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O psiquiatra
Dartiu Xavier da Silveira, 46 anos, conhece as drogas de perto.
Como diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência
a Dependentes), da Universidade Federal de São Paulo, um
dos principais centros de referência em tratamento e prevenção
às drogas, ele vê, diariamente, os efeitos devastadores
que elas provocam nas pessoas. Com 20 anos de batalha pela prevenção,
Dartiu contou à Gente que ficou entusiasmado
quando soube que a novela das oito iria tocar na questão,
mas acabou decepcionado com o que viu em O Clone. Para ele,
a autora Glória Perez errou a mão ao retratar personagens
extremos e distantes da vida real da maioria dos que usam maconha,
álcool e cocaína.
Como
avalia a abordagem das drogas em O Clone?
O grande mérito da Glória Perez é fazer as
pessoas discutirem o assunto. O grande risco disso é cair
no estereótipo, de que me parece que ela não conseguiu
escapar. Ela entrou em contato comigo perguntando algumas coisas
porque tinha receio de não ser fiel à realidade. Isso
mostra que houve uma preocupação. Mas suponho que
tenha procurado alguém com uma outra visão, pela forma
como orientou a novela. Uma coisa em que a novela poderia colaborar,
era mostrar que a maioria dos usuários não se tornam
dependentes. E também a maioria não vai da maconha
para drogas mais pesadas. A realidade sobre as drogas vai contra
tudo o que habitualmente se pensa.
O
que a novela mostra é irreal?
Mostra uma situação de exceção, não
de regra. A novela mostra só um lado das drogas e isso pode
disseminar um certo pânico entre os pais. Um usuário
esporádico que vê a Mel (personagem de Débora
Falabella) vai dizer: Esse pessoal que escreve essa novela
está louco. Eu e meus amigos não somos como essa menina.
Ela é muito louca. Não vai haver identificação.
Outra coisa é aquele personagem do Osmar Prado, que aparece
fazendo psicanálise, um processo de autoconhecimento pouco
indicado nos casos de dependência.
De
que maneira a questão deveria aparecer na novela?
Seria interessante mostrar uma família em que o pai fosse
alcoólatra e o filho fumasse alguns baseados e que ele fosse
a pessoa mais adequada da família, ajudasse a resolver os
problemas da casa. Isso é bastante comum. Mostrar isso quebraria
preconceitos. Um personagem assim poderia provocar maior identificação
e passar mensagens de prevenção. Com a Mel como modelo,
só os dependentes irão se identificar.
Ainda
há muita desinformação?
Já vi várias vezes a história do filme Bicho
de Sete Cabeças se repetir. Pais que me ligaram dizendo:
Doutor, encontrei um baseado com meu filho e o internei.
Aí eu tenho de ir à clínica para tirar o garoto.
É um efeito da desinformação.
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