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01/04/2002

   
 
Oslaim Brito/AE
Oslaim Brito/AE

A caderneta de vacinação do filho de Rosemeire com os pedidos de vacina feitos por Chipkevitch e o desconto de 10% dado por ele: pretexto para segunda consulta e injeção, que sedava as vítimas

Jayme de Carvalho JR.
“Chorei muito dirigindo no trânsito sozinha. Me coloquei no lugar dessas mães’’ Rosemeire Barros, mãe de um rapaz de 16 anos que se consultou com o médico mas não sofreu abuso sexual

 

Capa
Vítimas do horror
O desespero e o sentimento de traição dos pais que levaram os filhos para se consultar com o renomado pediatra de São Paulo, preso por sedar e abusar sexualmente de pelo menos 35 garotos

Juliana Lopes

 

Numa tarde de novembro de 2001, a corretora de imóveis Rosemeire Barros, 39 anos, acompanhou seu filho único de 16 anos, ao consultório do renomado médico Eugênio Chipkevitch, em São Paulo. “Tinha feito um plano de saúde há pouco tempo e queria fazer um check-up do meu filho. Procurei um profissional que não fosse pediatra porque ele tem 16 anos e vi o nome dele com destaque no catálogo da assistência médica. Como só tinha ele para adolescente, achei interessante e era bem perto de casa”, contou Rosemeire à repórter Luciana Franca. Quando ligou para marcar horário, a secretária do médico, Regina Célia Brasil Corrêa, avisou que a consulta era demorada e pediu para que ele levasse a caderneta de vacinação do adolescente. No dia da consulta, Rosemeire entrou na sala do consultório bem decorado junto com o filho. Respondeu por 15 minutos a perguntas corriqueiras sobre o parto, alergias do garoto e se ele havia passado por alguma cirurgia. “Depois ele pediu para eu me retirar porque queria conversar com meu filho. Achei normal porque meu filho poderia querer contar ao médico coisas que não fala para mim. Adolescente não diz tudo para a gente”, diz a corretora.

A conversa, porém, demorou muito. “Fiquei mais de uma hora e meia na sala de espera e estranhei. Mas a secretária lembrou que havia me dito que a consulta era demorada.” Ao final, o médico solicitou de Rosemeire algumas vacinas entre outros exames. E a repreendeu porque o rapaz ainda não havia tomado vacinas contra hepatite. “Ele me deixou numa situação constrangedora para que meu filho me cobrasse as vacinas. Me fez sentir a pior mãe do mundo”, relata Rosemeire. O retorno foi protelado por causa das férias, mas ocorreria em breve. Para a sorte de Rosemeire e de seu filho, a volta nunca aconteceu. As vacinas abriam o caminho para Chipkevitch despir-se da figura de médico respeitável e assumir seu lado monstro. Ao invés de dar vacinas, ele sedava alguns pacientes, todos meninos entre 9 e 16 anos, e abusava sexualmente deles.

A farsa começou a ser desmontada. Na noite de quarta-feira 20, quando um técnico de uma empresa telefônica encontrou as fitas numa caçamba de entulho e, após assisti-las, repassou trechos a emissoras de tevê. Neste dia foram ao ar, no Programa do Ratinho, no SBT, imagens de Chipkevitch molestando sexualmente seus pacientes. Nus e dopados no vídeo caseiro gravado no consultório pelo próprio médico, os meninos foram acariciados e penetrados. O pediatra, que foi casado durante seis anos até 2000, tem um filho adotivo de 10 anos e uma coleção de títulos importantes. Formou-se em 1978 na faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP), é chefe do Serviço de Adolescentes do Hospital Infantil Darcy Vargas e membro de associações como o Society for Research on Adolescence (Sociedade para Pesquisa em Adolescência) dos Estados Unidos.
Cobrava R$ 240 pela consulta.

Garotos de programa Entre os telespectadores de Ratinho, estavam Rosemeire e o filho, que reconheceu Chipkevitch. Foi Rosemeire quem ligou para a produção do SBT para passar o nome completo do médico, até então não identificado. “Depois que passou a primeira cena, a gente ficou num estado de nervos e pedi para meu filho me contar tudo o que aconteceu na consulta”, relata. O médico perguntou ao filho da corretora se ele usava drogas, se saía com menina, se era virgem, se era heterossexual e se tinha atração por algum amiguinho. Após ver as cenas, Rosemeire ficou deprimida e o menino arrasado pois tinha gostado do médico e queria voltar lá. “Me senti até culpada, pois algo poderia ter acontecido. Não fui lá para procurar uma terapia para o meu filho, fui fazer um check-up”, diz ela. “Chorei muito dirigindo no trânsito sozinha. Eu me coloquei no lugar dessas mães. Graças a Deus eu não vou ter que ver essas fitas, porque se tivesse, não teria estrutura.”

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