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Mesmo
que ele for menor?
Você está se baseando no modelo americano, na qual
nossa lei se baseia. Na maneira de consumo européia, as crianças
e adolescentes tomam vinho e aprendem a fazê-lo. Eu tenho
plena convicção de que esse é o melhor modelo
de prevenção. O que você vê nos Estados
Unidos? A ideologia do diga não às drogas.
Lá a bebida é proibida para menores e eles se reúnem
e bebem escondidos até entrar quase em coma. Isso acontece
menos na Europa.
A
Europa tem menos problemas?
Muito menos, com todas as drogas. Isso é levantamento epidemiológico.
Os Estados Unidos são campeões mundiais de dependência.
Pesquisas feitas pelos próprios americanos comprovam a ineficácia
do modelo repressor. Mas o diga não às drogas
vende votos. A maioria não vota em quem adota um discurso
liberal.
É
a favor da legalização da maconha?
Sim. Mas não se trata de fazer apologia. Não acho
que fumar vai acrescentar nada a ninguém. O ideal seria as
pessoas viverem sem precisar de aditivos, mas a postura proibicionista
causa mais mal do que a droga em si. Por exemplo, na Inglaterra
foi feita uma experiência em que se fornecia drogas a dependentes.
O que aconteceu? Ninguém ficou mais drogado do que já
era, e os dependentes saíram do circuito de criminalidade.
A taxa de contaminação por HIV caiu para zero, porque
deixaram de compartilhar seringas. Mas acho que não existe
uma maturidade ainda na população brasileira para
arcar com a situação de legalização.
Um primeiro passo seria descriminar.
As
drogas estão aí, então é melhor aprender
a conviver?
Eu acho. Almejar um mundo sem drogas é uma utopia, é
hipocrisia. Não existe uma comunidade sem drogas, não
existe escola sem drogas. E, se a gente não encarar essa
realidade, a gente fica refém dela. É como se um pai,
para impedir que os filhos peguem o vírus da aids, baixe
uma portaria dizendo que os filhos devem se casar virgens. Eles
vão ter sexo do jeito deles e ninguém nunca vai saber
nada a respeito. O pai não vai ter nenhum acesso para fazer
algum tipo de prevenção.
Você
participou da formatação da política nacional
antidrogas. Como vê a postura do Fernando Henrique frente
a essa questão?
Participei enquanto o Walter Maierovitch estava à frente
da Secretaria Nacional Antidrogas. Nossa proposta foi engavetada.
Hoje há uma nova proposta sendo implantada. Acho que o Fernando
Henrique foi uma pessoa feliz pela maneira como se colocou frente
ao problema, a começar por ter assumido que experimentou
maconha. A Ruth Cardoso defendeu publicamente a descriminação
dessa droga. Acho uma postura corajosa. O problema é que,
devido a uma série de confrontos políticos, essa secretaria
foi reconfigurada. Foi uma iniciativa admirável, mas acho
que não houve possibilidade política de continuar.
Acho uma pena.
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