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29/04/2002

   

Solidariedade
Uma Rockefeller na favela
Herdeira de uma das maiores fortunas americanas, Peggy Dulany já morou na favela do Jacarezinho, no Rio, freqüentou o Brasil por três décadas e dedica sua vida à luta contra a pobreza

Tiago Ribeiro

 

André Durão
Peggy no Rio em visita a projetos sociais: “A maior aprendizagem que recebi morando na favela do Jacarezinho foi que ninguém tem mais interesse de resolver a pobreza do que as pessoas afetadas por ela”, diz, em bom português

A camisa e a saia simples que Peggy Dulany veste combinam com a prosaica sandália rasteira de couro que ela sempre traz nos pés. Pode parecer detalhe, mas as roupas traduzem a personalidade dessa americana de 54 anos, três deles vividos no Brasil. Filha de David Rockefeller, 87 anos, Peggy é herdeira de uma das famílias mais poderosas, tradicionais e ricas dos Estados Unidos. “Decidi, ainda jovem, não usar o sobrenome de meu pai”, diz. O relacionamento deles, no entanto, não podia ser melhor. “Meu pai sempre me incentivou e hoje, perfeitamente lúcido, tem orgulho de mim”, diz. Peggy passou então a usar o sobrenome da mãe. Passou também a se preocupar com a desigualdade social de países do terceiro mundo. “Por alguma razão nasci com essa paixão. Não sei se é genético, cultural ou educacional”, diz.

Em 1965, veio conhecer o Rio de Janeiro. “Morei na casa de amigos de meus pais, os Klabin”, recorda, referindo-se à família dona da empresa homônima que fabrica papel e celulose. “Tinha terminado o segundo grau e aceitei o convite deles para morar aqui”, lembra. Decidida a não ser mais uma turista “gringa” na cidade, passou a freqüentar um grupo de estudos comandado pelo americano Anthony Leeds. “Ele trabalhava com sociólogos, antropólogos, voluntários e favelados, e eu me integrei ao grupo. Foi esse projeto que me educou para trabalhar com desenvolvimento social”, explica. Disposta a conhecer a realidade dos favelados cariocas, em 1968 a jovem milionária foi morar três meses na favela do Jacarezinho. “Fiquei na casa de uma costureira. Um amigo voluntário morava lá e contou que ela alugava quartos. Foi a experiência formadora da minha vida”, diz. A costureira e o marido morreram, mas Peggy não perdeu contato com a filha caçula do casal, que na época tinha 12 anos.

Ela deixou saudade no Brasil. Maurício Fernandes da Costa, 56 anos, lembra da velha amiga. “Eu trabalhava como carteiro da embaixada dos Estados Unidos, então me envolvia com os americanos que faziam trabalho comunitário nas favelas cariocas”, conta. Funcionário da embaixada americana por 23 anos, ele destaca a simpatia da milionária. “Ela sempre foi alegre. Havia umas festas na casa onde ela morava na favela, e dançávamos Beatles. Nunca mais a vi”, diz. “Uma vez a Peggy se hospedou no Copacabana Palace com o pai e ligou para dois amigos nossos da favela porque queria vê-los. Ao chegarem no hotel, foram barrados pelos seguranças, que só acreditaram que eles a conheciam quando ela chegou com o pai”, ri o ex-carteiro.

De volta aos Estados Unidos, Peggy formou-se em educação pela Universidade de Harvard, casou-se e teve o filho Michael, 25, ator de teatro. Nem a maternidade conseguiu afastá-la das causas sociais. “Parei de viajar quando ele era pequeno. Só recomecei quando ele tinha 12 anos.” Quase vinte anos após deixar o Brasil (embora tenha voltado várias vezes), Peggy fundou o Instituto Synergos, em 1986. “Somos uma ponte entre empresários, organizações não-governamentais, movimentos sociais e governantes para juntar esforços contra a pobreza”, diz.

Sua vida é visitar países da América Latina, Ásia e África. “A maior aprendizagem que recebi morando na favela do Jacarezinho foi: ninguém tem mais interesse de resolver a pobreza do que as pessoas afetadas por ela”, diz, sempre em bom português, com uma pitada de sotaque carioca. Convidada pela ABDL (Associação Brasileira para Desenvolvimento de Lideranças), Peggy passou uma semana no País para falar sobre as atividades desenvolvidas por seu instituto. Sempre discreta, aproveitou para conhecer projetos sociais no Rio. “Geralmente sou anônima, já que as pessoas me conhecem como Peggy Dulany”, explica ela, que é fã de Maria Bethânia e Caetano Veloso.

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