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01/04/2002

   
Leandro Pimentel

Reprodução
Com Nana Caymmi
Fotos: Reprodução
Com Martinho da Vila
Fotos: Reprodução
Com outras celebridades como Elis Regina e Maria Bethânia
Leandro Pimentel
O plano de saúde de Rosinha foi cancelado. “Pagava R$ 90 por mês, mas aumentaram para R$ 300. Demorei a conseguir o dinheiro e cancelaram o plano”, diz Maria das Graças, irmã da cantora. Ao lado, com o filho Pedro

 

Por onde anda/ Rosinha de Valença
Dez anos em coma
Sucesso nos anos 60, a cantora leva uma vida vegetativa e sobrevive com ajuda da prefeitura de Valença (RJ)

Luís Edmundo Araújo

 

Ela já foi considerada uma das maiores violonistas do Brasil, acompanhou nomes como Maria Bethânia e Martinho da Vila, mas hoje vive esquecida em Valença, a cidade no sul do Estado do Rio de Janeiro que lhe deu o nome artístico. Aos 60 anos, Maria Rosa Canellas leva uma vida vegetativa desde que entrou em coma, há 10 anos, devido a uma lesão cerebral causada por problemas pulmonares. No quarto que ocupa nos fundos da casa da irmã, Maria das Graças, as únicas lembranças do tempo em que era conhecida como Rosinha de Valença são um violão e um bandolim ao lado da cama e as fotos nas paredes.

Durante a carreira, Rosinha colecionou histórias acompanhando os principais nomes da Música Popular Brasileira. “Virou lenda a mania dela por histórias em quadrinhos. O mundo podia desabar que ela não largava as revistinhas da Luluzinha”, lembra o violonista Turíbio Santos, que hospedou a colega em Paris, em 1967. Foi em Paris, aliás, que Rosinha morou de 1988 até ficar doente. No dia 13 de abril de 1992, a violonista estava de férias, em seu apartamento em Copacabana, no Rio. Hipertensa, teve problemas respiratórios que evoluíram para uma parada cardíaca e provocaram a lesão cerebral. Seu quadro é irreversível. Hoje, ela se alimenta de uma mistura de frutas, sustagem (suplemento alimentar) e farinha láctea através de uma sonda. Seu único movimento é o de abrir e fechar os olhos. “Ela não percebe nada à sua volta, porque o cérebro não armazena mais informação. É como um recém-nascido”, explica a médica Márcia Galvão, que há três anos acompanha o caso.

Duas enfermeiras pagas pela prefeitura de Valença se revezam no acompanhamento da paciente. Uma terceira, paga pela irmã Maria das Graças, cobre as folgas das outras duas. Trabalhando como auxiliar administrativo da Fundação Leão XIII de Valença, Maria das Graças cuida de Rosinha há dois anos, desde que a irmã mais velha, Mariló, morreu. Divorciada e mãe de quatro filhos, ela divide com a família as despesas da casa e reclama do abandono ao qual a violonista ficou relegada. “Ai de mim se não tivesse meus filhos”, diz.
O tratamento de Rosinha custa cerca de R$ 1 mil por mês. Há um mês, a família sofreu um novo baque, quando a Unimed cancelou o plano de saúde da violonista. “Pagava R$ 90 por mês, mas aumentaram para R$ 300. Demorei a conseguir o dinheiro e cancelaram o plano”, resume Maria das Graças.

Segundo ela, a irmã só precisa do plano quando tem de ser internada, o que não acontece há um ano. A secretária de Cultura de Valença, Dilma Dantas, reconhece que a violonista que dá nome ao principal teatro do município está esquecida. “Queremos fazer uma festa em julho, no mês do aniversário dela, e estamos fazendo um livro sobre ela”, diz. A biografia ficará a cargo de Jô Macedo, cantora e ex-parceira e amiga de Rosinha. “Ela é um patrimônio do Brasil inteiro”, afirma Jô.

No livro, deverão constar histórias como a de 1963, na Califórnia. Tocando numa festa na casa de uma amiga, Rosinha arrancou aplausos de uma negra americana, que não parava de gritar “wonderful” (maravilhoso, em inglês) enquanto ela dava sua canja. No fim, ficou sabendo que a mulher era Sarah Vaughan, uma das divas do jazz americano. Com Roberto Menescal, a surpresa foi a mesma. Violonista consagrado, Menescal havia sido convidado para assistir Rosinha tocar na casa de um amigo. Era o início da década de 60 e nenhuma mulher tinha despontado no País, até então, como uma virtuose do violão. “Quando vi aquela moça tímida, com um vestidinho de interior, achei que tinha entrado numa roubada”, lembra Menescal, que logo mudou de opinião. “Ela mandou um violão no melhor estilo Baden Powell.” A comparação com o autor de “Berimbau” também foi lembrada por Turíbio Santos. “Ela era o Baden Powel de saias.”

Rosinha aprendeu a tocar com o tio, um seresteiro de Valença conhecido como Fio da Mulata, mas desenvolveu o talento sozinha. Ela chegou a ensinar ao sobrinho Pedro, seu afilhado, que tocou baixo numa banda mas deixou de lado os instrumentos. O argumento para a decisão parece inabalável. “Se minha tia hoje está esquecida, imagina o quanto seria difícil pra mim ser reconhecido na música.”

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