horas faz mamografia? Meu sonho era ter um ônibus com mamógrafo para levar o exame à periferia. Eu pus na cabeça que ia fazer isso. Era com dinheiro meu. Técnicos e médicos estudaram, mas chegaram depois à conclusão que não ia dar certo. Que o ônibus ia ser roubado, apedrejado, que o mamógrafo iria quebrar com os buracos das ruas. Estava pronta para fechar o projeto. E eu falava: “Quero isso sendo doado para a cidade de São Paulo, em nome do Ano internacional do Voluntário”. Mas não deu certo e foi uma frustração. Aí partimos para trabalhar pela infância.

É um exemplo da força extra adquirida depois da doença?
Mais força do que perder um único irmão e uma cunhada num desastre de avião? Não sei dizer o que foi mais duro. (Milú se emociona) Acho que foi mais duro perdê-los do que ter câncer. Foi em Parati (RJ) em 1982. O pequeno avião que era dele bateu no pico do Frade. Ninguém achava o avião. Nós só achamos através de uma vidente, a Neila Alckmin, quatro dias após o desastre. Já tinha procurado três videntes antes. Meus pais precisavam de uma prova, se não teriam sempre esperança. Meus sobrinhos tinham 8 e 12 anos, eu cuidava deles, enquanto procurávamos o avião. Foi muito duro. No câncer eu lutei, estava com uma boa auto-estima.

Como se refez?
Experiências duras fazem parte da vida. É preciso dar a volta por cima e sair disso com luz, para fazer um mundo melhor. Foi duro ver meu pai doente tantos anos. Com a morte do meu irmão (Alfredo Villela), ele morreu junto. Foi morrendo aos pouquinhos. A perda de um filho é uma coisa que destrói um verdadeiro pai, uma verdadeira mãe. E o que era o meu câncer diante disso? O que era o meu câncer perto da morte do meu irmão? Todos me vêem sorrindo, agitando, mas minha vida foi muito triste. Não passei fome, nada disso. Minha vida foi dura de experiências: um casamento de 20 anos que não deu certo. Fui educada para um casamento dar certo. A perda de um irmão e uma cunhada, um desastre de avião. Sei que meu irmão está comigo, meu pai está comigo, me orientando. Às vezes não se sabe bem para que lado ir.

E para que lado está indo?
Depois do Ano Internacional do Voluntário, demos seqüência ao trabalho do Jovem Solidário. Queremos que se retome o amor, que os grêmios sejam importantes, que se possa discutir idéias aqui no MAM, nós estamos levando o cinema à periferia, levando cinema à Febem para discutir valores. Estou colocando hoje minha imagem a serviço de um Brasil melhor. Capacitamos mais de 40 mil pessoas em quatro anos como voluntários, e mais 450 ONGs. Temos obrigação de fazer mutirões, plantar flores, tirar lixo da rua, humanizar hospitais, cantar o Hino Nacional. A sociedade civil tem um papel. Antes a gente achava que tudo era o governo que tinha que fazer.

Como sua mãe, que tem 84 anos, vê sua transformação?
Na reinauguração do Itaú Cultural (do qual é presidente), ela me falou: “Você sempre foi a primeira da classe, só que a timidez te abafava e agora você está aqui, inaugurando isso tudo”. Ela soluçava. Fiquei de joelhos diante dela na hora em que acabei de discursar. E falei para o Fernando Henrique, que estava lá: “Primeiro vou abraçar minha mãe”.

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EDIÇÃO 148
 
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Milú Villela diz: "É in fazer alguma coisa pelo País, é totalmente out não fazer nada". E você? Faz algum trabalho voluntário?
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