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20/05/2002

   
 
André Durão
“Em restaurantes, se não fizer o pedido com sotaque brasileiro ninguém me entende”, diz a atriz

 

Carreira/Maria João
Uma portuguesa no Rio
Atriz de novelas em Portugal, a ex-modelo deixa a família e o namorado em seu país para atuar em O Clone e conta suas desventuras no Brasil

Luís Edmundo Araújo

 

Abordada por uma fã mirim, a atriz portuguesa Maria João Bastos, 26 anos, procurou atendê-la da melhor forma possível. Demonstrava simpatia, interesse e por isso estranhava o silêncio da menina de 12 anos. Até que, num dado momento, a pequena admiradora tomou coragem e fez a pergunta que a atormentava. “Você fala português?”. A história, passada no Rio de Janeiro há cerca de dois meses, mostra como a intérprete da jornalista Amália em O Clone tem sofrido para se fazer compreender no Brasil, onde vive há seis meses. “Em restaurantes, se não fizer o pedido com sotaque brasileiro ninguém me entende”, diz a atriz, já resignada.

Pelo menos em O Clone, em que interpreta uma portuguesa, Maria João não tem esse problema. Porém, teve de driblar o nervosismo nas primeiras cenas com ídolos como o veterano Reginaldo Farias. “Sempre fui louca pelas novelas brasileiras que passavam em Portugal. Não sei como não fiquei nervosa e consegui gravar com Reginaldo sem errar”, conta ela, que estreou na televisão portuguesa em 1997. “Não percebi qualquer nervosismo por parte dela. Se ficou nervosa, ela superou bem e não deixou transparecer nada, o que só mostra a ótima atriz que ela é”, diz Reginaldo. No ano passado, a atriz gravava a novela A Ganância, em Lisboa, quando foi chamada pela Globo para O Clone. “Acho que viram meu trabalho e gostaram. Terminei de gravar a novela lá e vim”, conta.

Nascida em Benavente, a 80 km de Lisboa, a caçula de três irmãs começou cedo a mostrar o talento artístico. Aos 3 anos, invadiu o palco onde a irmã, então com 7 anos, se apresentava numa peça da escola, puxou o microfone e cantou uma música popular portuguesa. “Roubei a cena. Fui aplaudida por todos”, lembra. A irmã, Inês, hoje é jornalista, mas era parceira de Maria no “teatro caseiro”. Pelo menos uma vez por semana, as duas inventavam uma peça, ensaiavam e, improvisando o figurino com as roupas da família, se apresentavam para os pais e os vizinhos. Quando não tinha peça, o saleiro em forma de microfone era o suficiente para as apresentações musicais da dupla. “Éramos a animação da casa”, conta.

No ar em uma novela recorde de audiência, a atriz portuguesa se assusta com a fidelidade dos brasileiros à trama. “Em Portugal, as novelas também são populares, mas ninguém deixa de fazer outras coisas para ver televisão. Aqui as pessoas não saem de casa antes de acabar O Clone”, diz. Tanta popularidade mudou hábitos de Maria João. Adepta do topless, comum em praias da Europa, a atriz achou que poderia tirar a parte superior do biquíni em alguma praia mais afastada de Búzios, na Região dos Lagos do Rio. Doce ilusão. “Toda hora vinha alguém falar comigo, me oferecer comida, bebida. Não consegui ficar sozinha”, conta.

Conhecer o Brasil, aliás, foi outra experiência que Maria João teve graças à novela. A atriz, que nunca tinha estado no País, já foi à Bahia e conheceu boa parte do litoral do Rio. No começo, foi difícil ficar longe da família e do namorado, um piloto de avião português, mas a experiência de modelo, que durante seis anos viajou pela Europa, ajudou-a a superar a saudade de casa. “Vir para outro país e trabalhar num projeto tão importante como esse é mais difícil, mas acabou tudo bem, e agora já está no final”, afirma a atriz, que pretende retornar a Portugal tão logo terminem as gravações da novela, em junho. Voltar ao Brasil? “Tenho uma carreira no meu país e, por enquanto, quero seguir com ela.”

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