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Entrevista

08/04/2002

   
Claudio Gatti
“Seria mais importante mostrar os perigos do uso da droga, como acidentes de carro, do que focalizar a questão da dependência”, diz Dartiu
 
CONTINUAÇÃO

A maioria dos usuários não se torna dependente nem vai da maconha para drogas mais pesadas

• Um em cada dois usuários de cocaína se torna dependente e ela pode matar até alguém que usa uma única vez
• Castigar, vasculhar a bolsa do filho, cheirar sua boca. Isso não tem eficácia em termos de prevenção
A postura proibicionista causa mais mal do que a droga em si

 

O Clone mostra só um lado
das drogas”

Consultado pela autora Glória Perez, especialista em tratamento de dependentes vê exagero na abordagem do tema na novela das oito e diz que almejar um mundo sem drogas é utopia

Silvia Ruiz

 

O psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, 46 anos, conhece as drogas de perto. Como diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), da Universidade Federal de São Paulo, um dos principais centros de referência em tratamento e prevenção às drogas, ele vê, diariamente, os efeitos devastadores que elas provocam nas pessoas. Com 20 anos de batalha pela prevenção, Dartiu contou à Gente que ficou entusiasmado quando soube que a novela das oito iria tocar na questão, mas acabou decepcionado com o que viu em O Clone. Para ele, a autora Glória Perez errou a mão ao retratar personagens extremos e distantes da vida real da maioria dos que usam maconha, álcool e cocaína.

Como avalia a abordagem das drogas em O Clone?
O grande mérito da Glória Perez é fazer as pessoas discutirem o assunto. O grande risco disso é cair no estereótipo, de que me parece que ela não conseguiu escapar. Ela entrou em contato comigo perguntando algumas coisas porque tinha receio de não ser fiel à realidade. Isso mostra que houve uma preocupação. Mas suponho que tenha procurado alguém com uma outra visão, pela forma como orientou a novela. Uma coisa em que a novela poderia colaborar, era mostrar que a maioria dos usuários não se tornam dependentes. E também a maioria não vai da maconha para drogas mais pesadas. A realidade sobre as drogas vai contra tudo o que habitualmente se pensa.

O que a novela mostra é irreal?
Mostra uma situação de exceção, não de regra. A novela mostra só um lado das drogas e isso pode disseminar um certo pânico entre os pais. Um usuário esporádico que vê a Mel (personagem de Débora Falabella) vai dizer: “Esse pessoal que escreve essa novela está louco. Eu e meus amigos não somos como essa menina. Ela é muito louca”. Não vai haver identificação. Outra coisa é aquele personagem do Osmar Prado, que aparece fazendo psicanálise, um processo de autoconhecimento pouco indicado nos casos de dependência.

De que maneira a questão deveria aparecer na novela?
Seria interessante mostrar uma família em que o pai fosse alcoólatra e o filho fumasse alguns baseados e que ele fosse a pessoa mais adequada da família, ajudasse a resolver os problemas da casa. Isso é bastante comum. Mostrar isso quebraria preconceitos. Um personagem assim poderia provocar maior identificação e passar mensagens de prevenção. Com a Mel como modelo, só os dependentes irão se identificar.

Ainda há muita desinformação?
Já vi várias vezes a história do filme Bicho de Sete Cabeças se repetir. Pais que me ligaram dizendo: “Doutor, encontrei um baseado com meu filho e o internei”. Aí eu tenho de ir à clínica para tirar o garoto. É um efeito da desinformação.

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FÓRUM 1
O psiquiatra Dartiu Xavier de Silveira elogia Glória Perez por discutir o problema das drogas em O Clone, mas acha que a novela mostra um estereótipo e afirma: "nem todo usuário se torna dependente". O que você pensa disso? Dê sua opinião
 
 
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