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Em
sua pequena sala no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo,
a presidente do museu, Maria de Lourdes Egydio Villela, parece ter
um relógio que marca o tempo de outro jeito. Para Milú
Villela, cronologia é uma bobagem. Tanto que ela nem declara
a idade. Poderia ter 25 anos, por sua energia esfuziante, 55 pelo
porte físico de elegante senhora da elite paulistana ou 93,
pela quantidade de coisas que já realizou e viveu. Mãe
de dois rapazes e controladora, junto com dois sobrinhos, de 33%
das ações do Banco Itaú, fundado por seu avô
Alfredo Egydio de Souza Aranha, Milú abraçou a causa
social como uma religião. Em 2001, comandou com galhardia
o Ano Internacional do Voluntário. Presidente do Faça
Parte - Instituto Brasil Voluntário, ela impressiona
governos e empresários com o sucesso alcançado. Milú
representa a elite que faz. Agora se concentra no projeto Jovem
Solidário mantendo aquecido o motor do voluntariado.
Com fôlego de leoa, acaba de reinaugurar o Itaú Cultural.
Filha de Maria de Lourdes, 84, única filha de Souza Aranha,
e do médico Eudoro Libânio Villela, Milú tem
rica história familiar de ambos os lados.
Junto
de Carlos Chagas, Eurico Villela, seu avô paterno, descobriu
a doença de Chagas, sendo contaminado pelo barbeiro. Ele
morreu da doença, ela diz. Também gosta de contar
que o pai deixou a vida de pesquisador ao lado de Madame Curie em
Paris para vender tecidos na rua 25 de março em São
Paulo. Depois de casado, foi estimulado pelo sogro a assumir o banco
que veio a se transformar no Itaú. Mística e religiosa,
para ela o pai, que morreu em 2001, está sempre ao seu lado.
Você
passou anos sendo a filha do principal acionista do Banco Itaú
e hoje é uma líder em cidadania. Quando começou
a transformação?
A gente pode nascer líder e a gente pode virar líder.
Como mãe, você é líder. Levava e buscava
meus dois filhos na escola, dedicava-me totalmente à família.
Fui líder na família. Estava me doando, inventando
cursos pra eles. Jamais pretendi aparecer em público na minha
vida. Era totalmente contra os meus princípios. Quando assumi
o MAM há oito anos eu era tímida, ficava enrubescida
quando falava em público. Com o MAM, tudo começou.
Abraçar o voluntariado nasceu disso.
E
como foi se transformando?
Com meus filhos criados, tive essa oportunidade. O museu me deu
autoestima. Eu não tinha isso. Percebi que tinha capacidade
de fazer muito mais coisas. Eu fiz 6 anos de psicologia educacional
na PUC, tive uma escola, onde introduzi o método Piaget em
São Paulo. Já tinha um trabalho social em bairros
da periferia. Meu objetivo no MAM era educar através da arte.
Aí comecei a pensar que tinha que ser a marqueteira do MAM.
Eu era uma pessoa que não tinha aparecido até então.
Refiz todo o MAM em cinco meses, sem incentivo, porque naquela época
a lei Rouanet demorava muito. Eu ia a grandes, médias e pequenas
empresas pedir dinheiro. E à medida que ia conseguindo isso,
também foi nascendo a idéia do voluntariado.
Quantos
empresários você já arrebanhou para essa causa?
Vi no comando do Ano Internacional do Voluntário que tem
muita gente que queria fazer o que eu faço. Por que nos Estados
Unidos existem 100 milhões de voluntários? Há
23 milhões deles que dão cinco horas por semana para
a causa. Isso significa que eles não seriam essa potência
que eles são, se eles não tivessem a força
voluntária por trás. O 11 de setembro não teria
se resolvido daquele jeito, se eles não tivessem aqueles
voluntários doando sangue, recolhendo os escombros e pondo
a mão na massa.
A
difícil experiência de ter tido câncer de mama
em 2000 lhe deu garra de ir atrás dessa causa?
Eu já ia atrás. Depois disso, acho que vou mais. Nessa
história do câncer, fui privilegiada. Soube por um
mapa astral. Foi um astrólogo, que mora no Rio. Todo ano
ele me mandava uma projeção. Nunca vi a cara dele.
Naquela projeção de 2000 ele me disse que havia um
nódulo do seio esquerdo. Não dava para sentir no toque.
Aconselhou-me a fazer uma mamografia. Aí fui a um centro
radiológico e falei: pode olhar aí do lado esquerdo,
tem um nódulo. O médico achou que eu era biruta. Eu
cheguei falando que estava com nódulo do lado esquerdo. Já
cheguei com o diagnóstico.
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