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Entrevista

08/04/2002

   
Cláudio Gatti
“Acho que o Fernando Henrique foi uma pessoa feliz pela maneira como se colocou frente ao problema, a começar por ter assumido que experimentou maconha”
 
CONTINUAÇÃO
A maioria dos usuários não se torna dependente nem vai da maconha para drogas mais pesadas
Um em cada dois usuários de cocaína se torna dependente e ela pode matar até alguém que usa uma única vez
Castigar, vasculhar a bolsa do filho, cheirar sua boca. Isso não tem eficácia em termos de prevenção
• A postura proibicionista causa mais mal do que a droga em si

 

O Clone mostra só um lado
das drogas”
- continuação
 

Mesmo que ele for menor?
Você está se baseando no modelo americano, na qual nossa lei se baseia. Na maneira de consumo européia, as crianças e adolescentes tomam vinho e aprendem a fazê-lo. Eu tenho plena convicção de que esse é o melhor modelo de prevenção. O que você vê nos Estados Unidos? A ideologia do “diga não às drogas”. Lá a bebida é proibida para menores e eles se reúnem e bebem escondidos até entrar quase em coma. Isso acontece menos na Europa.

A Europa tem menos problemas?
Muito menos, com todas as drogas. Isso é levantamento epidemiológico. Os Estados Unidos são campeões mundiais de dependência. Pesquisas feitas pelos próprios americanos comprovam a ineficácia do modelo repressor. Mas o “diga não às drogas” vende votos. A maioria não vota em quem adota um discurso liberal.

É a favor da legalização da maconha?
Sim. Mas não se trata de fazer apologia. Não acho que fumar vai acrescentar nada a ninguém. O ideal seria as pessoas viverem sem precisar de aditivos, mas a postura proibicionista causa mais mal do que a droga em si. Por exemplo, na Inglaterra foi feita uma experiência em que se fornecia drogas a dependentes. O que aconteceu? Ninguém ficou mais drogado do que já era, e os dependentes saíram do circuito de criminalidade. A taxa de contaminação por HIV caiu para zero, porque deixaram de compartilhar seringas. Mas acho que não existe uma maturidade ainda na população brasileira para arcar com a situação de legalização. Um primeiro passo seria descriminar.

As drogas estão aí, então é melhor aprender a conviver?
Eu acho. Almejar um mundo sem drogas é uma utopia, é hipocrisia. Não existe uma comunidade sem drogas, não existe escola sem drogas. E, se a gente não encarar essa realidade, a gente fica refém dela. É como se um pai, para impedir que os filhos peguem o vírus da aids, baixe uma portaria dizendo que os filhos devem se casar virgens. Eles vão ter sexo do jeito deles e ninguém nunca vai saber nada a respeito. O pai não vai ter nenhum acesso para fazer algum tipo de prevenção.

Você participou da formatação da política nacional antidrogas. Como vê a postura do Fernando Henrique frente a essa questão?
Participei enquanto o Walter Maierovitch estava à frente da Secretaria Nacional Antidrogas. Nossa proposta foi engavetada. Hoje há uma nova proposta sendo implantada. Acho que o Fernando Henrique foi uma pessoa feliz pela maneira como se colocou frente ao problema, a começar por ter assumido que experimentou maconha. A Ruth Cardoso defendeu publicamente a descriminação dessa droga. Acho uma postura corajosa. O problema é que, devido a uma série de confrontos políticos, essa secretaria foi reconfigurada. Foi uma iniciativa admirável, mas acho que não houve possibilidade política de continuar. Acho uma pena.

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